Cardeais avaliam substituir a expressão "guerra justa" por "defesa proporcional"

Foto: Vatican Media

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30 Junho 2026

O ensinamento da Igreja Católica sobre a "guerra justa" passou de um âmbito acadêmico da teologia moral para um improvável ponto de conflito entre o Papa Leão XIV e importantes autoridades americanas, incluindo o vice-presidente católico JD Vance. Agora, tornou-se também um tema central de debate entre os cardeais do mundo todo.

A reportagem é de Justin McLellan, publicada por National Catholic Reporter, 27-06-2026.

Durante uma cúpula de dois dias no Vaticano, 178 cardeais de todo o mundo reuniram-se em Roma para debater se a Igreja deveria abandonar a linguagem da "guerra justa" e, em vez disso, enquadrar seu ensinamento moral sobre conflitos em torno do conceito de "defesa proporcional".

A questão foi colocada no centro da reunião de 26 e 27 de junho, conhecida como consistório de cardeais, depois que Leão XIV intensificou suas críticas à guerra moderna nos últimos meses e as codificou no documento doutrinário mais importante de seu pontificado até então: sua encíclica Magnifica Humanitas, na qual escreveu que o ensinamento da Igreja sobre a teoria da guerra justa está "ultrapassado".

Uma das quatro sessões de trabalho do consistório, dedicada à "cultura do poder e à civilização do amor", convidou os cardeais a refletirem sobre essa seção da encíclica do Papa.

No fim do primeiro dia de reuniões, em que os cardeais se sentaram em 20 mesas-redondas para discussões em pequenos grupos, cujos resultados foram posteriormente compartilhados com a assembleia geral, "muitos grupos compartilharam a necessidade de superar a lógica da guerra justa, uma vez que o Evangelho não pode ser imposto pela força, e de, em vez disso, falar sobre o direito a uma defesa proporcional", afirmou o Vaticano em uma síntese da sessão de trabalho da tarde de 26 de junho, publicada após o seu encerramento.

Ao compartilharem suas conversas com o papa, os cardeais expressaram "um compromisso unânime de apoiá-lo e unir-se a ele em seu apelo pela paz e sua condenação da guerra", disse o Vaticano.

Leão X havia estabelecido o tom da reflexão sobre a guerra na sua homilia na missa de abertura do consistório, afirmando que "a guerra nunca é digna da humanidade e nunca é abençoada por Deus".

E o fato de a sessão de trabalho de 27 de junho ter sido apresentada pelo Cardeal Víctor Manuel Fernández, chefe do escritório de doutrina do Vaticano, sublinhou o peso magisterial da discussão.

Ao abrir a sessão, Fernández disse que a doutrina da guerra justa da Igreja, que define os critérios morais para que as nações se envolvam em guerras, levou à manipulação dos ensinamentos da Igreja para fornecer uma base teórica para as guerras mais injustas.

"Em vez de impedir guerras, isso ajuda a justificá-las", disse o cardeal, afirmando explicitamente que o princípio da legítima defesa não pode ser invocado "no sentido amplo e excessivamente aberto das chamadas guerras preventivas".

Em março, em meio à crescente escalada da guerra liderada pelos EUA no Irã, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, afirmou que, se o direito das nações de lançar guerras preventivas fosse reconhecido, "o mundo inteiro correria o risco de ser incendiado". Seus comentários vieram logo após o secretário de Estado Marco Rubio, católico, ter dito que os Estados Unidos atacaram o Irã "de forma proativa e defensiva".

Diante dos cardeais, Fernández afirmou que "seja no caso da Rússia ou dos Estados Unidos, a justificativa para o envolvimento de potências estrangeiras nas guerras do Oriente Médio parece ser sempre alguma forma de suposta 'autodefesa'".

Ele também criticou "a enorme desproporção das intervenções militares em Gaza e no sul do Líbano".

O cardeal afirmou que a linguagem da Magnifica Humanitas demonstra como "a própria noção de legítima defesa precisa ser definida com mais clareza para que possa ser compreendida em seu sentido mais estrito", e disse que o estado do mundo convida a doutrina social da Igreja a se pronunciar como uma voz moral.

"De fato, nosso ensinamento social possui uma integridade, harmonia e coerência que não se encontram na política, em propostas ideológicas ou em outros setores da sociedade", disse ele.

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