O triunfo do infame. Artigo de Jorge Zepeda Patterson

Foto: Andrea Hanks/White House | Flickr

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09 Julho 2026

Devemos nos perguntar se esse fascínio que varre o mundo por figuras que usam sua grosseria, arrogância e vulgaridade como argumento para ascender ao poder veio para ficar.

O artigo é de Jorge Zepeda Patterson, escritor e analista político, mexicano, publicado por El País, 09-07-2026.

Eis o artigo.

Dizem que ninguém enriquece pedindo desculpas ou permissão; muito pelo contrário. As forças de mercado tendem a favorecer aqueles que se destacam da concorrência, independentemente de escrúpulos ou decência. E não há exemplo melhor disso do que a fortuna de Elon Musk. Não estou dizendo que a riqueza seja diretamente proporcional ao nível de egoísmo ou imoralidade de um milionário, mas, a julgar pelas listas da Forbes, certamente ajuda. E não deveríamos nos surpreender; isso faz parte da lógica fundamental do capitalismo.

A política não é diferente. Mas, por muito tempo, pelo menos, fingimos o contrário. Um político deveria se vangloriar de sua integridade, de sua disposição para se sacrificar pelos outros, de sua obsessão em buscar o bem comum. Mas isso é coisa do passado. Os candidatos não precisam mais fingir ser boas pessoas; muito pelo contrário, na verdade. Infelizmente, o sucesso na vida pública hoje está associado a outros valores: excessos, a capacidade de ofender ou subjugar os outros, a disposição de desrespeitar até mesmo a lei ou as normas vigentes. A vitória de De la Espriella na Colômbia confirma que figuras antes consideradas desagradáveis ​​se tornaram a melhor aposta nas urnas. Nem mesmo seus próprios apoiadores consideram Donald Trump, Netanyahu, Milei ou Putin boas pessoas. Muitos acreditam, inclusive, que justamente por não serem boas pessoas, são os líderes de que o país precisa.

Sobre o empresário Ricardo Salinas Pliego (1) e suas evidentes ambições políticas, Viri Ríos escreveu no El País que analistas e porta-vozes do partido Morena estão cometendo um erro estratégico ao atacá-lo destacando seus defeitos, pois acabam lhe dando mais visibilidade e popularidade. “A ideia de que sua vulgaridade e natureza abusiva o tornam um inimigo perfeito também é ingênua. A vulgaridade nunca impediu o eleitorado mexicano de apoiar um candidato. Veja Vicente Fox, por exemplo, cuja campanha foi repleta de insultos misóginos, classistas e sexistas…”

Além do que acontecerá com a alma atormentada e a fortuna desse empresário, e com suas ambições políticas, devemos nos perguntar se esse fascínio global por figuras que usam sua grosseria, arrogância e vulgaridade como meio de ascender ao poder veio para ficar. Será uma "tendência", uma expressão de nossa época, tão repleta de cinismo e egoísmo? Ou, ao contrário, estaremos condenados a uma degradação sem fim da vida pública, a uma espiral descendente?

Não faz muito tempo, Barack Obama conquistou o voto americano apelando para a esperança de um mundo melhor baseado na solidariedade, em boas causas e em códigos éticos dominados pela decência e pelo senso de responsabilidade para com as gerações presentes e futuras. Não estou dizendo que Obama personificava tudo isso (em muitos aspectos, ele foi uma decepção), mas é fato que ele atraiu eleitores com base nesses princípios. Mujica, no Uruguai, os colocou em prática.

A questão é se esses argumentos voltarão a ser convincentes o suficiente para conquistar os eleitores. Esta não é uma questão filosófica. As salas de guerra política em todo o mundo estão debatendo isso acaloradamente. Devem cultivar e projetar imagens de seus candidatos como homens e mulheres fortes e vingativos, prontos para tudo, ou devem buscar perfis pessoais associados à sensibilidade, prudência e senso de responsabilidade?

E isso não é apenas um dilema eleitoral ou do eleitorado. É também uma questão que coloca em xeque os critérios tradicionais que regiam a liderança, a legitimidade e/ou a popularidade dos líderes no poder. Argumenta-se, com razão, que tudo isso (legitimidade, popularidade) de um líder político reside em sua capacidade, ou falta dela, de apresentar resultados. Mas sejamos realistas, a margem de possibilidade para qualquer líder, nacional ou regional, está longe do que costumava ser. A longo prazo, isso continua sendo verdade: o sucesso de um governo está ligado à sua capacidade de responder às necessidades dos cidadãos. Mas, no curto prazo, grande parte da aceitação ou rejeição decorre da percepção do que eles fazem e dizem. É aqui que todo líder entende que sua capacidade de liderança reside em projetar uma imagem favorável. A questão é que, hoje, não está mais claro qual é essa imagem: características associadas aos princípios defendidos por Obama (para dizer o mínimo) ou ataques impulsivos como os que Trump e Miley popularizaram? Moderação e bom senso, ou gritaria, polarização e provocações?

Espero que chegue o momento em que essa tendência se inverta. Que se atinja um ponto em que a opinião pública e os eleitores se cansem desses agitadores briguentos e irresponsáveis ​​e comecem a favorecer candidatos, palavras e ações que simplesmente reflitam decência, dignidade, solidariedade e empatia. Mas para que isso aconteça, algo teria que mudar em todos nós que participamos da esfera pública, nas conversas à mesa de jantar, nas redes sociais. Isso não acontecerá enquanto continuarmos construindo trincheiras em vez de pontes e acreditarmos que nossas próprias certezas nos isentam de tentar compreender os outros.

Nota do IHU

1. Ricardo Benjamín Salinas Pliego é um empresário e bilionário mexicano, sendo proprietário e presidente do grupo Salinas que inclui que incluem o Banco Azteca, Grupo Elektra, Tv Azteca e Lusacell Telefonia. Ele comanda um grupo que fatura US$ 5 bilhões ao ano, estuda levantar uma unidade de etanol no México. Depois de anunciar a chegada da rede varejista Elektra e do Banco Azteca ao Brasil, o bilionário mexicano Ricardo Salinas Pliego, avalia novas oportunidades de investimento.

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