Inteligência Artificial, guerras e crise climática. O futuro em disputa. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 23 Mai 2026

Nesta edição, a inteligência artificial aparece não apenas como promessa tecnológica, mas como ferramenta de disputa econômica, militar e política. Entre demissões em massa, consumo energético e guerras automatizadas, questiona-se: quem controla essa tecnologia e a serviço de quais interesses ela opera? Israel ataca novamente a Flotilha Global Sumud em águas internacionais, detém ativistas humanitários e expõe ao mundo imagens de tortura e humilhação que provocam reação internacional.

Com blecautes, escassez e bloqueio econômico, Cuba vive um dos momentos mais críticos de sua história recente. Os Estados Unidos indiciaram Raúl Castro, enviaram um porta-aviões ao Caribe e agora apresentam uma proposta de "nova relação" que levanta a questão: mudança real ou mais pressão disfarçada? A crise climática deixou de ser um alerta distante, ela reorganiza a política, a economia e o futuro. Mas enquanto o planeta aquece, as decisões tomadas aqui dentro do Brasil e lá fora levantam uma pergunta urgente: estamos enfrentando a crise ou aprofundando-a?

O mundo ainda não aprendeu com as últimas pandemias, e um novo surto já está em curso. Especialistas alertam que o risco global de emergência sanitária cresce enquanto os sistemas de prevenção ficam para trás. Até onde essa ameaça pode chegar? Em meio a guerras, colapso climático e uma IA tratada como corrida armamentista, o que ainda nos torna humanos? Com Paulo Freire, Tim Ingold e a memória dos 78 anos do Nakba palestino, o episódio encerra defendendo que resistir é também lembrar, e que o futuro ainda está em construção.

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

Inteligência Artificial como ferramenta de disputa econômica, militar e política

A inteligência artificial passou a ocupar um espaço central na vida contemporânea, influenciando desde tarefas cotidianas até decisões militares e econômicas. As big techs apresentam essa tecnologia como inevitável, mas cresce o debate sobre seus impactos sociais, éticos e ambientais. Enquanto empresas de tecnologia investem bilhões em IA, milhares de trabalhadores são demitidos sob o argumento de ampliar investimentos no setor. Segundo especialistas, esse movimento reflete uma lógica voltada principalmente à maximização dos lucros, ao mesmo tempo em que coloca em risco atividades humanas fundamentais e valores ligados à convivência social.

Além do mercado de trabalho, a IA também se tornou instrumento de disputa geopolítica e militar. Sistemas automatizados vêm sendo utilizados em guerras para seleção de alvos e operações de inteligência, ampliando os riscos de conflitos armados e da escalada tecnológica envolvendo potências nucleares. Paralelamente, cresce a preocupação com os impactos ambientais provocados pelos data centers, responsáveis por alto consumo de energia e água. Diante desse cenário, líderes religiosos, intelectuais e governos defendem a necessidade de regulações éticas, transparência e soberania tecnológica. Países como Espanha e Canadá passaram a articular alianças voltadas para uma inteligência artificial “centrada no ser humano”, buscando alternativas ao domínio das grandes corporações.

Israel ataca novamente a Flotilha Global Sumud

Israel voltou ao centro das críticas internacionais após o ataque às embarcações da Flotilha Global Sumud, missão humanitária que seguia em direção a Gaza em solidariedade à população palestina. Integrantes da flotilha, incluindo brasileiras ligadas ao Movimento dos Atingidos por Barragens, foram detidos e submetidos a humilhações e agressões pelas forças israelenses. Vídeos divulgados mostraram ativistas amarrados, ajoelhados e sendo hostilizados por soldados e autoridades do país.

O episódio gerou forte repercussão internacional e ampliou as denúncias sobre práticas de tortura e maus-tratos cometidas por Israel contra ativistas e prisioneiros palestinos. Mesmo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu criticou parcialmente a exposição pública promovida pelo ministro Itamar Ben-Gvir, embora sem condenar diretamente os abusos. Após a deportação dos ativistas, a Flotilha Global Sumud denunciou formalmente Israel por sequestro e violência, enquanto diferentes países europeus passaram a discutir possíveis sanções contra Ben-Gvir.

