O ‘puer aeternus’, a adolescência estendida, o medo de crescer e suas consequências

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04 Julho 2026

“Enraizar-se nesta terra e neste tempo, sem perder a conexão com aquilo que transcende o visível, o cotidiano e o material, é como aceitar sem se resignar. Aceitar voluntariamente a possibilidade de sofrer ao caminhar, sem deixar de amar o caminho. Amadurecer... árdua tarefa para o puer”, escreve Alejandro Marshall, psicólogo junguiano, em artigo publicado por Clarín-Revista Ñ, 23-06-2026.

Eis o artigo.

O ciclo das estações é um fenômeno natural que se move do florescimento na primavera ao declínio no outono, para depois ressurgir novamente. Amanhecer e entardecer. Na natureza, tudo experimenta esse processo, inclusive o ser humano. Mas, por alguma razão, isto gera resistências, e parece cada vez mais comum tentar burlar a passagem do tempo e a velhice.

Por que se opor ao fluxo da existência, que inclui esses dois polos?

Como ideia arquetípica, a juventude eterna está presente desde os primórdios da civilização humana. O termo “puer” é utilizado para nomear o menino-deus, o messias e aquelas figuras divinas da antiguidade associadas à renovação do mundo e à regeneração da vida, como Eros, Dionísio ou o próprio Apolo. Esses personagens míticos sugerem que nem tudo no ser humano é material, mas que existe outra dimensão que não envelhece, nem morre, como ocorre com o corpo.

Associada à rebeldia e ao jogo, a imagem mitológica do puer nos reconecta com um valor que tivemos quando crianças, e sua mensagem pode ser altamente compensatória e curativa. Ela nos recorda que a criatividade e a ousadia para enfrentar riscos, em essência, não dependem da idade, mas da atitude.

O célebre psiquiatra Carl G. Jung sustentava que os planos mítico e concreto coincidem simbolicamente. Por isso, investigou as produções culturais coletivas, como mitos e textos sagrados, e as produções oníricas individuais, como sonhos e fantasias, para compreender a alma humana e nossos conflitos mais profundos e urgentes.

Hoje, encontramos cada vez mais pessoas que não querem crescer, que rejeitam o compromisso e mantêm intenções e caprichos próprios de um adolescente em etapas posteriores da vida. No livro Puer Aeternus, Marie-Louise von Franz, aluna e colaboradora de Jung, define esse fenômeno como um tipo particular de neurose, na qual aqueles que se recusam a crescer vivem uma “vida provisória”, em eterna espera por condições melhores para finalmente desenvolver a totalidade do seu ser, que, por certo, consideram muito especial.

Tanto homens quanto mulheres com esse perfil temem perder opções e ficar presos a alguma coisa; por isso evitam qualquer compromisso. Não costumam reparar nas consequências de seus atos, pois acreditam obedecer a alguma lei superior, como se as exigências mundanas das pessoas comuns não os alcançassem.

Isso lhes dá a audácia de fazer ou dizer coisas que os demais não se animam. Mas, no fundo, possuem um grande medo de sofrer. Por isso, evitam experiências de vínculo profundas que exigem permanecer e sustentar-se mesmo em meio ao conflito com o outro (cônjuge, amigo, familiar, sócio etc.). O puer aeternus evade para não se decepcionar, paira sobre a terra pousando aqui e ali, deixando alguns rastros, projetos inacabados, ideias soltas e corações partidos.

A adolescência estendida parece ser favorecida por certos fatores culturais e sociais de nossa época. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, vivemos tempos de uma modernidade líquida que impõe o culto ao jovem, ao novo e ao leve, valorizando aquilo que pode se mover rapidamente, sem demora, e descartando tudo o que exige um processo, uma espera ou, pior ainda, uma renúncia.

Com o aumento da virtualidade, evitamos a complicação da matéria que poderia nos ensinar sobre sua vida útil, sobre a fragilidade e a caducidade do que é corpóreo, sobre as distâncias e os tempos. Em troca, promete-se uma gratificação imediata. E para aquilo que incomoda ou não funciona, existe a cultura do cancelamento.

Ser um adulto normal neste tempo, um homo consumens em consumo eterno no seio do mercado, não exige muita maturidade.

A puberdade e a adolescência são períodos em que ocorrem as mudanças físicas rumo à maturação sexual definitiva e à passagem psicológica e social para a vida adulta. A lei atribui direitos e deveres, após os dezoito anos, e a psicologia entende como adulto aquele que deixou para trás as exigências e reivindicações da posição infantil e assumiu a responsabilidade por si mesmo, algo que tampouco depende da idade. Adulto seria, então, quem aceita as consequências de suas decisões e pode responder pelo que é e pelo que faz. Daí o termo “responsabilidade”.

Por sua vez, a transição entre a infância e a vida adulta foi marcada por rituais de iniciação em diferentes culturas ao longo da história, mas os rituais de passagem, hoje em dia, são apenas meras formalidades, cascas vazias de conteúdo. A crise de sentido que afeta diversas áreas da vida em comunidade talvez seja outra causa do aumento de pessoas que se recusam a ingressar no mundo adulto.

