Moratória da Soja: Amazônia perde um dos seus maiores aliados. Artigo de Henrique Cortez

Foto: Imagem de Arquivo/Agência Brasil

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21 Julho 2026

Estudo na Science mostra que o fim da Moratória da Soja pode gerar 1,4 milhão de hectares de desmatamento na Amazônia até 2036. Entenda o que mudou.

Um acordo que nasceu em 2006 para impedir que a soja avançasse sobre a floresta acaba de ruir. Um novo estudo publicado na revista Science calcula o custo dessa perda: 1,4 milhão de hectares de mata derrubada até 2036 e emissões de carbono comparáveis às de um país inteiro.

O artigo é de Henrique Cortez, jornalista, ambientalista e editor do EcoDebate, publicado por EcoDebate, 20-07-2026.

Eis o artigo.

Na quinta-feira, pesquisadores publicaram na Science um estudo [The rise and fall of the Amazon Soy Moratorium] sobre algo que, por quase vinte anos, foi citado como um dos raros exemplos de que é possível conciliar produção agrícola e floresta em pé: a Moratória da Soja na Amazônia.

O acordo, que nasceu em 2006 e começou a valer em 2008, foi silenciosamente abandonado em janeiro deste ano. E a conta, segundo os cientistas, vai chegar em forma de floresta derrubada.

Eu queria escrever sobre isso não como uma notícia distante, mas como algo que diz respeito a todos nós porque, goste ou não, a Amazônia é parte da história de qualquer brasileiro, e o que acontece com ela também acontece conosco e com o nosso futuro.

Fonte: Ecodebate | Reprodução

O acordo que, por quase duas décadas, deu certo

Vale lembrar o que estava em jogo. Antes de 2006, quase um terço de toda a expansão da lavoura de soja na Amazônia vinha de área recém-desmatada. Ou seja: cada nova plantação de soja tinha boas chances de ter nascido em cima de floresta derrubada há pouco tempo.

A Moratória da Soja mudou esse cenário. As grandes empresas que compram e comercializam soja se comprometeram a não adquirir nem financiar soja cultivada em terras desmatadas após julho de 2008. O resultado foi impressionante: o desmatamento ligado a novas áreas de soja despencou para perto de zero.

Não era perfeito, nenhum acordo voluntário é. Mas funcionava. E funcionava bem o suficiente para virar referência internacional de como o setor privado pode fazer sua parte na proteção ambiental sem esperar apenas por leis e fiscalização do Estado.

Por que um pacto bem-sucedido chegou ao fim?

Se a moratória dava certo, por que ela caiu? A resposta, como quase tudo que envolve terra, dinheiro e floresta no Brasil, é uma mistura de pressão econômica, disputa jurídica e política estadual.

Nos últimos três anos, produtores rurais passaram a questionar abertamente o acordo. Chegaram a mover uma ação de 200 milhões de dólares contra as tradings que assinaram o compromisso, alegando prejuízo. Ao mesmo tempo, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu investigação contra os signatários da moratória, sob a suspeita de que o acordo funcionaria como um cartel, como forma de barrar a concorrência em vez de proteger a floresta.

O golpe mais duro, porém, veio dos estados. Mato Grosso e outros grandes produtores de soja aprovaram leis retirando benefícios fiscais de empresas que mantivessem compromissos socioambientais além do que a legislação exige. Essas leis ainda estão sendo contestadas no Supremo Tribunal Federal, mas o efeito prático já aconteceu: pressionadas, as empresas abandonaram o acordo em janeiro.

Um pacto que levou quase vinte anos para provar seu valor foi derrubado em poucos anos de pressão coordenada.

Os números que deveriam nos tirar do conforto

O estudo publicado na Science, assinado por pesquisadores das universidades de Wisconsin-Madison, DePaul e Illinois Urbana-Champaign, tentou medir o que vem pela frente. E os números impressionam.

A projeção é de 1,4 milhão de hectares de desmatamento adicional até 2036, uma área equivalente a cerca de 2 milhões de campos de futebol. Isso representaria a liberação de 745 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono na atmosfera, um volume comparável às emissões anuais de gases de efeito estufa de um país como o Canadá.

Para colocar em perspectiva, essa área projetada corresponde a aproximadamente 17% de tudo o que foi desmatado na Amazônia brasileira na última década inteira. Não é um ajuste de rota. É um retrocesso de proporções continentais.

E tem uma camada a mais que me chamou atenção. Os autores alertam que dezenas de milhões de hectares de floresta pública “não designada”, terras que não são nem protegidas, nem privadas, nem indígenas, podem se tornar alvo fácil de grilagem, justamente por serem adequadas ao cultivo de soja. Ou seja, o risco não se limita às áreas já mapeadas; ele se espalha para onde a fiscalização é mais frágil.

Avanço recente contra o desmatamento ameaçado

O que torna essa notícia ainda mais amarga é o momento em que ela chega. Desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva retornou ao poder em 2023, o desmatamento na Amazônia brasileira vinha em trajetória de queda e dados divulgados na semana passada mostraram que, no primeiro semestre deste ano, o desmatamento atingiu o nível mais baixo em uma década.

É como se estivéssemos correndo ladeira acima, finalmente ganhando fôlego, e alguém tirasse o chão embaixo dos nossos pés. O fim da moratória ameaça justamente colocar em xeque esse progresso duramente conquistado e mostra como conquistas ambientais, por mais sólidas que pareçam, nunca estão de fato garantidas.

O que os pesquisadores propõem e porque isso também depende de quem compra a soja

O estudo não termina em alerta; ele também aponta caminhos. Os autores defendem uma combinação de medidas: fiscalização mais rigorosa do desmatamento por parte do Brasil e, ao mesmo tempo, um compromisso mais firme dos países importadores de soja, como a União Europeia e a China, em exigir origem livre de desmatamento.

Também recai sobre empresas, bancos e instituições financeiras uma responsabilidade direta: cobrar, com mais rigor, que a soja que financiam ou compraram venha de fontes que não avançaram sobre a floresta. Afinal, a moratória só existiu porque o mercado decidiu, coletivamente, que valia a pena proteger a Amazônia. E é esse mesmo mercado que agora precisa decidir se vai sustentar esse compromisso ou deixá-lo morrer de vez.

Porque isso não é “problema de outro estado”

Sei que é fácil ler uma notícia dessas e pensar que isso é problema do Mato Grosso, do agronegócio, de quem mora longe da floresta. Mas a Amazônia regula o clima do continente inteiro, influencia o regime de chuvas que sustenta até a agricultura do Centro-Sul do país, e guarda uma biodiversidade que simplesmente não existe em nenhum outro lugar do planeta.

O fim da Moratória da Soja não é só uma disputa jurídica entre produtores e tradings. É uma decisão que vai reverberar por décadas, na paisagem, no clima e na vida de quem depende direta ou indiretamente da floresta em pé.

Talvez a lição mais dura desse episódio seja essa: proteger a Amazônia não é uma conquista definitiva. É um esforço que precisa ser renovado, defendido e cobrado, todos os dias, de quem tem poder de decisão, sejam governos, empresas ou nós mesmos, como consumidores e cidadãos.

Referência

Lisa Rausch et al, The rise and fall of the Amazon Soy Moratorium, Science (2026). Acesse aqui.

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