Ecumenismo: diálogo católico-protestante em hiato. Artigo de Fabio Gentile

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09 Julho 2026

"A teologia nos ensina que momentos de pausa e silêncio reflexivo são tão frutíferos quanto os de documentos conjuntos. Essa pausa forçará ambas as partes a definirem, de forma mais realista, o que esperam mutuamente do diálogo."

O artigo é de Fabio Gentile, teólogo, publicado por Settimanna News, 08-07-2026. 

Eis o artigo. 

A notícia, publicada em 25 de junho, da suspensão do diálogo doutrinal entre o Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos e a Comunhão das Igrejas Protestantes na Europa (CPCE) inevitavelmente reacendeu o foco no caminho ecumênico, provocando reações talvez precipitadas em alguns setores.

Embora algumas reportagens jornalísticas tenham sucumbido a um alarmismo simplista — quase falando de um "congelamento" ou de uma ruptura traumática devido à incapacidade de lidar com a fragmentação protestante —, uma leitura mais cuidadosa e teologicamente fundamentada nos revela exatamente o oposto. Não estamos diante de um fracasso, mas de um necessário ato de verdade.

A declaração conjunta oficial do Dicastério e da CPCE é clara: estamos entrando em uma "fase de reflexão". Após mais de vinte anos de caminhada compartilhada, fazer uma pausa para avaliar o caminho não significa recuar, mas sim verificar a solidez dos alicerces.

Isto diz respeito exclusivamente ao diálogo com a CPCE e "não abrange os outros diálogos bilaterais" da Santa Sé com as diversas Igrejas e comunidades eclesiais, que prosseguem normalmente com os seus trabalhos e com a publicação dos respetivos relatórios finais.

O ponto crucial teológico que emergiu nessa transição toca a própria essência dos dois modelos ecumênicos que estão sendo comparados.

Para Roma, o diálogo tem como horizonte uma comunhão que se expressa também numa visível unidade doutrinal e estrutural. Para a CPCE, contudo, a unidade é alcançada na "diversidade reconciliada", um modelo em que as Igrejas regionais mantêm a sua autonomia confessional e peculiaridades doutrinais, muitas vezes intimamente ligadas aos contextos culturais e éticos locais.

A dificuldade sentida pelo Vaticano não decorre de um fechamento preconcebido ao pluralismo, mas de uma questão metodológica: como conduzir um diálogo doutrinal vinculativo quando o interlocutor é, por sua natureza, uma constelação de vozes teológicas diversas e nem sempre convergentes?

Por sua vez, as Igrejas Evangélicas Europeias reivindicam, com razão, essa pluralidade não como uma fraqueza, mas como uma riqueza de identidade.

Há um efeito colateral desse caso que é muito mais perturbador do que as complexidades metodológicas entre Roma e as Igrejas da Reforma. A repercussão da notícia nas plataformas virtuais de mídia social foi suficiente para desencadear uma onda de comentários repletos de ódio, triunfalismo e amarga ironia entre uma parcela significativa dos usuários.

Por um lado, uma plêiade de comentaristas católicos descartou a experiência protestante com categorias medievais, desempoeirando termos como "cismáticos" e "hereges absolutos" ou rotulando séculos de história evangélica como produto da arrogância de "homens santos do momento" e definindo outras confissões como meras "fotocópias".

Por outro lado, não faltaram respostas simétricas e especulares de natureza evangélica, que visam rejeitar qualquer diálogo e apelar a uma conversão universal ao seu próprio modelo eclesial específico.

Este "termômetro digital" nos mostra que a sensibilidade ecumênica e a formação no ecumenismo entre o povo de Deus infelizmente ainda estão "aos pés de Cristo", estagnadas em um nível superficial, se não totalmente ausentes. Alguns interpretaram essa pausa técnica como uma "vitória" para sua própria facção ou uma demonstração de uma suposta superioridade institucional, esquecendo-se de que toda ferida na comunhão é uma ferida no corpo de Cristo.

Descartar a jornada ecumênica com um encolher de ombros é ignorar os ensinamentos dos últimos sessenta anos e, sobretudo, reduzi-la a uma mera fanfarronice. É preciso afirmar com clareza e veemência: o ecumenismo não é um passatempo para acadêmicos nostálgicos, nem um extra opcional para cristãos de mente aberta. A unidade é uma prioridade absoluta porque é um mandamento divino. Na noite anterior à sua morte, o que Jesus pediu ao Pai para seus seguidores não foi pureza estrutural ou triunfo político, mas apenas uma coisa: “Que todos sejam um, para que o mundo creia” (João 17:21). Para Deus, a unidade é vital porque a credibilidade do próprio Evangelho depende dela.

Quando os cristãos se dividem ou se insultam online, o mundo não vê Cristo; vê apenas as nossas misérias. Os nossos irmãos e irmãs de outras religiões não são adversários a serem derrotados ou desprezados, mas companheiros com quem partilhamos a graça do Batismo e a fé única no Ressuscitado. É, portanto, importante evitar cuidadosamente o tom de um "inverno ecuménico" e, sobretudo, silenciar o ódio à identidade que nada tem a ver com o Espírito Santo.

A teologia nos ensina que momentos de pausa e silêncio reflexivo são tão frutíferos quanto os de documentos conjuntos. Essa pausa forçará ambas as partes a definirem, de forma mais realista, o que esperam mutuamente do diálogo. Seria desejável que esse também fosse um momento para um exame de consciência dentro de nossas comunidades. Reconhecer honestamente as diferenças metodológicas e estruturais não distancia a unidade, mas a liberta da ambiguidade, estabelecendo-a sobre a rocha da clareza.

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