Aceitar as condições finitas desta existência e impor limites a si mesmo é justamente o que o puer aeternus rejeita e, ao fazê-lo, vê interrompida a sua participação nesta vida. O jovem eterno guarda sempre uma opção no bolso; nunca se entrega totalmente a nada (a não ser aos seus caprichos). Foge de ficar ancorado no aqui e agora, onde não é possível tudo, mas onde algo é possível. E o real raramente coincide com o ideal.

Von Franz sustenta que, ao não se definir por uma das múltiplas opções disponíveis, toda a criatividade e toda a vida de fantasia desses indivíduos ficam condenadas. Não se envolver em algo significativo, nem enraizar suas intenções em algo concreto faz com que esse rico mundo interior se converta em uma vida não vivida. E recusar-se a crescer é sempre perigoso.

Jung disse, certa vez, que a vida não vivida é uma doença da qual se pode morrer, e a morte em vida é algo que o puer aeternus rejeita com todas as suas forças. Mas é justamente aí que está o germe do problema. Para não se tornar apenas mais um entre a multidão, escolhe não entrar em campo, nem se colocar seriamente à prova, esticando a segurança da infância além da medida, em uma liberdade fracassada.

Permanecer em uma transição em que nada se define e nem completa sua forma potencial é como uma semente que nunca termina de germinar, ou uma árvore que não dá frutos porque nunca é o momento adequado. É o entusiasmo presente em todo começo, mas também a interrupção abrupta, antes de iniciar o trabalho duro.

O puer aeternus é uma promessa que nunca se cumpre. Vive sob a ilusão de ter tempo, em um limbo onde nada acontece além do que existe em sua fantasia, um lugar onde nem a morte e nem a velhice chegam. Vive na Terra do Nunca, ou em alguma de suas sucursais, como os parques de diversão portáteis onde se mata o tempo: consoles de videogame ou celulares “inteligentes”.

Existem duas obras literárias famosas do século XX que tratam da criança eterna e mostram simbolicamente como esse fenômeno ocorre em sua versão extrovertida e introvertida: Peter Pan, de James Barrie, e O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry.

Em Peter Pan, a batalha arquetípica entre a vida e a morte ocorre no exterior. O irreverente e audacioso “rei dos meninos perdidos” combate o Capitão Gancho, o amargurado capitão do navio pirata, na Terra do Nunca. Nessa ilha distante e exótica, onde as crianças não crescem e vivem sem regras, habitam fadas e sereias, uma tribo de nativos e todos os animais do reino animal. Peter Pan rejeita uma relação com Wendy, uma mulher real, e escolhe não ir para o mundo adulto, mas permanecer com seu feminino de fantasia: a fada Sininho. Ele continua com suas aventuras, impune.

Ao contrário, o Pequeno Príncipe vive sozinho em um minúsculo planeta com três vulcões, de onde observa emocionado os entardeceres. Sua batalha acontece no interior. Ele chega à Terra em busca de estabelecer contato com outros seres, mas depois aceita a mordida da serpente para, assim, retornar à sua estrela e à sua rosa. Em vez de aceitar seu destino e transcendê-lo, escolhe a morte, rejeitando assim a vida e a responsabilidade.

Mais do que uma grande aventura, trata-se de uma história triste e desértica, como a de alguém que não consegue superar a distância entre sua sensibilidade e sua intuição interior e a dureza do mundo exterior. A partir da mentalidade pueril introvertida, uma verdade espiritual como “o essencial é invisível aos olhos” acaba se transformando em uma sentença que aprisiona e corrói o coração.

Nesse sentido, nem Peter Pan e nem o Pequeno Príncipe realizam a tarefa heroica. Não atravessam nenhum abismo interior, nem resolvem qualquer enigma que os transforme. Não há sacrifício, tampouco redenção.

O caminho arquetípico do herói consiste em superar a nostalgia da infância e renunciar a certas ilusões, sem eliminá-las pela raiz, mas, ao contrário, redirecionando a energia para que flua em torno do desenvolvimento da própria natureza. Levar a cabo o processo de individuação (tornar-se uma pessoa íntegra) requer uma atitude heroica para sair do território conhecido e atravessar as diferentes etapas em prol de uma maior expansão e concretização. Para isso, é indispensável colocar à prova as próprias forças e aprender com a experiência, não apenas da teoria. Tentar, cair e voltar a se levantar.

Contudo, o puer aeternus está entre a espada e a parede: ou perde a centelha da vitalidade juvenil para adaptar-se à sociedade como mais um, tornando-se cínico e medroso; ou permanece preso a uma mentalidade infantil, protegido do mundo externo, sempre incômodo e inoportuno, sem jamais conseguir realizar sua vida, nem seu potencial.

Essa oposição de forças em contradição é um conflito aparentemente insolúvel. Uma verdadeira encruzilhada. É o que simboliza a crucificação em sentido arquetípico, como mostrou Jung. Há estímulos e obrigações de seu mundo interior e, ao mesmo tempo, do mundo exterior. Dois eixos de uma cruz, dois níveis de existência: matéria e espírito em tensão.

Atravessar esse conflito é um (segundo) parto, ou seja, iniciar-se em um nível superior, mais complexo e ao mesmo tempo mais profundo da existência. Enraizar-se nesta terra e neste tempo, sem perder a conexão com aquilo que transcende o visível, o cotidiano e o material, é como aceitar sem se resignar. Aceitar voluntariamente a possibilidade de sofrer ao caminhar, sem deixar de amar o caminho. Amadurecer... árdua tarefa para o puer.

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