“A China não quer exportar nenhum modelo; o que quer é fazer negócios”. Entrevista com Juan Luis López

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30 Julho 2026

Nos últimos anos, o eixo do poder mundial vem se deslocando do Atlântico para o Indo-Pacífico, enquanto a rivalidade entre China e Estados Unidos redefine a ordem internacional. Conversamos com Juan Luis López Aranguren, professor de Direito Internacional Público e Relações Internacionais da Faculdade de Direito da Universidade de Zaragoza, que em seu mais recente livro, El eje del mundo que viene (Ariel, 2026), recorre à metáfora das “baleias” e dos “elefantes” (grandes potências marítimas e terrestres) para explicar como as hegemonias mudam ao longo da história.

A entrevista é de Oliver Tapia, publicada por Ethic, 23-07-2026.

Eis a entrevista.

Em seu livro, você fala de “baleias” e “elefantes” para se referir às potências marítimas e terrestres. O que essa metáfora representa e quando e por que a Espanha deixou de ser uma “baleia”?

A categorização de “baleias” e “elefantes” me interessou muito porque, ao tratar de uma região marítima como o Indo-Pacífico, ela me permite explicar por que o controle dos mares é tão importante para alcançar o controle da terra. Porque, sendo criaturas terrestres, frequentemente esquecemos que, em muitas ocasiões, o domínio dos mares leva ao domínio da terra.

O termo técnico para as potências marítimas seria talassocracia e, para as terrestres, telurocracia. No livro, fui aplicando esses conceitos a diferentes períodos históricos e fases de transição, geralmente para observar quando ocorre uma mudança de hegemonia global ou regional. Isso acontece comumente quando surge uma nova “baleia” que disputa o controle oceânico pelos recursos.

O acesso ao mar é, em muitos aspectos, como a internet da Antiguidade. Uma vez que se tem acesso ao mar, é possível ter acesso a novas ideias, novos avanços científicos, novos sistemas políticos, novas religiões e novas matérias-primas. Também permite exportar seus próprios padrões de pensamento, suas matérias-primas. Então, isso produz uma enorme aceleração civilizatória.

A Espanha se tornou uma potência marítima de duas maneiras. Por um lado, converteu-se em uma “baleia” no Mar Mediterrâneo, ao disputar a hegemonia com o Império Otomano; e, por outro, no Atlântico, ao chegar à América, já que os atritos que teve com outras potências europeias basicamente foram dirimidos no mar. No fim, o papel de “elefante” da Espanha foi um benefício que obteve por ter se tornado uma “baleia”.

Quando a Espanha perdeu essa condição? Isso aconteceu em 1898, no episódio conhecido como o Desastre de 1898, quando perdeu Porto Rico, Cuba e Filipinas. Contudo, esse processo havia começado antes, ao longo de todo o século XIX, uma época muito conturbada para a Espanha. No fim, a Espanha colapsou como “baleia” e isso foi aproveitado pela nova “baleia” que estava surgindo: os Estados Unidos.

No livro, você explica que a China passou séculos atuando como um “elefante”, uma grande potência terrestre, isolada e autossuficiente. Você acredita que os Estados Unidos estão percorrendo agora esse mesmo caminho?

Sim. De fato, os Estados Unidos estão sofrendo uma enorme crise de identidade, da qual, embora muitos vejam Donald Trump como uma de suas causas, eu o vejo como uma consequência. Acredito que quando Trump se for, virá outro para repetir as mesmas soluções fáceis e impraticáveis. Agora, os Estados Unidos estão percebendo que essa globalização, que durante décadas lhes permitiu ser a potência hegemônica planetária, passou a ser vista como uma ameaça.

No livro, falo dos quatro “C” da relação entre Estados Unidos e China: cooperação, competição, contenção e conflito. E observa-se, na passagem da competição para o conflito, o maior, ou pelo menos o mais recente, choque de identidade enfrentado pelos Estados Unidos.

Os Estados Unidos diziam: “Somos a principal potência econômica do mundo, a principal potência militar, portanto, vamos desembarcar economicamente na China, vamos competir com ela”. Mas o que descobriram? Que a China não é apenas um mercado de 1,4 bilhão de consumidores, mas também de 1,4 bilhão de produtores e, em muitos aspectos, produtores mais eficientes do que os estadunidenses.

