Bubista, o treinador de Cabo Verde, a voz dos pobres no futebol

Foto: Wikimedia Commons

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03 Julho 2026

O treinador, cuja equipe enfrenta a Argentina na fase de 32 avos de final, defende os valores dos azarões no sucesso de seu time.

A informação é de Lorenzo Calonge, publicada por El Pais, 03-07-2026.

A incrível seleção nacional de Cabo Verde é fruto de sua vasta diáspora: mais da metade dos jogadores nasceu fora do país. No comando, porém, está um homem forjado nos campos de terra batida deste arquipélago atlântico, usando bolas que, como ele mesmo conta, sua mãe fazia para ele com meias. Jogou no exterior, inclusive pelo Badajoz (ainda com dreadlocks), mas voltou para casa para se dedicar ao futebol. Pedro Leitão Brito (56 anos) é conhecido como Bubista, que em crioulo cabo-verdiano significa Boa Vista, sua ilha, uma das dez que compõem o país, e hoje se tornou uma voz para os menos favorecidos no futebol.

Desde que chegou à Copa do Mundo, e ainda mais desde que sua equipe começou a surpreender (eles enfrentam a Argentina nas oitavas de final nesta sexta-feira), ele tem defendido consistentemente suas origens e os valores daqueles menos conhecidos no meio. “Espero que possamos ser uma referência para outros países pequenos e pobres como o nosso. Se nós conseguimos superar as dificuldades e chegar até aqui, qualquer um consegue. O futebol pertence a todos, não apenas aos mais ricos”, afirmou o treinador, acrescentando que também fala como representante da África.

Sua mensagem, proferida após o triunfo de Cabo Verde, ressoa com especial força no palco da maior e mais extravagante Copa do Mundo da história. É também verdade que sua federação, estreitamente alinhada com a FIFA, colherá os frutos desse sucesso esportivo: o valor total dos prêmios arrecadados chegou a 21 milhões e poderá subir para 26 milhões caso consigam outra vitória surpreendente contra a Argentina. “Tentamos honrar nosso país e nosso povo. Mostramos que podemos competir neste nível, sempre mantendo a humildade da qual nos orgulhamos”, enfatizou ele na quinta-feira, em uma coletiva de imprensa na qual o assessor de imprensa de Cabo Verde, com o apoio da FIFA, proibiu três perguntas sobre a acusação de estupro contra o capitão Ryan Mendes.

Pedro Leitão Brito foi nomeado técnico da seleção nacional em 2020, após ter jogado por Cabo Verde, sido capitão da equipe, treinado clubes na modesta liga local e atuado como auxiliar técnico da seleção. Ele afirmou gostar de Marcelo Bielsa, embora tenha criticado uma jogada de Bielsa durante a partida contra o Uruguai, e confessou admirar Vicente del Bosque, “pela sua elegância na resolução de problemas”. A classificação para a Copa do Mundo lhe rendeu o prêmio de Melhor Técnico Africano do Ano de 2025.

“Ele é muito humilde, sincero e direto, mas também um grande estrategista. Analisa muito bem os adversários”, diz Tony Araujo, cabo-verdiano e agente da FIFA que conhece Bubista há mais de 20 anos. “Ele já foi auxiliar de outros treinadores de Cabo Verde, então é um dos arquitetos desse sucesso. Sem ele, não dá para entender tudo o que está acontecendo”, acrescenta.

Antes de defender a causa do futebol para os pobres nos Estados Unidos, a iniciativa já lhe havia dado uma plataforma para destacar o quanto ainda falta progredir. “Precisamos de infraestrutura”, declarou ele em novembro no jornal local Expresso das Ilhas. “Não temos uma seleção olímpica, nem uma seleção sub-20 ou sub-19. É quase impossível para um jogador do nosso país chegar à seleção principal. Jogadores de outros países africanos viajam em classe executiva, e os nossos viajam em classe econômica”, reclamou. Uma reportagem recente da BBC afirmou que a federação cabo-verdiana, que se recusou a comentar com este jornal, tem apenas sete funcionários em tempo integral, e os ingressos para jogos internacionais também são vendidos em padarias e postos de gasolina.

Bubista poderia estar em outros países onde as condições são melhores, e tenho certeza de que receberá muitas propostas depois da Copa do Mundo, mas não sei se ele se interessará por ir para outro lugar. Acho que ele ficará em Cabo Verde por causa da sua ligação com o país”, prevê Araújo sobre um homem muito apegado à sua terra natal e fã de Cesária Évora, figura importante da música local. “Não se trata apenas do futebol que jogamos, mas da nossa cultura, da nossa paixão. Espero que isso atraia investimentos. Às vezes, somos um pouco tímidos”, afirmou o próprio recentemente.

O progresso de Bubista e sua equipe, liderada pelo goleiro Vozinha, cativou até mesmo o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, que demonstrou publicamente seu apoio. O presidente do Timor-Leste, país também ligado a Portugal, ofereceu seu próprio endosso: “Os cabo-verdianos possuem uma constituição física e espiritual inigualável, resultado de uma dieta rigorosa: cachupa, uma mistura de milho, feijão, carnes e muitas outras proteínas”, observou. O técnico resumiu: “Somos corajosos e ambiciosos. Também será difícil para a Argentina”, concluiu na quinta-feira.

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