20 Junho 2026
“A Palestina continua sendo um exemplo, agora, pelo compromisso, convicção e humanismo de seus médicos e demais profissionais da saúde”, escrevem Márgara Millán, professora na Universidade Nacional Autônoma do México, e Juan Trujillo Limones, professor na Universidade do Novo México, em artigo publicado por La Jornada, 19-06-2026
Eis o artigo.
O médico pediatra palestino Hussam Abu Safiya, diretor do Hospital Kamal Adwan, com seu avental, aproxima-se de um tanque do exército israelense nas imediações do centro médico em Gaza, naquele fatídico 28 de dezembro de 2024, quando o espaço hospitalar já havia sido invadido e seu pessoal evacuado. Essas imagens deram a volta ao mundo. São as últimas que temos dele, caminhando motu proprio em direção àquele tanque. O doutor Safiya havia sido interrogado e agredido por soldados israelenses e ferido na perna, em 23 de novembro do mesmo ano.
Israel afirmou, como em muitos outros casos de instalações de saúde atacadas, que o hospital abrigava membros do Hamas. Razão suficiente para destruir o edifício e todos os que estivessem em seu interior. “Estamos morrendo dentro dos hospitais, estão nos aniquilando, a linguagem do respeito mundial desapareceu”, denunciou Safiya, em lágrimas diante da câmera, apenas alguns dias após o assassinato de seu filho Ibrahim, em outubro de 2024. Desde então, mais de 1.500 profissionais da saúde foram assassinados em ataques israelenses contra instalações e transportes médicos (Middle East Eye, 22/06/25).
O genocídio tem múltiplas faces. Não se trata apenas de bombas e drones assassinos contra a população de maneira generalizada, mas também do assassinato de meninos e meninas com um tiro na cabeça; do cerco sanitário e alimentar que vai debilitando a população; do assassinato direcionado a jornalistas e, como hoje denunciamos, de todo o corpo médico e demais profissionais da saúde.
Desde o dia 13 de novembro de 2023, 36 hospitais foram atacados e sitiados em flagrante violação da Convenção de Genebra de 1949, provocando a morte de bebês recém-nascidos e deixando milhares de pacientes sem tratamentos e cirurgias. O principal alvo simbólico foi o Hospital Al-Shifa, com 150 especialistas em saúde atacados com drones e franco-atiradores, em outubro de 2023.
O caso do médico Khaled Hamouda, do Hospital Indonésio, é indiscutivelmente emblemático por se tratar de um massacre intencional, em 2023. Hamouda pertencia a uma família de médicos da qual o exército israelense assassinou 10 membros. Os profissionais da saúde chegaram a ser atacados diretamente em suas casas (Gaza: doctors under attack, Channel 4, 2025).
Como nos piores momentos do horror totalitário da Alemanha nazista, o exército israelense criou campos de concentração temporários chamados black sites, para onde leva civis indefesos e profissionais da saúde. A existência desses espaços de horror, fora do escrutínio das câmeras de jornalistas ou dos cidadãos, demonstra a tentativa genocida de evitar responsabilidades jurídicas, permitindo apreensões, humilhações e torturas sem nenhuma consequência, se é que alguma viria a existir.
A conduta do exército israelense em seus ataques a hospitais e a profissionais da saúde de Gaza corresponde a uma lógica e a padrões de ofensiva definidos. Trata-se de um encadeamento de ações:
1) Ataques aéreos e bombardeios aos edifícios hospitalares;
2) Cerco terrestre e bloqueio de insumos;
3) Invasão com a presença de tanques armados e escavadeiras;
4) Detenção de médicos, pacientes e acompanhantes;
5) Evacuação forçada;
6) Geração de inoperância
(Report. Attacks on hospitals, ONU, 2024).