Cuba estrangulada pelos Estados Unidos

A situação de Cuba continua se agravando diante da pressão exercida pelos Estados Unidos. O governo norte-americano intensificou a retórica contra a ilha ao indiciar o ex-presidente Raúl Castro por um episódio ocorrido em 1996, movimento interpretado por analistas como tentativa de ampliar a pressão política sobre o governo cubano. Ao mesmo tempo, o envio do porta-aviões USS Nimitz ao Caribe aumentou o clima de tensão regional.

Com blecautes, escassez de alimentos e dificuldades econômicas agravadas pelo bloqueio, Cuba enfrenta uma situação cada vez mais delicada. Especialistas alertam que as medidas adotadas pelos Estados Unidos afetam diretamente a população cubana e podem abrir espaço para interesses geopolíticos ligados ao controle político e econômico da ilha. Mesmo diante de propostas de aproximação feitas pelo governo de Donald Trump, o governo cubano mantém cautela diante das intenções norte-americanas.

Crise climática cada vez mais próxima

A crise climática se tornou parte do cotidiano global e deve se intensificar nos próximos meses com a possibilidade de um “super El Niño”. Modelos climáticos apontam risco elevado de eventos extremos, especialmente no Brasil, onde o Sul pode enfrentar chuvas intensas e a Amazônia e o Nordeste sofrerem com estiagens prolongadas. Especialistas alertam que o aquecimento global amplia esses efeitos e aumenta a vulnerabilidade social, econômica e ambiental.

Enquanto isso, o cenário político brasileiro apresenta disputas em torno do modelo de desenvolvimento do país. Projetos defendidos pela bancada ruralista e pelo agronegócio foram criticados por ambientalistas e por integrantes do Ministério do Meio Ambiente, que classificaram as medidas como retrocessos na proteção ambiental. Em paralelo, o crescimento dos data centers ligados à inteligência artificial reacendeu o debate sobre consumo energético. Um exemplo foi a exigência de garantias financeiras para um grande empreendimento em Eldorado do Sul, cujo consumo de energia poderia superar o de todo o estado gaúcho.

No plano internacional, cresce também a pressão para que a Organização Mundial da Saúde reconheça oficialmente a crise climática como emergência de saúde pública internacional, diante do aumento de mortes por calor extremo, doenças infecciosas e insegurança alimentar.

Novas emergências sanitárias globais

Além da crise climática, especialistas alertam para o aumento do risco de novas emergências sanitárias globais. O surto de ebola na República Democrática do Congo e em Uganda preocupa autoridades internacionais devido ao avanço da variante Bundibugyo, responsável por centenas de casos suspeitos e mais de cem mortes.

Segundo especialistas ligados à Organização Mundial da Saúde, a capacidade mundial de resposta a epidemias continua insuficiente, agravada por conflitos armados, desigualdade social e baixa cobertura vacinal. O temor é que a doença ultrapasse fronteiras e provoque uma nova emergência internacional. No Brasil e em outros países, autoridades acompanham o cenário com atenção, especialmente diante da circulação global de pessoas em grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo de 2026.

Vozes de Resistência

Em meio às crises tecnológicas, ambientais e humanitárias, intelectuais e pensadores defendem a necessidade de recuperar valores ligados ao cuidado, à solidariedade e à experiência humana. Inspirado pelo antropólogo Tim Ingold, o professor Faustino Teixeira destaca que a vida está em constante construção e depende das relações entre pessoas, natureza e sociedade.

Nesse contexto, autores como Paulo Freire reforçam a importância da consciência crítica diante do avanço tecnológico e da lógica do lucro. A memória dos 78 anos da Nakba palestina também surge como símbolo de resistência, preservando identidades e narrativas diante da violência e do apagamento histórico. Assim, os debates contemporâneos revelam uma disputa sobre qual humanidade será construída no futuro: uma baseada no controle e na destruição ou outra sustentada pela dignidade, solidariedade e defesa da vida.

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IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.