Epidemia de Ebola sem precedentes

Foto: National Institute of Allergy and Infectious Diseases/Unplash

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17 Agosto 2026

"É urgente uma resposta global ao surto na República Democrática do Congo, que se está a propagar a um ritmo sem precedentes", afirma o El País, em editorial, 17-08-2026.

Eis o editorial.

Desde que a República Democrática do Congo (RDC) declarou um surto de Ebola há três meses, o vírus matou 2.272 pessoas e o número de casos confirmados chegou a 4.843, resultando em uma taxa de letalidade de 46,9%, segundo os dados mais recentes do governo centro-africano. Este é o maior dos 17 surtos que o país sofreu desde que a doença foi identificada há meio século, e está se espalhando mais rapidamente do que qualquer outro já registrado. Um paciente morre a cada meia hora, destacou na sexta-feira o chefe do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

Nesse ritmo, a epidemia caminha para se tornar a pior da história, como alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS) na semana passada, superando o surto de 2014 a 2016 , que causou mais de 28.600 infecções e mais de 11.300 mortes, concentradas em Serra Leoa, Libéria e Guiné.

A OMS declarou uma emergência internacional de saúde pública em maio, mas seus esforços, juntamente com os de centros africanos de controle e prevenção de doenças e ONGs como Médicos Sem Fronteiras, não conseguiram impedir o avanço alarmante do Ebola em áreas do leste do país, excedendo a capacidade de resposta.

O surto é causado pela cepa Bundibugyo, para a qual não existem vacinas ou tratamentos aprovados, ao contrário da cepa Zaire, responsável pela maioria dos grandes surtos recentes. Três projetos de vacinas financiados internacionalmente estão em andamento e espera-se que produzam resultados rapidamente. A única imunização existente foi desenvolvida durante a epidemia da última década em tempo recorde e levou um ano para ser concluída.

A doença se espalha em meio à persistente insegurança. No leste do país, a guerra entre o governo e o Movimento 23 de Março (M23) continua. O conflito, que carece de atenção internacional, não terminou após a assinatura, em dezembro, do acordo de paz patrocinado por Washington entre a República Democrática do Congo e Ruanda, que apoia as milícias congolesas, embora sempre tenha negado isso. Além de causar milhares de mortes, dezenas de milhares de pessoas foram forçadas a fugir e viver em acampamentos em condições extremamente precárias, o que dificulta a prevenção e a detecção precoce de casos. A província de Ituri, no nordeste, onde o surto foi declarado em maio e onde foram registrados quase 90% dos casos e 80% das mortes, é uma das áreas mais violentas de toda a África e abriga mais de 900 mil deslocados internos. Somente no primeiro trimestre deste ano, mais de 100 mil pessoas foram deslocadas para lá, já sofrendo com condições sanitárias catastróficas. Em uma região que sofreu anos de violência, o medo gerou uma profunda desconfiança, alimentada pela desinformação, em relação às autoridades e às equipes de saúde.

A epidemia evidencia o impacto brutal do fechamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) por Trump e seus cortes drásticos, que foram imitados por outros países. O egoísmo ocidental está custando vidas. O financiamento para o já frágil sistema de saúde da República Democrática do Congo caiu 70%. Programas como água e saneamento, cruciais para conter o Ebola, sofreram cortes de 73%. O Ocidente precisa reagir e não pode mais ignorar a situação, como tantas vezes fez. Pandemias passadas nos ensinaram a dura lição de que é leviano fingir que o que acontece longe de casa não nos afeta. Dezenas de milhares de vidas dependem de uma ação global imediata, ainda que seja apenas para evitar que nossa inação se volte contra nós.

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