Nessa espiral de violência, segundo o documentado, prossegue o padrão de tortura:
1) Translado de civis e profissionais da saúde para “black sites”;
2) Translado para centros de detenção em Israel;
3) interrogatório;
4) tortura com abusos físicos, psicológicos e estupros
(Gaza: doctors under attack, Channel 4, 2025).
Após a primeira invasão ao Hospital Kamal Adwan, em dezembro de 2023, quando o exército de Israel cercou o local, o doutor Abu Safiya havia denunciado a presença de quadcopters (quadricópteros) com quilos de explosivos. Esses artefatos, capazes de voar e ser monitorados a distância, foram usados para assassinar de maneira premeditada civis e profissionais da saúde. No hospital, havia 22 bebês em cuidados intensivos. Safiya denunciou à imprensa a brutalidade com que Israel promoveu massacres (The disappearance of Dr. Abu Safiya, Fault Lines, 2025).
Após ser capturado, o doutor Abu Safiya foi enviado à prisão de Sde Teiman, uma base militar israelense localizada no deserto do Neguev, a cerca de 29 km da fronteira com Gaza, convertida em um campo de tortura. Entre os detidos maltratados, também havia profissionais da saúde palestinos capturados durante as incursões israelenses em hospitais de Gaza.
Meses depois, Abu Safiya foi transferido para a Prisão de Ofter, na Cisjordânia. Sua detenção representou um ponto de inflexão no colapso do sistema de saúde. Naquele momento, suas denúncias já mencionavam o uso de armas sofisticadas que liberavam diferentes tipos de pó: “recebemos corpos decapitados e pessoas que chegaram em pedaços”, explicou Abu Safiya, enquanto seu hospital atendia pacientes gravemente feridos no chão do centro cirúrgico, nos corredores e nas salas de espera. As principais vítimas: crianças, mulheres e idosos.
No último 31 de maio, o Hospital dos Mártires de Al-Aqsa anunciou que seus centros cirúrgicos pararam de funcionar após a falha total de seus geradores elétricos, o que provocou a suspensão das cirurgias e que coloca as unidades de diálise, cuidados intensivos neonatais, terapia intensiva e laboratórios em risco iminente de fechamento (Al Mayadeen, 31/05/26).
Ezzideen Shehab é um médico palestino que retornou a Gaza poucos dias antes do 7 de outubro de 2023. Atuava como voluntário no Hospital Indonésio. Em dezembro de 2024, fundou o Centro Médico Al-Rahma, que sofreu danos em numerosas ocasiões, antes de ser finalmente destruído, em julho de 2025. Shehab publicou o livro de testemunhos Diário de um jovem médico (2025), que hoje precisa ser revisitado à luz dos crimes de Israel contra os médicos.
No sábado, 30 de maio deste ano, o médico Yamal Abu Aoun, chefe do serviço de anestesia do Hospital Yafa, foi assassinado após um ataque aéreo israelense, em Deir al-Balah.
Hoje, a vida de Hussam Abu Safiya corre perigo: encarcerado, torturado, desnutrido, sem atendimento médico; não há contra ele nenhuma acusação judicial, o que constitui a norma dentro desse sistema de injustiça israelense. Numerosas campanhas exigem sua libertação, e as redes sociais se mobilizam para tentar impedir que sua prisão arbitrária e sem processo judicial continue consumindo sua vida.
Assim como os jornalistas se uniram internacionalmente denunciando Israel pelo assassinato de cerca de 300 homens e mulheres da categoria, é necessário que os médicos e demais profissionais da saúde do mundo e, sobretudo, de nosso país, levantem a voz.
Se o juramento médico de Hipócrates quanto ao dever e à missão ética dos médicos, mandato respaldado pela Declaração de Genebra de 1948, tivesse sentido, deveríamos ver consequências contundentes. Em vez disso, assistimos à repetição cotidiana desses atos genocidas de extermínio. A Palestina continua sendo um exemplo, agora, pelo compromisso, convicção e humanismo de seus médicos e demais profissionais da saúde.
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