04 Julho 2026
"Essa tradição humanista não pôde ser imposta por nenhum dos lados. Tivemos que importar ideais democráticos da França, ideais que nos chegaram envoltos em outras filosofias — as dos enciclopedistas — que ignoravam o potencial emancipatório do cristianismo".
O artigo é de Reyes Mate, publicado por Religión Digital, 03-07-2026.
Reyes Mate é professor do Instituto de Filosofia do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC). Dedica-se à pesquisa da dimensão política da razão, da história, da religião e da memória na filosofia depois de Auschwitz. É autor do livro Justicia de las víctimas: terrorismo, memoria, reconciliación (Editorial del Hombre, 2008), entre outros. Em português, citamos Memórias depois de Auschwitz (São Leopoldo: Nova Harmonia, 2005).
Eis o artigo.
O Congresso dos Deputados convidou Leão XIV para discursar no Parlamento, e o Papa retribuiu a gentileza com um discurso que foi recebido com aplausos universais, fazendo referência à Escola de Salamanca — ou seja, ao papel da Espanha na formação de uma nova ordem mundial. Essa alusão passou praticamente despercebida, sendo vista, na melhor das hipóteses, como mera cortesia. Sua intenção prática, sua relevância atual, não foram reconhecidas porque a tradição estabelecida pela Escola não sobreviveu até os dias de hoje. Com sua continuidade rompida, ela se reduz a uma mera anedota do passado.
Em tempos tão confusos como os atuais, é importante resgatar essa tradição, pois ela lançou as bases para uma nova ordem mundial que agora se encontra em declínio. Naquela época, existiam grandes universidades na Europa, mas foi Salamanca que ditou o rumo, pois soube responder aos dois grandes desafios de seu tempo. Por um lado, a cristandade estava fragmentada, dividida em denominações rivais. A cristandade havia ficado sem uma autoridade universalmente reconhecida à qual recorrer em tempos de conflito. Era, portanto, necessário encontrar um novo princípio orientador. Por outro lado, havia a descoberta do Novo Mundo. Para compreender os problemas teóricos (teológicos e filosóficos) e práticos (morais, políticos e jurídicos) envolvidos, considere que, até aquele momento, e durante séculos, o Ocidente havia confundido humanidade com cristianismo. Para ser humano, era preciso seguir o catecismo.
Os não-cristãos, como judeus ou muçulmanos, eram vistos como seres humanos imperfeitos, culpados de sua imperfeição humana por terem a opção de se converterem ao cristianismo. Bem, o Novo Mundo quebrou esse conforto intelectual com a chegada de um tipo de Homo sapiens que não tinha noção do cristianismo (e, portanto, não poderia ser alguém que não quisesse ser cristão). A partir desse momento, as perguntas se multiplicaram: São seres humanos? São humanos como nós ou inferiores? São sujeitos de direitos, ou seja, donos de suas propriedades e terras? Como devemos nos relacionar com eles? Nossa superioridade cultural nos dá o direito de conquistá-los, de ocupar suas terras? A vantagem da Universidade de Salamanca, em relação às de Bolonha ou Paris, era estar no epicentro dos problemas. Pessoas vinham do exterior e descreviam como eles eram. Esses professores sabiam do que estavam falando.
O aspecto mais marcante da doutrina da Escola de Salamanca é que ela refletiu sobre seu tempo sem renunciar à sua tradição. É verdade que a teologia de São Tomás de Aquino, que os inspirou, serviu no passado para legitimar a velha ordem da cristandade que estava em declínio, mas Vitoria, Cano, Las Casas e Suárez souberam ler esses textos de maneira diferente: em vez de forçar o humano a se tornar cristão, entenderam o cristianismo como um caminho de ampliação do humano; em vez de submeter a política à Igreja, infundiram à política uma dimensão católica, propondo em seu Direito das Nações normas adequadas a todos os povos.
Essa interpretação inovadora do cristianismo, empreendida pela Escola de Salamanca, transcendeu seu tempo e lugar, dando origem ao que o filósofo catalão Joaquín Xirau chamou de "humanismo espanhol", uma longa tradição conhecida por nomes como erasmianismo, liberais das Cortes de Cádiz, jansenismo, krausismo e catolicismo liberal. O que caracteriza essa tradição é a promoção da autonomia política a partir do próprio cristianismo, e não contra ele. Todas essas figuras, e muitas outras, como Luís Vives, estavam convencidas — apesar da própria posição da Igreja — de que os valores políticos modernos, incluindo liberdade, igualdade e fraternidade, eram ou poderiam ser inspirados pelo cristianismo. Por isso, defenderam a igualdade com a população indígena, a tolerância em todas as circunstâncias e a liberdade religiosa nas Cortes de Cádiz.
Um de seus últimos representantes, o socialista Fernando de los Ríos, argumentou nas Cortes Constituintes de 1931 que a República deveria ser não-denominacional, mas não laica, insinuando com essa sutil distinção que a política democrática deveria ser inspirada espiritualmente, algo não garantido pelo conceito de laicidade (que condena a religião a uma questão privada). Ele o fez em um discurso memorável, no qual se apresentou como "o filho espiritual daqueles cuja consciência dissidente foi sufocada por séculos". Foi a filósofa María Zambrano quem melhor expressou o espírito dessa tradição quando disse, referindo-se à Espanha, que "somente nos lugares onde a própria religião se tornou liberal, somente ali o liberalismo moral e político criou raízes frutíferas".
Essa tradição humanista não pôde ser imposta por nenhum dos lados. Tivemos que importar ideais democráticos da França, ideais que nos chegaram envoltos em outras filosofias — as dos enciclopedistas — que ignoravam o potencial emancipatório do cristianismo. Na medida em que essas filosofias mostram sinais de profundo cansaço e exaustão, a referência a essa outra tradição — que critica a religião quando necessário, mas que também a leva em consideração — é a ponta solta que o Papa lança à Espanha para que ela reflita sobre si mesma e sobre seu tempo com a mente aberta da Escola de Salamanca.
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