18 Julho 2026
Wagner Ribeiro explica que povos tradicionais protegem ciclos de chuva e biodiversidade e precisam de políticas públicas.
A reportagem é de Larissa Bohrer E Maria Teresa Cruz, publicada por Brasil de Fato, 15-07-2026.
As populações indígenas são as primeiras a sofrer os impactos das mudanças climáticas, segundo estudo divulgado na revista científica britânica Humanities and Social Sciences Communications.
Em sua coluna no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o geógrafo Wagner Ribeiro, professor de pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), explica que as mudanças de temperatura e padrões de chuva, por exemplo, afetam diretamente a oferta de alimentos de determinada comunidade.
“A temperatura mais elevada, por exemplo, vai alterar o ciclo biológico de algumas espécies que são consumidas. A fauna também muda. O pescado também muda, migra para outras áreas, às vezes águas mais quentes, às vezes águas mais frias, a depender da espécie. Então, não há dúvida de que as comunidades originárias acabam sofrendo mais duramente justamente pela sua relação com a natureza”, destaca.
O estudo aponta ainda que a manutenção de modos de vida e culturas dessas populações por todo o mundo gera benefícios na conservação de biodiversidade. Nesse sentido, ressalta o professor, as políticas públicas de preservação desses territórios deveriam ser fortalecidas.
“Existem trabalhos acadêmicos que mostram claramente que, nas terras indígenas, a conservação de todo o ambiente é muito maior até do que você ter uma unidade de conservação, por exemplo, fiscalizada por um governo estadual, municipal, federal. Isso tudo representa justamente a manutenção dos ciclos biogeoquímicos, que ocorre nessa área e que, muitas vezes, também tem repercussão para outras áreas. Nós estamos falando, por exemplo, da floresta amazônica. Se você tem ali povos originários vivendo em condição de menor agressão à natureza, eles conseguem manter a floresta em pé, mantêm a possibilidade de reposição de chuvas, mantêm a capacidade de sugar água do subsolo e, por meio da respiração, também oferecer essa água para outras áreas, os rios voadores”, destaca Wagner Ribeiro.
Apesar de todas as evidências científicas, continua o geógrafo, infelizmente os povos originários não têm o merecido reconhecimento e acabam sofrendo diversas violências. “A gente assiste à usurpação de terras, à agressão, às vezes física, quando não verbal. A gente tem acompanhado alguns episódios lamentáveis recentemente, inclusive envolvendo autoridades de estados de destaque do Brasil, por exemplo, e quando, na verdade, [os povos indígenas] deveriam ser reconhecidos pela importância dos serviços ambientais e de manutenção dos ecossistemas”, defende Ribeiro.
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