29 Agosto 2026
“A superação das condições de subdesenvolvimento na América Latina deve levar em consideração as raízes da teoria econômica que vai surgindo na região com o pensamento da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a teoria da dependência, a perspectiva centro-periferia, o desenvolvimentismo e, sem dúvida, o seu próprio ambientalismo, que tem uma longa origem histórica”. A reflexão é de Juan J. Paz e Miño Cepeda, em artigo publicado por Historia y Presente, 24-08-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Durante a segunda metade do século XX, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e a teoria da dependência lançaram as bases decisivas para uma teoria econômica com perspectiva latino-americana, que não podia mais simplesmente replicar acriticamente os conceitos originários da Europa e dos Estados Unidos. No entanto, ainda lhes faltava uma visão própria da relação entre os humanos e a natureza. Essa lacuna pareceu ser preenchida pela economia ecológica, também nascida no mundo desenvolvido.
De fato, desde o final da década de 1980, autores como Nicholas Georgescu-Roegen, Herman Daly, Robert Costanza, Kenneth Boulding, Karl William Kapp e o professor espanhol Joan Martínez Alier têm se concentrado na natureza como uma fonte limitada de recursos diretamente interligada à vida humana, e não meramente como um recurso ambiental ou um fator de produção. Eles criaram ferramentas técnicas como a Análise de Fluxo de Materiais (AFM) e a medição da Pegada Ecológica, com cálculos em toneladas, energia ou hectares de terra. Reconheceram que as relações entre centros e periferias não se limitam à troca monetária desigual de bens, mas a um comércio ecologicamente desigual que desmantela os recursos naturais nas periferias em benefício da acumulação nos centros. Postularam a Justiça Ambiental e a Dívida Ecológica, uma reivindicação de reparações, compensações e pagamentos pela destruição ecológica no Sul Global. Considero que essa dívida ecológica integra a dívida histórica pela apropriação indevida ou destruição de bens culturais, arquitetônicos, artísticos, documentais e até mesmo arquivísticos, perpetrada precisamente em regiões como a América Latina.
Contudo, o ecologismo latino-americano tem raízes profundas e ancestrais nas grandes civilizações indígenas. Antes de mais nada, é importante considerar que as civilizações maia, asteca e inca sintetizaram os avanços ancestrais de seus predecessores, cuja agricultura remonta a cerca de 7.000 a 10.000 anos. Essas civilizações viam a terra, os animais, as plantas, a água e toda a natureza, até mesmo o céu e os corpos celestes, como seres vivos e, ao mesmo tempo, como divinos. Na prática, seus sistemas econômicos dependiam dos recursos fornecidos pela natureza e do equilíbrio e respeito com que esses recursos deviam ser tratados para garantir a vida e o bem-estar dos habitantes. Por isso, existiam rituais para o plantio e a colheita, o corte de árvores sem levar em conta as necessidades da comunidade era proibido e havia punições para quem prejudicasse animais ou recursos naturais.
Os maias, que habitavam florestas tropicais úmidas e solos calcários, desenvolveram o sistema milpa para o cultivo de milho, feijão e abóbora; eles gerenciavam cuidadosamente o uso de poços de água doce (cenotes); e empregavam técnicas para combinar a agricultura com a preservação das florestas tropicais. Os astecas, que viviam em regiões lacustres, cultivavam em ilhas flutuantes artificiais (chinampas) projetadas para conservar todos os recursos disponíveis. Os incas aproveitaram as diferentes zonas ecológicas dos Andes, utilizaram o sistema de terraços e eram especialistas em rotação de culturas. Nas três civilizações, as relações de reciprocidade não eram apenas sociais, mas também ligadas à natureza, à qual ofereciam dádivas.
O trabalho comunitário era a pedra angular da economia e a base do valor dos produtos nas trocas, que não devem ser confundidas com o "comércio" de mercadorias. Entre os incas, a única civilização no mundo onde, além disso, não existiam nem “dinheiro” nem “livre mercado”, o sistema de ayni (reciprocidade entre famílias) funcionava entre os ayllus (grupos de parentesco), enquanto a minka ou minga era dedicada a obras de interesse comunitário e a mita ao trabalho forçado para o Estado, que assim obtinha os bens necessários para a redistribuição.
Entre os astecas, organizavam-se os calpullis, onde as famílias compartilhavam a terra, dedicando o tequio ao trabalho obrigatório em projetos destinados ao bem comum e à manutenção das chinampas (jardins flutuantes). De forma semelhante, entre os maias, o trabalho comunitário mantinha a milpa (campo de milho) e era fundamental para as aguadas (lagoas modificadas), os chultunes (uma espécie de cisterna subterrânea artificial) e o cuidado dos cenotes (sumidouros). O uso de ferramentas rudimentares e a ausência de animais de carga e tração (as lhamas, vicunhas e alpacas do Império Inca não eram adequadas para essas atividades) exigiam trabalho manual e coletivo.
Em todas as civilizações mencionadas, a população participava do trabalho produtivo, com tarefas distribuídas de acordo com a idade, as capacidades físicas e as diferenças entre homens e mulheres. Assim, como no caso dos incas, as terras concedidas como tupus (dízimos) às famílias eram cultivadas pela comunidade quando a família não podia cuidar delas devido a doença, deficiência ou ausência dos homens por conta da obrigação de cumprir a mita (uma espécie de serviço militar). A propriedade privada não surgiu nessa vida comunitária, embora as hierarquias sociais se beneficiassem do trabalho coletivo, expresso como tributo em valor trabalho, e controlassem o poder de forma escalonada, organizando estados que garantiam o abastecimento de alimentos e bens à população em circunstâncias imprevistas. Entre os incas, existia um sistema de tambos (depósitos) para armazenar produtos e redistribuí-los pelas diversas regiões do vasto império.
Esses admiráveis sistemas econômicos foram devastados pela colonização espanhola. No entanto, as comunidades que permaneceram e resistiram continuaram a praticar suas relações ancestrais, fortalecendo a reciprocidade comunitária, que sobreviveu mesmo durante a formação das novas repúblicas após a independência, pelo menos na América Central e na região andina da América do Sul. Essa sobrevivência permitiu a José Carlos Mariátegui (1894-1930) formular seus conceitos sobre o socialismo andino. E, em nossa época, o ecologismo latino-americano, baseado nessa longa história de comunicação entre natureza e humanidade herdada das comunidades indígenas, desenvolveu o princípio do Bem Viver (Sumak Kawsay) como guia para a construção de um Estado que não se limite ao “bem-estar”, como concebido para a vida europeia após a Segunda Guerra Mundial, mas que estabeleça um Estado de Bem Viver.
A Constituição equatoriana, aprovada por referendo popular em 2008, é pioneira no mundo ao proclamar os direitos da natureza e reconhecer o Sumak Kawsay (Bem Viver), princípios também consagrados na Constituição boliviana de 2009. Contudo, ambos os marcos legais foram atropelados por governos de extrema-direita que ressuscitaram slogans neoliberais, a primazia da iniciativa privada, o livre mercado e o alinhamento com a Doutrina Donroe dos Estados Unidos.
Em última análise, a superação das condições de subdesenvolvimento na América Latina deve levar em consideração as raízes da teoria econômica que vai surgindo na região com o pensamento da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a teoria da dependência, a perspectiva centro-periferia, o desenvolvimentismo e, sem dúvida, o seu próprio ambientalismo, que tem uma longa origem histórica.