29 Agosto 2026
Embora um mercado esteja surgindo em outros países, a gigante sul-americana administra a maior rede estatal de bancos de alimentos, com 230 centros de distribuição.
A reportagem é de Niklas Franzen, publicada por El País, 27-08-2026.
Uma névoa fria sobe quando Danielle Aparecida da Silva abre a porta do congelador. Sua mão, coberta por luvas de plástico, retira um pequeno frasco com tampa de rosca. Dentro, há um líquido branco-amarelado, congelado. É leite materno.
“Chegou ontem, enviada por um doador”, diz da Silva por trás da máscara de proteção. Ela confere o número na tampa e verifica as informações. Em seguida, coloca cuidadosamente a garrafa de volta no recipiente. Como se fosse um tesouro precioso. E, de certa forma, é.
Da Silva, de 52 anos, dirige o banco de leite humano mais antigo do Brasil. Ele está localizado no Instituto Fernandes Figueira, no Rio de Janeiro, um hospital público especializado em saúde da mulher e da criança, onde o primeiro banco de leite do país foi fundado em 1943. Do outro lado da rua ficam a Praia de Botafogo e, mais adiante, o famoso Pão de Açúcar, ambos pontos turísticos renomados da cidade. Mas por trás das portas do instituto, não há qualquer preocupação com imagens idílicas de cartão-postal. O que se discute aqui são mililitros, teor de gordura e, em última análise, a saúde de uma nação.
O Brasil possui hoje uma das maiores redes de bancos de leite humano do mundo. A cada ano, aproximadamente 240 mil bebês recebem esse alimento essencial em 230 centros que coletam, analisam e distribuem o leite. A rede faz parte do Sistema Único de Saúde (SUS) e é validada cientificamente pelo instituto público de pesquisa Fiocruz. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o Brasil há muito tempo um modelo de excelência que muitos países vêm imitando.
“Uma criança amamentada é uma criança mais saudável e se tornará um adulto mais saudável”, explica da Silva enquanto caminha por uma sala que lembra um laboratório de química. Funcionários de jaleco branco circulam enquanto uma mulher insere um termômetro em um recipiente com água. O princípio é simples: as mulheres doam o leite materno excedente, os hospitais o processam sob as mais rigorosas condições de higiene e o distribuem para quem precisa, especialmente bebês prematuros e recém-nascidos doentes.
O leite materno contém anticorpos, substâncias anti-inflamatórias e nutrientes importantes. Diversos estudos demonstram que ele pode reduzir significativamente o risco de doenças graves, como a enterocolite necrosante, uma doença intestinal perigosa. Portanto, a OMS recomenda que, quando o leite materno não estiver disponível, seja utilizado leite materno pasteurizado de doadoras em vez de fórmulas infantis comerciais.
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Quatro meses antes da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), durante um fórum internacional preparatório realizado em Belém, foi adotada a Carta de Belém. Este documento sobre bancos de leite humano e mudanças climáticas destaca esses bancos como uma infraestrutura vital em tempos de crise. Como a água potável costuma faltar após enchentes ou secas, o leite doado pasteurizado pode proteger bebês de infecções potencialmente fatais.
Se analisarmos os números, o modelo brasileiro funciona. Entre 1990 e 2015, o Brasil conseguiu reduzir a mortalidade infantil em menores de cinco anos em 73%, segundo dados da UNICEF. Organizações internacionais atribuem esse progresso a uma combinação de políticas de saúde e proteção social, incluindo iniciativas de incentivo ao aleitamento materno e a expansão da rede de bancos de leite, algo que o Ministério da Saúde brasileiro destacou na época. Entre 1990 e 2015, o Brasil conseguiu reduzir a mortalidade infantil em 73%.
Embora o Brasil reconheça o leite materno como um bem público, um novo mercado está surgindo no resto do mundo. As estimativas de mercado variam consideravelmente dependendo da fonte. Alguns relatórios apontam que o setor de bancos de leite humano movimenta entre US$ 400 milhões e US$ 900 milhões (aproximadamente € 340 milhões a € 770 milhões), dependendo dos segmentos incluídos em cada cálculo, com previsões de crescimento sustentado na próxima década. No entanto, não existem relatórios ou estimativas de agências públicas ou organizações da ONU.
Nos Estados Unidos, algumas empresas desenvolveram um modelo de negócios, explica a Dra. Heather Rusi, pesquisadora da Universidade de Calgary. "A indústria comercial de leite materno começou por volta de 1999 com a empresa Prolacta Bioscience", afirma a especialista, que escreveu sua tese de doutorado sobre a comercialização desse produto. "Desde então, as empresas expandiram suas operações globalmente."