Então, os Estados Unidos estão vendo a globalização mais como uma ameaça do que como uma oportunidade, o que os leva a se voltar para si mesmos. E a história nos diz que isso marca o declínio de qualquer civilização.

Muitos analistas descrevem a rivalidade entre China e Estados Unidos como uma nova Guerra Fria. No entanto, em seu livro, você sustenta que existem diferenças entre os dois cenários e que a situação atual guarda mais semelhanças com a Primeira Guerra Mundial. Por quê?

Sim, vejo diferenças. Em primeiro lugar, porque a Guerra Fria foi uma competição entre duas superpotências expansionistas. Ou seja, ambas queriam exportar sua própria visão de mundo. Os Estados Unidos queriam exportar a democracia, a economia de livre mercado e seu próprio sistema de valores para o mundo. E a URSS também: possuía o sistema comunista e queria exportá-lo para todo o mundo.

Depois, veio o colapso da URSS e, aqui, entram em cena as teorias de Francis Fukuyama sobre o fim da história, segundo as quais o mundo todo abraçaria a economia de livre mercado como sistema econômico e a democracia liberal como sistema político. Já vimos que isso não se concretizou.

E por que a China é diferente da URSS? Porque a China não quer exportar nenhum modelo. O que ela quer é fazer negócios. Não importa se você é uma democracia ou uma ditadura; isso lhe é completamente indiferente. O que a China quer é fazer negócios e ir ramificando suas áreas de influência comercial.

Isso marca uma diferença enorme em relação à URSS. E é algo que os Estados Unidos muitas vezes não compreendem, pois aplicam à China os mesmos padrões estratégicos que desenvolveram durante a Guerra Fria. Mas a China é muito isolacionista nesse sentido. Isso não quer dizer que no futuro não possa mudar. No futuro, pode querer garantir uma área de influência cada vez maior. Mas, até o momento, não busca exportar seu modelo para o restante do mundo.

Se não estamos diante de uma nova Guerra Fria e a China não tem um anseio expansionista, existe realmente o risco de um conflito militar com os Estados Unidos?

Sim, existe um risco de conflito bélico. Duas potências podem entrar em choque mesmo que não queiram exportar seus modelos ou até mesmo que compartilhem uma mesma cosmovisão. E, de fato, a Primeira Guerra Mundial se deu entre potências muito semelhantes entre si. Ou seja, as potências europeias tinham uma base cristã, uma base greco-latina, e Samuel Huntington as considera parte da mesma civilização.

O caso do conflito entre os Estados Unidos e a China é comparado à Primeira Guerra Mundial porque aquela foi uma guerra à qual não se queria chegar. Christopher Clark diz que as potências europeias entraram na Primeira Guerra Mundial como sonâmbulos que não sabiam que estavam caminhando para a guerra. Ou seja, pensavam que enfrentariam um conflito breve, de poucos meses. No entanto, acabaram atoladas durante anos, e foi um massacre.

Por que essa situação é comparada com o que acontece atualmente? Porque estão sendo criadas alianças regionais e militares que fazem com que um conflito bilateral possa escalar para um conflito regional e, posteriormente, para um conflito mundial. E aqui falo do caso de Taiwan, que é um dos temas mais delicados, já que pode ser o ponto mais quente do planeta, pois é uma questão inegociável para a China e os Estados Unidos.

Acredito que é cada vez mais provável que ocorra um conflito, não porque as grandes potências o desejem, mas porque pode haver um erro de cálculo, como aconteceu na Primeira Guerra Mundial.

Esse possível erro de cálculo parece se concentrar em Taiwan. Por que a ilha é tão importante para a China e para os Estados Unidos?

Taiwan é muito importante porque, para ambas as potências, é um elemento inegociável. Para a China, por várias razões.

A primeira é o simbolismo, porque considera que é a última peça que falta reincorporar, após esse “século das humilhações” que, segundo a narrativa do Partido Comunista da China, teria terminado em 1949, quando vencem a guerra civil contra o Kuomintang e nasce a República Popular da China. Contudo, permanece lá uma região rebelde, Taiwan, que questiona sua própria legitimidade. Sendo assim, para consolidar essa hegemonia global, precisa reincorporar Taiwan. Isso do ponto de vista simbólico.

