14 Julho 2026
“O desenvolvimento e a utilização de sistemas de inteligência artificial (IA) consomem mais energia do que quase todos os países do mundo, resultando num impacto devastador no uso da água e da terra, bem como na emissão de dióxido de carbono e outros gases que contribuem para o caos climático”. A reflexão é de Silvia Ribeiro, em artigo publicado por Desde Abajo, 12-07-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
O desenvolvimento e a utilização de sistemas de inteligência artificial (IA) consomem mais energia do que quase todos os países do mundo, resultando num impacto devastador no uso da água e da terra, bem como na emissão de dióxido de carbono e outros gases que contribuem para o caos climático. Em 2025, o consumo de eletricidade da indústria da IA atingiu 448 terawatts-hora, o que corresponde a aproximadamente 1,3 vez o consumo total de eletricidade do México, três vezes o da Argentina e 40 vezes a demanda de eletricidade do Uruguai ou da Costa Rica.
Ainda mais alarmante: um relatório recente das Nações Unidas estimou que, até 2030, a demanda de energia dos centros de dados — onde se encontra a infraestrutura de IA — dobrará para 945 terawatts-hora de eletricidade, o equivalente ao consumo total atual de todo o continente africano, com uma população de 1,6 bilhão de pessoas.
Se a demanda estimada de eletricidade da IA para 2030 fosse considerada equivalente à de um país, ela ocuparia o sexto lugar no ranking global, atrás apenas dos Estados Unidos, China, Índia, Rússia e Japão, e superando em muito países com alto consumo, como Alemanha, França e Arábia Saudita.
O relatório “Custo Ambiental do Uso de Energia pela Inteligência Artificial: Pegadas de Carbono, Água e Solo” foi publicado em junho de 2026 pela Universidade das Nações Unidas e coordenado por Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da UNU.
Além da demanda energética extremamente alta, o relatório afirma que, até 2030, a pegada hídrica associada será de 9,3 trilhões de litros de água, o equivalente às necessidades básicas anuais de 1,3 bilhão de pessoas na África Subsaariana. A apropriação de terras para infraestrutura é estimada em 14.500 quilômetros quadrados, 10 vezes a área da Cidade do México.
Salientam que a pegada ambiental da inteligência artificial tem sido sistematicamente subestimada. Não só porque as poderosas empresas de tecnologia que dominam esta indústria evitam fornecer essa informação, mas também porque a maioria das avaliações se concentra apenas na medição das emissões de carbono associadas à formação e execução de grandes modelos linguísticos. Também não consideram que cada quilowatt de eletricidade utilizado acarreta uma pegada hídrica significativa, entre outros na geração, utilização de energia e arrefecimento exigido pelos centros de dados, bem como a sua pegada na utilização do solo, infraestruturas energéticas, instalações e cadeias de abastecimento.
Medir os impactos apenas nas emissões de carbono e tentar compensá-los com energias supostamente “baixas em carbono” esconde a consideração das pegadas hídricas e do solo e não considera outros impactos como a extração de recursos minerais e a produção de resíduos eletrônicos, que é estimada em mais de 2,5 milhões de toneladas métricas anualmente.
Um problema adicional é que a pegada energética, hídrica e terrestre não se move necessariamente na mesma direção. Mudar dos combustíveis fósseis para a bioenergia, por exemplo, poderia dar a impressão de que a pegada de carbono é reduzida em até 70%, mas ao mesmo tempo multiplica a pegada hídrica por 30 e a pegada terrestre por cem. “Baixo em carbono” não é sinônimo de “baixo em água” ou “baixo em território”, explica a Dra. Miriam Aczel, uma das autoras do relatório.
Apontam ainda que a utilização de energia, com o seu consequente impacto hídrico e ambiental, é muito relevante no processo de formação em IA e aumenta exponencialmente com a utilização de sistemas de IA, especialmente IA generativa, como ChatGPT e similares. Entre 80% e 90% das necessidades de energia e água são causadas pelas interações diárias de milhares de milhões de usuários com estes sistemas, atualmente 2,5 bilhões no caso do ChatGPT. Uma consulta de texto consome até 60 vezes mais energia do que uma consulta de pesquisa sem IA e 200 vezes mais energia do que um simples aplicativo de IA, como classificação de spam. Produzir imagens com IA consome 1.450 vezes mais energia e fazer um vídeo curto requer até 200.000 vezes mais.
Relatam também a enorme desigualdade entre quem se beneficia e quem sofre os impactos. É um mito que a localização de um data center signifique maior acesso para a população local que sofre os impactos. A tendência por parte das empresas dos Estados Unidos – que juntamente com a China possuem 90% da infraestrutura de produção de IA – é localizar data centers em locais que já sofrem com o estresse hídrico, o que provoca escassez de fornecimento de energia elétrica e aumento de custos para as populações desses locais. Um dos exemplos do relatório é a instalação de data centers em Querétaro, no México.
Existem muitos aspectos profundamente negativos no desenvolvimento da inteligência artificial – ambientais, sociais, trabalhistas, econômicas, políticas. A promoção dos seus supostos benefícios baseia-se, muitas vezes, em ignorar ou esconder os brutais impactos em termos de água, clima e exploração que afeta milhares de comunidades locais, entre outros.
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