Disputas sobre os fundamentos da teologia moral. Artigo de Michael Sean Winters

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30 Junho 2026

"Se Barron parasse de caricaturar as posições de seus opositores, poderia reconhecer um argumento poderoso para a eficácia pastoral de normas morais claras. Em nossa época, muitos jovens se sentem sobrecarregados por nossa cultura caótica. Muitos desses jovens convertidos ou reconvertidos buscam no catolicismo exatamente normas morais firmes. A Igreja deve acompanhá-los também."

O artigo é de Michael Sean Winters, autor católico, publicado por National Catholic Reporter (NCR), 29-06-2026.

Eis o artigo. 

Uma importante luta intelectual entre teólogos morais, geralmente conduzida a portas fechadas ou nas páginas de revistas que poucos leem, veio a público na última semana. A disputa gira em torno destas perguntas: Como a Igreja Católica faz teologia moral? Qual é a relação entre teologia moral fundamental e teologia pastoral? Qual é o papel da experiência e do encontro na formação de nossa teologia? Essas são as questões centrais tanto das críticas quanto das defesas do magistério do Papa Francisco e, agora, do Papa Leão XIV.

A polêmica teológica começou com uma entrevista de Dom Vincenzo Paglia no site italiano Settimana News, na qual o arcebispo explicou as reformas que realizou durante sua gestão no Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família. Paglia criticou seus predecessores por praticarem uma "teologia de poltrona". Esse relato foi divulgado em inglês no Catholic World Report e provocou um longo tuíte de Dom Robert Barron no X.

Barron caracterizou a abordagem de Paglia em termos incisivos. "Em vez de normas morais absolutas fundamentadas em uma compreensão aguda dos bens básicos, ele e seus colegas estavam propondo uma teoria moral enraizada no discernimento histórico da experiência subjetiva e cultural — não uma 'teologia de poltrona', mas uma que opera dentro da história e dentro da vida das pessoas", escreveu Barron. "Essa é, claro, a linguagem do pós-modernismo na moda, e é de fato perigosa." Acrescentou: "O que qualquer programa moral verdadeiramente coerente exige é exatamente o que Paglia e seus colegas procuravam eliminar, a saber, normas morais absolutas."

Ambos os prelados estão praticando um mau hábito de caricaturar a posição do adversário, o que não é a maneira cristã de debater. Paglia errou ao criticar o trabalho do Instituto João Paulo II antes de sua gestão como "teologia de poltrona". Dois dos teólogos pastorais mais profundamente humanos que já conheci ensinaram no Instituto João Paulo II antes das reformas de Paglia. Barron errou ao acusar Paglia de relativismo.

Paglia argumentou que precisamos prestar atenção às realidades da vida das pessoas, a como diferentes normas morais às vezes são vivenciadas como conflitantes na realidade vivida, e que prestar atenção à forma como aplicamos essas normas em diferentes contextos culturais não é apenas pastoralmente importante, mas também lança nova luz sobre as verdades morais das quais as normas derivam.

Isso não é relativismo no sentido "pós-modernista na moda". É mais parecido com a prática da casuística, só que com um circuito de retroalimentação. A casuística buscava aplicar normas morais às circunstâncias da vida real, levando em conta fatores atenuantes, por exemplo, mas era uma via de mão única: o padre aplicava a regra. A experiência da aplicação pode ter dado ao padre sabedoria adicional como pastor, mas não afetava os livros didáticos de teologia moral. A teologia pastoral no estilo de Francisco, Paglia e outros também aplica normas morais à vida das pessoas, mas num contexto pastoral mais relacional e que, criticamente, depois pergunta como as circunstâncias da vida das pessoas informam nossa compreensão das normas morais.

O padre passionista Enzo del Bracco, presidente da Chicago Theological Union, defendeu a abordagem de Paglia em sua newsletter. Del Bracco argumenta que não são as normas morais que são relativizadas pela ênfase no encontro pessoal, mas nossas próprias perspectivas limitadas. "A teologia cristã foi frequentemente renovada não nas salas de aula, mas por meio de encontros com pessoas cujo sofrimento expõe os limites das premissas aceitas", escreve ele.

Observando a longa associação de Paglia com a Comunidade de Sant'Egidio, com sua ênfase na oração, amizade e serviço, del Bracco escreve: "Essa perspectiva ajuda a explicar por que Paglia tem consistentemente enfatizado a história, o discernimento e as circunstâncias concretas em que as pessoas vivem. Tal ênfase é às vezes interpretada como um afastamento da verdade moral objetiva. Uma leitura mais precisa é que ela reflete uma convicção de que a teologia moral deve permanecer atenta à complexidade das vidas humanas se quiser iluminá-las." Ou, como dizia o Papa Francisco, "as realidades são maiores que as ideias".

Barron invocou o exemplo da escravidão para fundamentar sua crítica. "A escravidão é errada? Intrinsecamente errada? Errada independentemente do que as pesquisas de opinião pública digam, independentemente do consenso atual sobre ela? Imagino que qualquer pessoa decente diria que sim. Mas esse sim está baseado precisamente no que a tradição chama de lei natural e de bens básicos. Existem valores tão fundamentais que atos repugnantes a eles são, por sua própria natureza, perversos."

Del Bracco retoma o mesmo exemplo. "O que expôs a injustiça da escravidão não foi simplesmente a descoberta de um argumento melhor. Foi também o testemunho daqueles que encontraram suas vítimas e se recusaram a desviar o olhar", observa ele com razão, citando São Pedro Claver, Frederick Douglass, Harriet Tubman e William Wilberforce como pessoas que insistiram para que a humanidade não desviasse o olhar do sofrimento dos escravizados.

Para del Bracco, os encontros com a imensidão do mal não substituíram a verdade moral. "O encontro expôs pontos cegos que haviam se tornado invisíveis dentro dos quadros morais aceitos", escreve. "A realidade não aboliu os princípios morais; ela purificou nossa compreensão deles."

Se Barron parasse de caricaturar as posições de seus oponentes, poderia reconhecer um argumento poderoso para a eficácia pastoral de normas morais claras. Em nossa época, muitos jovens se sentem sobrecarregados por nossa cultura caótica. Muitos desses jovens convertidos ou reconvertidos buscam no catolicismo exatamente normas morais firmes. A Igreja deve acompanhá-los também.

Aqui estão meus desejos. Gostaria que o campo de Barron admitisse que todos vivemos na história e que nossa compreensão das normas morais é afetada pelo tempo em que vivemos. Gostaria que o campo de Paglia reconhecesse que, nessa cultura de afirmação coercitiva, a experiência pode ser usada para distorcer nossa tradição moral, não para aplicá-la. E gostaria que todos, incluindo eu mesmo, fossem melhores em apresentar os argumentos dos outros cristãos da melhor forma possível, não da pior.

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