Do ponto de vista estratégico, Taiwan faz parte da primeira das três cadeias de ilhas do Pacífico, que são uma série de alianças militares dos Estados Unidos com diversos países destinada a conter o gigante asiático. A China precisa romper essa primeira cadeia de ilhas para que seus submarinos alcancem profundidade suficiente de navegação e não sejam detectáveis.

E a terceira razão é que o Partido Comunista da China precisa reposicionar sua legitimidade interna. Durante muitos anos, estabeleceu sua legitimidade pelos resultados alcançados. Isso se reflete em uma famosa frase de Deng Xiaoping: “Não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace ratos”. O que queria dizer com isso? Entre diversas interpretações, que não importa se somos uma democracia ou uma autocracia, desde que melhoremos a vida das pessoas. E, de fato, conseguiram isso, pois o PIB da China cresceu a taxas de 10% ou 12%, ou seja, crescia muito mais do que as democracias.

O que está acontecendo agora? Esse crescimento é cada vez menor. Cada vez mais, vai se aproximar dos níveis de crescimento do Ocidente, que são de 1% a 2%. Isto faz com que os cidadãos chineses possam questionar cada vez mais o papel do Partido Comunista da China.

Taiwan também é inegociável para o Ocidente, particularmente para os Estados Unidos.

A primeira razão é econômica. Taiwan possui o chamado “escudo de silício” por ter se transformado em um dos principais produtores de semicondutores do mundo, que hoje são fundamentais para a inteligência artificial, a robótica etc.

A segunda razão também é estratégica, porque Taiwan é considerada como um porta-aviões infundável diante da China. Ou seja, em qualquer conflito futuro, a principal base de operações dos Estados Unidos, além do Japão, será Taiwan, e eles precisam dela.

E a terceira razão diz respeito à reputação, porque se os Estados Unidos abandonarem Taiwan, como já abandonaram o Afeganistão e agora estão abandonando a Ucrânia, nenhum país confiará neles.

A pergunta inevitável é: quem controla hoje, de fato, o Indo-Pacífico?

Na realidade, há uma sobreposição de múltiplas arquiteturas, propostas, áreas de influência e redes de interdependência. Por isso, a situação é tão dinâmica, porque existem muitas iniciativas em curso ao mesmo tempo. Há a do Japão, a dos Estados Unidos. A Europa também lançou suas próprias iniciativas, embora de forma tímida. Por sua vez, a China rejeita o termo Indo-Pacífico - prefere o termo Ásia-Pacífico - porque considera que a dilui com outro gigante civilizacional e nuclear que é a Índia.

A Índia também é muito interessante porque é uma espécie de elemento surpresa, um ator que se revelou nos últimos anos e tem um enorme potencial. Além disso, por diversas razões, a Índia pode se tornar um dos grandes protagonistas da região. Primeiro, porque dá acesso ao Oceano Índico, ao qual a China não tem acesso. Segundo, porque já é o país mais populoso do mundo, tendo ultrapassado a China. Terceiro, porque é uma potência nuclear. E também possui a iniciativa Global India, com a qual almeja se tornar uma potência global com múltiplas áreas de influência.

Se o eixo do poder mundial está se deslocando para o Indo-Pacífico, que papel podem desempenhar a Europa e, em particular, a Espanha nessa nova ordem internacional?

A Europa chegou tarde e mal a essa questão, como a tantas outras, porque é uma espécie de gigante burocrático com muita dificuldade de articulação. Afinal, somos vinte e sete países, cada um com seus próprios interesses e suas próprias estratégias. Então, é muito difícil chegar a uma posição comum, assim como ocorreu na pandemia e na Ucrânia, situações em que muitas vezes não chegamos a um acordo. No entanto, a Europa precisa perceber que sua própria sobrevivência depende dessa região.

No caso da Espanha, o mais triste é que se esqueceu do próprio passado. Por exemplo, todos os laços culturais que existiram com a América, com o México, com todos os países hispano-americanos. Mas também no próprio Pacífico. As Filipinas faziam parte da Espanha, assim como Guam, até serem invadidas e incorporadas pelos Estados Unidos. E grande parte do Pacífico foi cartografada pela Espanha ou teve presença espanhola.

Podemos ver que a Espanha teve uma grande presença na região e há muitos laços históricos, culturais e até familiares em toda a região. Creio que existe um enorme potencial e que a Espanha e o demais países poderiam aproveitá-lo para alcançar certo entendimento na região.

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