A onda de descontentamento desencadeada por Trump ameaça lhe arrebatar o controle do Congresso nas eleições de novembro

Foto: Wikimedia Commons

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10 Agosto 2026

A mudança de estratégia do setor mais progressista dos democratas complica os prognósticos dos republicanos, enquanto a guerra no Irã se agrava no bolso dos eleitores.

A reportagem é de Juan Gabriel García, publicada por elDiario.es, 08-08-2026.

O descontentamento social que Donald Trump capitalizou durante a campanha de 2024 agora se voltou contra ele. O republicano se apegou à frustração dos estadunidenses com o custo crescente do carrinho de compras para, assim, voltar à Casa Branca. Mas Trump agora governa, e os preços continuam subindo. As classes médias percebem que perdem poder aquisitivo enquanto seu presidente se enriquece graças ao cargo.

Em vez de derrubar o establishment de Washington, como prometeu, Trump criou um novo, formado pelos bilionários da tecnologia e por toda a corte que o cerca. Também não se desvinculou da política externa: lançou uma campanha militar contra o Irã, transformou a Venezuela em um protetorado e segue com as ameaças de anexar a Groenlândia.

Neste momento, metade dos estadunidenses diz ter dificuldades para pagar a gasolina (52%) e a cesta básica (51%), segundo uma pesquisa publicada pelo The Guardian em julho. Uma pesquisa anterior, publicada pela CNN no final de maio, já alertava para um encarecimento do custo de vida: a maioria dos estadunidenses (61%) dizia ter precisado reduzir a cesta básica. Outros 59% afirmavam ter deixado de gastar com entretenimento ou ter cortado gastos extras.

Paralelamente, não param de surgir informações sobre como Trump conseguiu aumentar seu patrimônio. Uma cifra que chega a cerca de 1.408.500.000 dólares, embora possa ser maior, segundo os cálculos do The New York Times. Diante dessa realidade, o slogan com o qual o progressista Abdul El-Sayed venceu em Michigan é o seguinte: "Tirar o dinheiro da política, para colocá-lo nos bolsos [das pessoas] e aprovar o Medicare para todos". A ideia de fundo é a mesma com que o socialista Zohran Mamdani chegou, em novembro passado, à prefeitura de Nova York, ou com a qual o pastor presbiteriano James Talarico poderia fazer com que os democratas conquistem uma das duas cadeiras que o Texas tem no Senado.

A apertada maioria que os republicanos têm em ambas as câmaras do Congresso muito possivelmente se dissolverá nas legislativas de novembro. As últimas pesquisas mostram uma vantagem democrata. O prognóstico, porém, não é novo: Trump já começou o ano com esses números, ciente de que sua popularidade estava em mínimas históricas.

Em janeiro, três dias depois de sequestrar Nicolás Maduro, o magnata se dirigia aos legisladores republicanos em um evento anual realizado no Kennedy Center, em Washington, e já levantava a ideia de que provavelmente perderiam cadeiras nas eleições de meio de mandato: "Dizem que quando você ganha a presidência, perde as eleições de meio de mandato. Eu gostaria que vocês pudessem me explicar o que diabos se passa na cabeça das pessoas."

Em uma saída de tom semelhante e mais recente, Trump atacava, no Truth Social, a vitória de El-Sayed: "Se ele triunfar [...] serei, tristemente, e apesar do bom trabalho que estamos fazendo, o último presidente republicano!". Uma afirmação que, longe de prejudicar a imagem do progressista de Michigan, jogava a favor de sua campanha. O próprio El-Sayed compartilhou uma captura da publicação dizendo que "nem eu teria conseguido explicar melhor".

A gravidade da situação na Casa Branca também pode ser medida com base no retorno dos fantasmas da fraude eleitoral. No dia 17 de julho passado, Trump se dirigiu à nação para apresentar as supostas "vulnerabilidades" do sistema eleitoral e voltou a repetir que as eleições de 2020 haviam sido roubadas dele. Nesta ocasião, escalou um pouco mais a narrativa, garantindo que a China havia interferido para impedir sua vitória.

A aliança com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, também está jogando contra Trump. Se Gaza foi uma das razões pelas quais sua rival, Kamala Harris, perdeu as eleições presidenciais de 2024, Israel poderia ser uma das causas pelas quais Trump perca o controle do Congresso. Embora a percepção negativa em relação a Tel Aviv tenha aumentado sobretudo nos círculos democratas, muitos eleitores do círculo conservador consideram que Washington está atolada no Irã por culpa de Netanyahu. Essa ideia, sobretudo, proliferou entre os eleitores conservadores mais jovens, grupo que também foi fundamental para o retorno de Trump ao poder.

Embora o grande problema para o magnata continue sendo que, pela primeira vez em ano e meio, parece ter encontrado uma oposição eficaz. O avanço do setor mais progressista nas primárias democratas demonstra como a estratégia de combater fogo com fogo obtém melhores resultados. O tom populista com que estão sendo comunicadas as propostas de esquerda está conseguindo canalizar o descontentamento e a impotência provocados pela presidência do republicano.

Tanto os candidatos ligados aos Socialistas Democráticos da América (DSA) quanto as figuras progressistas independentes — como Talarico ou El-Sayed — aplicam o diagnóstico básico feito pelo senador independente Bernie Sanders sobre a derrota de 2024: "Não deveria nos surpreender muito que um Partido Democrata que abandonou a classe trabalhadora descubra que a classe trabalhadora o abandonou".

Sanders, uma das vozes mais à esquerda, criticava que "enquanto os líderes democratas defendem o status quo, o povo estadunidense está com raiva e quer mudança". Quase dois anos depois, o senador independente de Vermont compartilhou um vídeo no X para celebrar a vitória de El-Sayed em Michigan, para continuar alimentando o momentum que vive a ala mais à esquerda: "Ontem à noite, do meu ponto de vista, no estado roxo [pêndulo] de Michigan, ocorreu uma virada tectônica na política americana".

O democrata sublinhava como os cidadãos de Michigan haviam superado os milhões de dólares despejados pela AIPAC, o grande lobby pró-israelense dos EUA, na rival democrata Haley Stevens, para erguer um candidato que "tem a coragem de enfrentar os oligarcas e lutar pela classe trabalhadora".

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