Tim Ingold e a percepção do fluxo da vida. Artigo de Faustino Teixeira

Foto: Guillaume de Germain/Unplash

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19 Mai 2026

"Na visão de Ingold, a educação tem um papel essencial na disponibilização de um novo olhar, visando uma ação alternativa no tempo. O autor lança uma contundente crítica ao saber acadêmico estabelecido, e propõe um saber que recupere a sabedoria e o estupor. Na medida em que nos colocamos juntos com o outro, e não em posição de superioridade, somos capazes de dar um salto de qualidade: 'Lá onde a incerteza gera surpresa, a possibilidade deixa lugar ao estupor' (FS, 105)", escreve Faustino Teixeira, teólogo, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de ForaUFJF e colaborador do Instituto Humanitas UnisinosIHU

Eis o artigo.

Muito singular o recente livro de Tim Ingold, professor emérito de Antropologia social na Universidade de Aberden. O livro, The Rise and Fall of Generation Now (2024), foi traduzido ao italiano, com o título: Il futuro alle spalle: ripensare le generazioni (2024). O tema abordado na obra fica bem claro na tradução do título original: Ascenção e queda da geração atual. No cerne de sua reflexão está a questão das gerações de hoje diante dos novos desafios que se apresentam para o futuro. O livro retoma outra obra, publicada por Ingold, em 2022: Imagining for Real (Imaginando para o Real). É um caminho que vem sendo trilhado pelo autor desde clássicos como The Perception of the Environment (Percepção do ambiente), publicado em 2000 e Being Alive (Estar vivo) [1], de 2011.

Uma das questões chave abordadas por Tim Ingold em suas últimas obras relaciona-se com a questão da habitabilidade, envolvendo um debate interdisciplinar original que envolve, além da antropologia, outras áreas do saber, como psicologia ecológica, biologia do desenvolvimento e fenomenologia. O grande desafio está em como tratar os modos de habitar um ambiente, indicando um campo dialogal que envolve não apenas os seres humanos, mas também as espécies companheiras, para utilizar uma expressão de Donna Haraway.

The rise and Fall of Generation Now, livro de Tim Ingold. (Polity Press, 2024)

Tim Ingold recorre a uma expressão importante para indicar a dinâmica vital, que é meshwork (linhas emaranhadas). O “ambiente” em que vivemos é, na verdade, um “domínio de emaranhamento”. É nesse passo de entrelaçamento de vidas que se firma a textura do mundo [2]. Como diz o autor, “organismos e pessoas não são tanto nós em uma rede quanto nós em um tecido de nós, cujos fios constitutivos, conforme se amarram em outros fios, em outros nós, compreendem a malha” [3]. É nesse ambiente emaranhado que habitamos. Trata-se de uma visão que já está bem presente entre os povos originários, como mostrou Davi Kopenawa em sua preciosa obra A queda do céu [4]. Como ele sublinha, em seu diálogo com Bruce Albert, a ecologia é algo que envolve uma teia de experiências, implicando presenças entrelaçadas, de humanos, espíritos, animais, árvores, rios, peixes, céu, chuva, vento e sol. Tudo pontuado por vida e movimento [5]. Não há, nesta perspectiva, um mundo inanimado, mas toda vida se desenrola num mundo sempre nascente e em constante devir.

Todo esse mundo vital é que modela a nossa Paisagem, que incorpora esses ciclos e movimentos. A Paisagem deixa de ser um cenário externo acabado, mas ganha uma dimensão esplêndida, de um mundo em contínua produção e transformação. A vida ganha, assim, uma qualidade diversa. O mundo não se resume a um lugar que está cheio de coisas existentes, mas um locus de habitabilidade [6]. Como também mostrou Anna Tsing, a Paisagem envolve “o sedimento de atividades humanas e não humanas, biótica e abióticas (...). Paisagens são mundos ativos de vida, sustentados por traços e legados materiais, mas ainda abertos a formas e possibilidades emergentes (...). Pensar com paisagens abre a análise para uma multiplicidade entrelaçada” [7].

No livro que estamos lidando, Il futuro alle spalle [8], há um claro interesse filosófico do autor, sempre focado na busca de compreensão da ideia de geração, ou seja, de como a geração atual pensa o campo do presente, tendo em vista o horizonte do futuro (FS, 44). Para Ingold, o modo como se pensa o tema da geração está na raiz das inúmeras dificuldades que se apresentam para o humano na lida com o futuro. Como sabemos, o autor insere-se no rastro de tantos outros antropólogos que buscam caminhos alternativos de superação da dicotomia que separa natureza e cultura. Essa sensibilidade retorna aqui neste livro, com o enfoque na maneira como as gerações realinham sua percepção com a dinâmica da vida. Como novidade, percebemos agora uma preocupação de Ingold em recuperar as antigas sabedoria vividas pelos antepassados.

