O Açúcar das Estrelas. Artigo de Frei Betto

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21 Julho 2026

"Há uma nuvem interestelar carregando açúcar. E isso significa que, desde muito antes de existirmos, o Universo já vinha preparando algo especial", escreve Frei Betto, escritor e autor de Sinfonia Universal: a cosmovisão de Teilhard de Chardin (Vozes), entre outros livros. 

Eis o artigo.

Quando eu era criança, minha avó dizia que o céu era feito de açúcar. Eu, aos seis anos e uma fé inabalável em tudo que ela dizia, fiquei imaginando que, ao morrer, eu encontraria uma casa como a da bruxa da história de João e Maria, feita de pão de ló e coberta de chocolates e pirulitos. Mais tarde descobri que minha avó, na verdade, era diabética e vivia em conflito hamletiano com os doces.

Agora a ciência prova que minha avó tinha razão. Uma equipe internacional de astrônomos detectou eritrulose, um açúcar complexo, em uma enorme nuvem de gás e poeira situada perto do centro da Via Láctea. Isso reforça a hipótese de que alguns dos ingredientes químicos que deram origem à vida já existiam antes da formação do Sistema Solar.

Se a eritrulose é uma peça-chave na química prebiótica e, portanto, um dos ingredientes da sopa primordial que deu origem à vida, fica provado que, essencialmente, somos feitos de açúcar espacial. Você, eu, seu gato, a árvore na calçada, o pão de queijo que você comeu no café da manhã — tudo, em algum nível molecular, carrega um pouquinho do doce das estrelas.

Confesso que achei reconfortante essa descoberta. O Universo, afinal, não é só um imenso vazio gelado salpicado de explosões, buracos negros e planetas despovoados, como suponho em meu livro “A obra do Artista – uma visão holística do Universo”. Ele também tem uma pitada de doçura. Aliás, nesta obra faço uma advertência: os ingredientes da receita para fazer um Universo são simples — 76,5% de hidrogênio; 21,5% de hélio e 2% de outros elementos químicos. De preferência, o cozinheiro deve ter mãos divinas.

Isso me faz pensar em quantas coisas doces existem no Universo que ainda não descobrimos. Talvez haja uma constelação em forma de rosquinha. Talvez Júpiter seja, na verdade, um gigantesco pudim de caramelo disfarçado. Talvez os anéis de Saturno sejam feitos de chantilly cósmico, e nós, míseros humanos, passamos séculos achando que eram apenas pedras.

O fato é que o açúcar espacial veio para nos lembrar de algo que a ciência já insiste há tempos: o Universo não é apenas vazio, silêncio e escuridão. É cheio de sabor. Sabor de carbono, de oxigênio, de hidrogênio. Sabor de possibilidades. Sabor de vida.

Quando olho para o céu e vejo a lua cheia que, convenhamos, parece queijo de Minas, me ocorre que minha avó, com sua sabedoria simplória, estava mais certa do que todos os astrônomos juntos. O céu é doce. Apenas não dispomos de suficientes colheres grandes.

Talvez o cosmos seja uma cozinha gigantesca. Enquanto aqui na Terra discutimos qual a melhor receita de bolo, o Universo mistura hidrogênio, carbono, oxigênio e mais alguns temperos químicos em panelas invisíveis do tamanho de galáxias. Agora alguém olha pelo telescópio e descobre que a sobremesa estava no forno muito antes dos dinossauros.

Aliás, o nome de nossa galáxia, Via Láctea, soa como propaganda de confeitaria. E descobrimos que, além de leite imaginário, há açúcar de verdade passeando pelo espaço. Faltam apenas o café e um padeiro interplanetário.

Imagino a reação dos extraterrestres. Devem rir da nossa surpresa e comentar: “Eles demoraram tanto tempo para perceber que o Universo é doce?”

Descobrir açúcar entre as estrelas é como encontrar uma joia preciosa perdida no bolso de um casaco antigo. Não prova que existe uma doceria esperando por nós em outra galáxia. Mas revela que a despensa cósmica é mais bem abastecida do que imaginávamos.

No fundo, talvez a ciência seja mesmo uma sucessão de descobertas capazes de adoçar a imaginação. Cada nova molécula encontrada no espaço lembra que o Universo não é apenas um catálogo de distâncias impossíveis. É também um contador de histórias químicas, paciente, criativo e surpreendente.

Da próxima vez que alguém disser que a vida anda amarga, vale lembrar que em algum lugar, muito além da conta de luz, dos boletos bancários e do trânsito infernal, há uma nuvem interestelar carregando açúcar. E isso significa que, desde muito antes de existirmos, o Universo já vinha preparando algo especial.

Minha avó tinha razão: o infinito também tem um lado doce.

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