31 Julho 2026
"No entanto, devemos admitir uma coisa, praticando uma autocrítica saudável, como nos ensina a Teologia Popular: se intelectuais brilhantes como Barbero chegaram a acreditar que a fé é meramente a aceitação do absurdo, grande parte da culpa recai sobre nós."
O artigo é de Antonio Staglianò, bispo e presidente da Pontifícia Academia de Teologia, Settimana News, 28-07-2026.
Eis o artigo.
Por acaso, ouvi nas redes sociais uma espécie de "confissão" do conhecido e muito estimado historiador Alessandro Barbero, na qual ele explica, com sua clareza habitual, as razões de seu ateísmo.
Ao ouvir suas palavras, proferidas no tom calmo de alguém que insiste em não ter a intenção de desrespeitar os fiéis, senti-me profundamente desafiado, como teólogo, como pastor e, se me permitem, como pensador que gosta de usar a cabeça (e sua "massa crítica"). E gostaria de usá-la, minha cabeça, com um tom um tanto "agressivo", porque, quando tocamos no âmago do cristianismo, não podemos nos contentar com conversas banais ou gentilezas.
Barbero afirma que a religião é uma dimensão importante para aqueles que nela creem "além de qualquer prova", chegando ao ponto de sustentar que os crentes creem "sabendo que é absurdo, como disse Santo Agostinho, e até dizendo: é precisamente por isso que eu creio". Vamos parar por aqui. Essa afirmação é surpreendente.
Fé que não é pensamento não é nada
Como pode um historiador do calibre de Barbero, e ainda por cima um especialista na Idade Média, atribuir a famosa máxima Credo quia absurdum a Santo Agostinho? Essa expressão (ou melhor, seu conceito original, certum est, quia impossibile) pertence, na verdade, a Tertuliano! Atribuí-la a Agostinho não é um simples lapso histórico, mas um gigantesco mal-entendido teológico e filosófico. Isso significa que ele não "conhece" Agostinho? Além do fato de que, legitimamente, ele não compartilha da posição de fé, ignorar ou distorcer o pensamento agostiniano significa distorcer a própria essência da fé católica.
A tradição católica e cristã afirma exatamente o oposto do absurdo: "fides nisi cogitatur nulla est", fé que não é pensamento é nada. Santo Agostinho jamais nos incitou a desligar o cérebro e abraçar o irracional.
Nessa mesma linha, Santo Anselmo de Aosta nos legou o princípio da fides quaerens intellectum, a fé que anseia, busca e deseja a inteligência. O cristianismo não é um salto para as trevas do irracionalismo, mas um "acreditar enquanto se pensa".
Como São João Paulo II nos ensinou profeticamente em sua encíclica Fides et Ratio, a fé e a razão são as duas asas que elevam o espírito humano em direção à verdade. A advertência da Igreja aos católicos de nosso tempo é clara: usem a razão, caso contrário, sua fé degenerará em magia, superstição e puro irracionalismo.
Quando o respeito é apenas retórica
E aqui chegamos ao cerne do que Barbero chama de "tolerância" e "respeito". Ele escreve: "Deixe-me ser claro, não quero ser desrespeitoso". Parece-me que essas expressões, por mais polidas que sejam, são puramente retóricas. Não há verdadeiro respeito pela fé e pelos crentes se aceitarmos a ideia de que cremos com base no absurdo. Tolerar aqueles que são percebidos como vivendo em um estado de minoria racional ou infantilismo intelectual não é respeito, é condescendência.
Os cristãos são verdadeiramente respeitados quando sua reivindicação da verdade é levada a sério e, sobretudo, quando lhes é pedido que jamais acreditem no absurdo. Os crentes são respeitados quando se espera que sua fé seja inteligente, responsável e bem fundamentada, em vez de fundamentalista. Caso contrário, seríamos incapazes de distinguir, mesmo no âmbito da argumentação histórica, entre um mártir cristão e um terrorista suicida islâmico.
Esse erro flagrante inevitavelmente se volta contra a tese central de seu "racionalismo infantil", como ele mesmo o denomina. O historiador reflete e confessa: vendo que, em todas as sociedades, os seres humanos imaginaram divindades de maneiras diferentes devido ao seu "desejo pelo absoluto", ele tem dificuldade em acreditar que nasceu "por acaso" na única era que definiu a verdadeira religião, ao contrário de cem gerações de antigos egípcios que, coitados, acreditavam nos deuses Anúbis ou Hórus.