Há na obra em questão um particular interesse na sabedoria dos ancestrais. Trata-se de algo que já foi apontado por Bruno Latour, em obra sobre os modos de existência [9]. Buscar apoio no saber dos antepassados é sintonizar-se com inquietudes fundamentais, que se revelam hoje, pertinentes e urgentes. Esse retorno à sabedoria dos antigos, relaciona-se igualmente com a retomada vital do animismo, como também indicou Ingold: “O saber deve ser reconectado com o ser, a epistemologia com a ontologia, o pensamento com a vida. Assim, o nosso ato de repensar o animismo indígena levou-nos a propor a reanimação da nossa própria assim chamada, tradição ´ocidental` de pensamento” [10].

Um caminho fundamental para as gerações do presente, segundo Ingold, é buscar trilhas colaborativas, que envolvem uma reconexão com o olhar dos antepassados (FS, 44 e 46). O desafio que se coloca é avançar sem desconhecer a herança do passado, pois o futuro “chega de longe”. É toda uma dinâmica que busca realinhar o olhar, ressignificar o modelo progressista em curso com o fluxo da vida, que envolve também a retomada do processo geracional. Isso não significa renunciar às reivindicações do presente, mas não desconhecer a herança que nos foi legada pelos predecessores, que igualmente levaram adiante a vida (FS, 110).

O futuro não está ainda definido e firmado, mas depende de nossa ação no tempo. É um futuro em construção contínua. A vida não está definida, mas se constrói por tentativas e criações. Na visão de Ingold, há que abraçar também a vulnerabilidade e a impermanência: “Lá onde a certeza prognostica um vínculo cego, a incerteza abre o campo para a continuação da vida” (FS, 95). Para esse trabalho fundamental de tessitura do futuro, o passo colaborativo firma-se como essencial. Assim como a corda se forma no “ajuntamento” de fios (FS, 47), assim igualmente é no emaranhamento do tecido vital que construímos o nosso futuro.

Para tanto, urge um realinhamento de nossa trajetória, visando uma prática hospitaleira, pontuada por aprendizado e reciprocidade. Numa perspectiva bem distinta de um “racismo científico” que privilegiou a excepcionalidade humana, e uma percepção da vida como um campo de luta, emerge agora uma visão alternativa, que valoriza a mistura, o emaranhamento e a colaboração. O que se firma, então, são as ligações e partilhas. Segundo Ingold, a esperança derradeira para a manutenção da continuidade da vida está no exercício dialogal, e não só dos seres humanos entre si, mas deles com o continuum da vida. É o grande desafio colocado para as gerações: avizinhar-se e misturar-se, com a disponibilidade de incorporar continuamente os saberes acumulados e em curso no cotidiano. Todo ser vivente vem situado como um nó num emaranhado de linhas de vida (FS, 120). O que se percebe no aprendizado com os povos indígenas é que a extinção das espécies está sempre relacionada à “violação das relações conviviais”, com passos de desenvolvimento que prejudicam ou impedem os traçados criaturais (FS 122).

Não há dúvida sobre o traço nebuloso do tempo atual, marcado por um horizonte sombrio e perturbador. Trata-se do tempo do Antropoceno, que é o tempo pontuado pela presença perturbadora do humano sobre a Terra. Ao longo da história da Terra, já ocorreram cinco grandes extinções, estamos agora vivendo um tempo de novas ameaças, que configuram uma sexta extinção. Como mostrou Elizabeth Kolbert, “nenhuma criatura alterou a vida do planeta dessa forma, mas, ainda assim, já ocorreram eventos comparáveis. Muito, mas muito de vez em quando, no passado remoto, o planeta sofreu mudanças tão violentas que a diversidade da vida despencou de repente” [11].

Segundo Ingold, esse sexto evento tem um traço peculiar. É o único em seu gênero provocado pela atividade de organismos viventes, e em particular por uma singular espécie, que é a humana (FS, 109). Por estar mais preocupada com o presente, a geração atual voltou as costas para os caminhos que levaram ao drama atual. E é mais que urgente uma nova atenção, uma sensibilidade particular para os caminhos que provocaram esse “tempo de ruínas” (FS, 110). Ingold acredita num futuro viável, para além do Antropoceno. Trata-se de um caminho possível, que envolve um novo ensinamento: reaprender com os antepassados e com as outras espécies as artimanhas que dão significado à vida (FS, 170).

