A Odisseia destes tempos. Artigo de Martín Smud

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30 Julho 2026

"Uma história de quase 3 mil anos que permanece relevante porque cada época traz novas questões à sua narrativa sobre poder, identidade e memória", escreve Martín Smud, psicanalista e escritor, em artigo publicado por Página|12, 30-07-2026.

Eis o artigo.

Existem filmes cujo final ninguém quer saber antes de entrar no cinema. E existem outros cujo final a humanidade conhece há quase três mil anos. No entanto, raramente vi um espectador tão atento quanto aquele que assistiu a A Odisseia, de Christopher Nolan. É estranho: ninguém foi para descobrir o que ia acontecer. Todos sabíamos que Odisseu retornaria a Ítaca. O que buscávamos era outra coisa. Queríamos descobrir por que ainda precisamos dessa história. A Ilíada e a Odisseia de Homero foram compostas por volta do século VIII a.C., há cerca de 2.700 anos, provavelmente a partir de uma longa tradição oral, e ambas pertencem ao gênero épico. Além disso, a tradição romana chamaria Odisseu de Ulisses. Essa é a coisa extraordinária sobre os clássicos. Eles não sobrevivem porque são antigos. Sobrevivem porque cada época encontra neles uma questão diferente.

Alguns verão um blockbuster, um filme de aventura, uma sucessão de batalhas, monstros, tempestades e naufrágios. Uma epopeia espetacular escrita há milhares de anos. E tudo bem. O filme funciona nesse nível também. Mas parar por aí seria como acreditar que o mar de Homero é apenas água. A Odisseia fala de poder, amor, guerra, identidade e memória e, acima de tudo, da mudança dos tempos.

Homero escreve na fronteira entre um mundo que está desaparecendo e outro que ainda está por nascer. Nós também vivemos em uma dessas fronteiras. Talvez seja por isso que a história nos comove novamente.

Odisseu parte como rei e retorna como mendigo. Vinte anos depois, não tem exército, nem reconhecimento. Não consegue nem sequer dizer: "Eu sou Odisseu". Como se tudo o que vivenciou não bastasse, precisa provar seu valor mais uma vez. Descobre que um nome por si só não é suficiente para superar o destino. Quantas vezes acreditamos que simplesmente lembrar quem fomos basta para reconquistar um lugar? Quantas vezes retornamos a uma casa, um emprego, uma cidade ou um amor, convencidos de que tudo nos aguarda intacto? Retornar nunca traz o passado de volta. Traz de volta uma outra versão de nós mesmos. É por isso que a verdadeira odisseia não se trata de cruzar Ciclopes, sereias ou tempestades. Trata-se de retornar transformado.

Uma antiga intuição freudiana também ilumina esta história: onde o sujeito acredita que triunfará, começa sua ruína. O herói conquista Troia. Ele concebe o Cavalo que lhe garantirá a vitória final. Mas esse triunfo contém a semente de tudo o que virá depois. O Cavalo de Troia representa não apenas uma brilhante estratégia militar. Representa o fim de uma civilização. Até então, as guerras eram regidas por códigos. Depois do cavalo, surge outra lógica: a destruição não entra mais pela força; entra disfarçada de dádiva. Cada era cria seu próprio Cavalo de Troia. Ele sempre chega disfarçado de solução, progresso, segurança ou vitória. Foi o caso da "Solução Final" do nazismo, das ditaduras latino-americanas e dos genocídios que continuamos a testemunhar hoje. Quando percebemos o que estava escondido lá dentro, geralmente é tarde demais.

O filme também se presta a uma leitura feminista. Durante séculos, pensamos que o herói era Odisseu. Mas, com o passar dos anos, comecei a suspeitar que a verdadeira heroína era Penélope. Ele luta contra monstros. Ela luta contra o tempo. Ele enfrenta tempestades. Ela enfrenta vinte anos de espera. Ele enfrenta inimigos visíveis. Ela luta contra pretendentes, exaustão, desespero e a pressão de um poder que busca reduzir o amor a uma mera questão de herança e dominação. Os homens chegam com espadas. Penélope responde com inteligência. Eles querem o reino. Ela se apega a um desejo.

Circe, a feiticeira, também ocupa um lugar extraordinário. Em um dos momentos mais extraordinários, ela transforma os homens em porcos, e não realiza um simples ato de magia. Ela os desnuda. Lança uma acusação feroz. Ela os esculpe até que o que eles realmente eram se torne visível. Ela lhes devolve uma imagem de si mesmos. Voracidade, violência e a incapacidade do patriarcado de reconhecer o outro transformam os homens em porcos. Circe não os transforma: ela remove seus disfarces. O que emerge não é um feitiço, mas uma verdade. Talvez a magia resida não em transformá-los, mas em revelar o que a guerra conseguiu apresentar como natural.

Outra mulher marcante é Calipso, uma ninfa que resgata Odisseu após um naufrágio e o mantém em uma ilha paradisíaca por sete anos. Ela o ama profundamente, chegando a oferecer-lhe a imortalidade se ele permanecer com ela. Que tipo de felicidade exige esquecer quem somos, de onde viemos e quem nos espera? O amor também pode se tornar uma forma de apropriação? É possível amar alguém tanto a ponto de impedi-lo de cumprir seu destino? Nem toda apropriação se dá por meio da violência. Algumas são feitas em nome do amor.

É por isso que Odisseu precisa zarpar novamente. Não porque deixe de amar, mas porque compreende que nenhum amor deve impedi-lo de ir além do seu destino, de encontrar significado nesta jornada sem fim. O filme de Nolan alcança algo raro. Não tenta modernizar Homero. Descobre que Homero já era moderno. Fala do genocídio deixado pela guerra. Fala do poder quando este perde todos os limites. Fala da identidade quando simplesmente pronunciar um nome já não basta. Fala das mulheres que sustentam o mundo enquanto os homens retornam da sua destruição. Fala do retorno impossível. Fala da memória. Fala de nós. Talvez seja por isso que é impossível estragar a Odisseia. Todos conhecemos os seus episódios. Todos sabemos quem é o Ciclope, quem são as Sereias, o que aconteceu ao Cavalo de Troia, como termina a jornada. O que nunca sabemos é quem seremos quando ouvirmos essa história novamente.

Saí do cinema pensando que ainda estamos procurando por Odisseu porque, na realidade, ainda estamos buscando alguma forma de memória. Pelo homem, pela mulher, pelo pai, pela mãe, pelo filho ou pela filha que um dia partiu acreditando que retornar seria simplesmente refazer seus passos. Não era. Toda odisseia termina revelando que a jornada nunca teve a ver com um retorno ao lugar de onde viemos. Teve a ver com aprender a nos reconhecer em um mundo que não é mais o mesmo. Homero escreveu essa história para que ninguém a esquecesse. Três mil anos depois, ainda vamos ao cinema pelo mesmo motivo. Não para descobrir como termina a história de Odisseu, mas para nos lembrarmos da nossa própria.

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