O raciocínio parece sólido, mas é falho desde o início. Em primeiro lugar, Barbero está absolutamente certo quando observa que os seres humanos sempre tiveram um "desejo pelo absoluto" e tendem a criar histórias em torno de divindades. Para nós, no entanto, isso não é prova de que Deus seja uma invenção humana! É prova de que o homem é inerentemente um "animal divino".
Não somos meros animais racionais; dentro de nós reside uma centelha de eternidade, um impulso transcendente que nos torna capax Dei (capazes de Deus). Os seres humanos possuem um coração inquieto que anseia pelo infinito, e os antigos egípcios, com suas divindades, apenas expressaram esse profundo anseio.
O Novum do cristianismo
Contudo, a verdadeira resposta à sua objeção, sobre por que hoje "acertamos" a respeito da verdadeira divindade, reside na chocante novidade (novidade radical) do cristianismo. O cristianismo não é a história do homem tateando para adivinhar a religião certa. O cristianismo é a história de Deus vindo à Terra, assumindo a forma humana e se revelando. O Verbo se fez carne e veio habitar entre nós (João 1,14). No mistério da Encarnação, o céu literalmente se inverteu na Terra.
Não se trata de acertar uma teoria filosófica ou uma invenção mitológica. Trata-se de um evento histórico! Jesus de Nazaré é o verdadeiro Homem que nos revela a face definitiva do Pai: um Deus que não é um ídolo a ser apaziguado com sacrifícios humanos ou holocaustos, mas um Deus que é Ágape, somente e sempre Amor, misericórdia e perdão.
Até a vinda de Jesus, os homens frequentemente mascaravam Deus, atribuindo-lhe traços de violência ou poder terreno. Jesus, porém, removeu essas máscaras e morreu na cruz para nos mostrar que a onipotência de Deus coincide unicamente com a onipotência do amor.
Acredite ou não, isto é cristianismo, e os cientistas (mesmo os ateus) deveriam aceitá-lo como ele é, distinguindo devidamente entre as tradições religiosas (cristãs) que se diversificaram ao longo do tempo. Agostinho é um Pai da Igreja Católica. Tertuliano, como os historiadores bem sabem, morreu "montanista", ou seja, não era mais católico. Ateus do calibre de Cacciari sabem disso muito bem e estão comprometidos "filosoficamente" a acreditar nisso.
No entanto, devemos admitir uma coisa, praticando uma autocrítica saudável, como nos ensina a Teologia Popular: se intelectuais brilhantes como Barbero chegaram a acreditar que a fé é meramente a aceitação do absurdo, grande parte da culpa recai sobre nós.
Com muita frequência, substituímos a verdadeira fé cristã pelo que chamo de "catolicismo convencional": essa religião irreligiosa, esse aparato de pequenas orações e ritos externos, onde as pessoas lotam as igrejas, mas não perdoam seus inimigos, não expressam indignação diante da injustiça social e não acolhem os pobres e sofredores. Um cristianismo que se recusa a incorporar a caridade no corpo social é uma religião morta, que anestesia as consciências e, com razão, oferece ao mundo a imagem de uma superstição alienante.
Você acredita além de qualquer prova?
Barbero afirma que a religião é para aqueles que creem "além de qualquer prova". Aqui também reside um profundo equívoco. O cristianismo possui sua própria e poderosa prova racional, que, contudo, não se encontra em laboratórios ou equações matemáticas. A prova da verdade cristã é o testemunho da caridade ativa.
Como argumentou o teólogo Hans Urs von Balthasar, "só o amor é crível". O argumento racional vencedor, o "logos" mais luminoso da nossa fé, não reside no absurdo, mas nos gestos concretos daqueles que sacrificam as suas vidas ao máximo pelos outros, mesmo pelos seus inimigos. Se a nossa justiça não se traduzir em misericórdia encarnada, a nossa fé está morta e inútil.
Portanto, caro professor, não lhe pedimos que nos tolere como meros sonhadores do absurdo. Pedimos que nos desafie no plano da Razão e do Amor. Respeitamos a nós mesmos somente quando, retornando ao pensamento rigoroso, reconhecemos que o Cristianismo, longe de ser um conto de fadas nascido ao acaso em uma época afortunada, é o verdadeiro encontro com a Humanidade de Jesus. Um encontro que, se acolhido em sua chocante racionalidade e caridade, finalmente devolve ao homem sua face mais autêntica, humana e divina.
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