Na ocular de Ingold, não há por que culpabilizar o humano como um todo por todos os descaminhos que marcam o tempo atual. Nem todos os seres humanos estão comprometidos com essa lógica antropocena. Há a resistência contínua dos “terranos”, para recorrer a uma expressão de Bruno Latour.

Tim Ingold, ao contrário de outros, busca resguardar o valor e singularidade do humano. Mesmo reconhecendo os limites presentes nas narrativas que enfatizaram a excepcionalidade e centralidade do ser humano, em desrespeito ao valor das outras espécies, o autor postula uma perspectiva particular: o ser humano é alguém que se preocupa com a vida dos outros e pode, sim, restabelecer “o fio na corda complexiva das gerações para favorecer a sua continuidade” (FS, 26).

O ser humano não constitui o ápice da criação, mas é portador de uma “extraordinária responsabilidade” em favor do florescimento da vida (FS, 132). As novas gerações têm como desafio primordial manter a sustentabilidade do planeta, de garantir uma vida digna, em colaboração e aprendizado contínuos com os habitantes da Terra. Nesse sentido, viver de modo sustentável “significa levar adiante a própria existência com os outros”, num aprendizado que vem sempre enriquecido (FS, 133).

Na visão de Ingold, a educação tem um papel essencial na disponibilização de um novo olhar, visando uma ação alternativa no tempo. O autor lança uma contundente crítica ao saber acadêmico estabelecido, e propõe um saber que recupere a sabedoria e o estupor. Na medida em que nos colocamos juntos com o outro, e não em posição de superioridade, somos capazes de dar um salto de qualidade: “Lá onde a incerteza gera surpresa, a possibilidade deixa lugar ao estupor” (FS, 105).

Diferentemente do conhecimento tradicional, que se satisfaz com a sistematização das coisas do mundo, a sabedoria abre as portas da percepção para as maravilhas do mundo. A sabedoria acentua o lugar fundamental da atenção e da disponibilidade. Como indica Simone Weil, a atenção “é a forma mais rara e mais pura da generosidade” [12]. Enquanto a razão vem modelada pelas palavras de ordem, que inibem o caminho dos destinatários, a sabedoria deixa o campo aberto para as surpresas e o aprendizado da vida (FS, 154).

Outro passo sugerido por Ingold em sua reflexão criativa é a recuperação do saber analógico, que foi obscurecido pela ênfase no saber digital (FS 40-41). Há algo de enriquecedor nessa sabedoria artesanal, essencial para uma equilibrada tessitura de mundo. Se, por um lado, a cultura digital desafogou o ser humano do “distúrbio” das letras, ela também impediu o importante e demorado caminho da atenção, da ruminação e do acesso ao conhecimento. 

É uma cultura que acabou abafando o poder da expressão manual.  Para Ingold, as mãos, uma vez libertas da tirania do teclado, podem favorecer, como passo de estupor, as qualidades poéticas essenciais para o caminho da responsabilidade no mundo (FS, 168) É o que ele nomeou como passo de uma civilização pós-digital.

Notas

[1] Com tradução brasileira pela Editora Vozes, em 2015.

[2] Tim Ingold. Estar vivo, p. 121.

[3] Ibidem, p. 120.

[4] Davi Kopenawa; Bruce Albert. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

[5] Ibidem, p. 480.

[6] Tim Ingold. Estar vivo, p. 215.

[7] Anna Lowenhaupt Tsing. Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno. Brasília: IEB Mil Folhas, 2019, p. 149.

[8] Vamos aqui nos utilizar da tradução italiana do livro The rise and Fall of Generation Now (2024): Il futuro alle spalle: ripensare le generazioni. Milano: Meltemi, 2024. No texto que se segue, vamos recorrer à sigla FS, seguida da página trabalhada.

[9] Bruno Latour. Enquête sur les modes d´existence. Paris: La Découverte, 2012, p. 452. E retomado no prefácio de Eduardo Viveiros de Castro no prefácio do livro A queda do céu (op. cit., p. 35).

[10] Tim Ingold. Estar vivo, p. 126.

[11] Elizabeth Kolbert. A sexta extinção: uma história não natural. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015, p. 11.

[12] Simone Weil-Joe Bousquet. Corrispondenza. Milano: SE, 1994, p. 13.

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