Para Rusi, esse desenvolvimento não é totalmente negativo. Empresas privadas têm contribuído para aumentar a conscientização sobre o leite materno e para o financiamento de novas tecnologias. "Essas empresas podem impulsionar avanços científicos na área do leite materno", afirma ela.
Os críticos alertam que os incentivos econômicos podem exercer uma pressão particular sobre as mulheres pobres, porque, se forem pagas pelo leite, poderá haver a tentação de extrair e entregar quantidades maiores do que seria conveniente para o seu próprio filho.
As críticas mais notórias surgiram no Camboja, onde a empresa americana Ambrosia Labs comprava leite de mulheres em comunidades carentes para exportação aos Estados Unidos, uma prática que a UNICEF condenou repetidamente como exploração comercial. Na Índia, a comercialização de leite humano por empresas privadas como a NeoLacta também levantou objeções éticas e regulatórias.
Os fornecedores privados apresentam um cenário diferente. John Mischler, presidente da empresa americana Ni-Q, vê o pagamento principalmente como uma forma de apoio às mães. "É uma situação vantajosa para todos", afirma. O dinheiro ajudaria as mulheres a ficarem em casa e dedicarem mais tempo aos cuidados com os filhos. Sua empresa, garante ele, não encontrou nenhuma evidência de que as mães estejam vendendo leite que era destinado aos seus próprios bebês.
A Prolacta, líder do setor, também afirma, quando questionada, que aceita apenas doadoras que passaram por uma rigorosa seleção. A empresa sustenta que as mulheres contribuem com seu tempo e esforço e, portanto, têm o direito de serem compensadas.
No Brasil, a venda de leite materno é proibida. A Associação Europeia de Bancos de Leite Materno também publicou uma declaração clara em seu site contra o comércio de leite materno.
Uma ideia revolucionária
O Brasil está trilhando um caminho diferente de forma deliberada. Hoje, os doadores são recrutados por meio de campanhas em larga escala. O país promove ativamente o programa, por exemplo, através de comerciais de televisão e nas redes sociais. A solidariedade está no centro da mensagem, e os doadores são aclamados como heróis do dia a dia. Mas nem sempre foi assim.
Em 1985, Guerra de Almeida visitou o banco de leite do Rio de Janeiro, onde pesquisava sobre leite materno. “Fiquei chocado com o que vi”, recorda hoje, aos 68 anos: instalações obsoletas, controles de qualidade precários e custos altíssimos.
Após a visita, ele escreveu ao ministro da Saúde e foi convidado para uma reunião com especialistas em Brasília. Lá, explicou suas propostas e, para sua surpresa, foi ouvido. O governo decidiu reformar completamente os bancos de leite materno e colocou Almeida à frente do projeto. O objetivo era proibir a venda de leite materno, melhorar os padrões de qualidade e reduzir custos. Em vez de usar máquinas de pasteurização importadas que custavam US$ 25.000 (€ 21.000), os bancos de leite brasileiros adotaram uma tecnologia própria muito mais barata: um banho-maria com um ultratermostato que custava cerca de US$ 1.500 (€ 1.300).
Guerra de Almeida discorda da venda privada de leite materno. Segundo ele, as iniciativas privadas visam gerar lucro, enquanto nos programas públicos a prioridade é a saúde. Pelo menos no Brasil, ele acredita que isso não mudará tão cedo. "As pessoas no Brasil entenderam a importância do leite materno para toda a sociedade."
Soluções improvisadas também foram utilizadas para armazenamento: potes esterilizados, originalmente destinados a maionese ou café instantâneo, substituíram os recipientes de laboratório importados.
O fato de o modelo brasileiro funcionar hoje em dia também se deve a outra característica singular: a coleta em domicílio. Em muitas cidades, motoboys recolhem o leite. Essa facilidade de acesso é um fator decisivo para muitas pessoas.
Gabriela Paixão, mãe de dois filhos e moradora do Rio de Janeiro, começou a doar leite materno após o nascimento do segundo filho. Sua motivação surgiu dos encontros com recém-nascidos prematuros no hospital. “Vi bebês tão pequenos e frágeis”, conta. “Fiquei profundamente comovida.” Toda semana, um mototaxista busca o leite congelado em sua casa. Sem esse serviço, ela provavelmente nunca teria começado a doar.
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