Colômbia: o espectro da agitação social paira sobre a reta final das eleições presidenciais. "Tudo começará no dia em que aquele cara ganhar"

Abelardo de la Espriella. (Foto: RS/Fotos Públicas)

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18 Junho 2026

Os alertas de protestos e violência estão se multiplicando diante da possível vitória do candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella.

A reportagem é de Maria Martín, publicada por El País, 17-06-2026.

A contagem regressiva começou há semanas. No dia 21 de junho, dependendo de quem vencer as eleições, as pessoas estão preparando uma resposta nas ruas. De uma prisão em Bogotá, um dos detidos pelo levante social de 2021 reafirmou ao EL PAÍS uma mensagem que circula há dias: “Se a direita chegar ao poder, o povo vai para as ruas”. Não é especulação, afirma ele. “Suportamos mais de 50 anos sob uma direita fascista e genocida. O povo não vai tolerar isso.”

O alerta vem de Sergio Pastor, de 19 anos, um dos jovens que, em 2021, formaram a Primeira Linha, o grupo de manifestantes que se organizou para liderar as marchas e confrontar a repressão policial em defesa dos manifestantes. O governo de Iván Duque os tratou como criminosos. Pastor cumpre atualmente uma pena de 12 anos e 9 meses por tortura e conspiração para cometer um crime, acusações que ele nega.

Da prisão, ele afirma que esses movimentos sociais já estão se preparando. Se Abelardo de la Espriella — o candidato que os chama de “terroristas” — vencer no domingo, eles voltarão às ruas no mesmo dia da apuração. “Uma possível explosão social não é uma realidade distante. É o cenário que se desenrola na América Latina hoje. Vamos falar do que está acontecendo na Argentina, no Chile, na Bolívia, no Equador…”. A reação, garante ele, será imediata: “Tudo começará no dia em que esse cara ganhar.”

Em 31 de maio, a Colômbia estava dividida em duas. Abelardo de la Espriella, o advogado de extrema-direita que transformou a campanha em um espetáculo e se apresentou como o outsider que romperia com tudo, surpreendentemente venceu o primeiro turno com 43,7% dos votos. Iván Cepeda, o senador de esquerda que personifica a continuidade do projeto de Gustavo Petro, ficou a menos de três pontos percentuais atrás, com 40,9%. Naquela mesma noite, antes da conclusão da apuração dos votos, Petro questionou os resultados sem apresentar provas, e De la Espriella convocou o exército para acionar os mecanismos constitucionais caso o presidente "pretendesse desrespeitar a vontade do povo". A democracia prevaleceria, ameaçou ele, "pela razão ou pela força". A Colômbia entrou no segundo turno com tensões elevadas.

Os serviços de inteligência começaram a se mobilizar. O mesmo aconteceu com equipes de segurança privada de diversas empresas, que realizaram reuniões protocolares esta semana para proteger seus funcionários que estarão nas ruas no dia 21. "Os alertas estão em nível máximo para possíveis manifestações, especialmente no sudoeste: Cali, Popayán e Cauca", foi o que se ouviu em uma dessas reuniões.

Mas nem todos os cenários são iguais. Para a Control Risks, consultoria de risco que monitora a estabilidade política na região, duas fases distintas devem ser consideradas. A primeira seria imediata: uma reação nas ruas em 21 de junho, caso De la Espriella vença, com algum nível de vandalismo, mas “nada em grande escala”. Segundo Oliver Wack, gerente-geral da empresa para a região andina, essa resposta inicial teria certa espontaneidade, mas seria “em grande parte coordenada pela campanha e pelo governo”, previsivelmente acompanhada por declarações do presidente Petro ou do próprio Cepeda questionando os resultados.

O segundo cenário é mais lento. Se De la Espriella chegar ao poder e implementar cortes nos gastos públicos, facilitar a exploração de petróleo acelerando os processos de consulta prévia ou desmantelar direitos sociais, Wack acredita que um descontentamento “muito mais orgânico” poderá surgir, comparável ao de 2019 e 2021. “Podemos ver isso a médio prazo”, alerta. A diferença, em sua opinião, é crucial: uma coisa é o protesto político e violento do dia seguinte, e outra bem diferente é a explosão que começa a se alastrar de baixo para cima.

O ministro da Defesa, Pedro Sánchez, também alertou esta semana sobre a tensão social que pode levar a distúrbios nas ruas. “Em relação a possíveis distúrbios violentos, temos informações que indicam que eles podem ocorrer, e esta é uma das ameaças mais significativas que enfrentamos. Após a desinformação inicial, seguem-se ações violentas por parte de alguns indivíduos”, afirmou. Esses alertas estão concentrados em 38 municípios, embora a atenção principal esteja voltada para as quatro maiores cidades do país: Bogotá, Medellín, Cali e Barranquilla. “Estamos mobilizando todos os recursos disponíveis”, acrescentou.

Em uma campanha que vem se intensificando há semanas, figuras públicas não hesitaram em elevar a temperatura. O mais recente a fazê-lo foi Gustavo Bolívar, ex-senador que faz campanha para Cepeda. “Os empresários, os donos deste país, aqueles que detêm o poder econômico, ficam desde já avisados ​​de que, se a alternativa violenta de extrema-direita triunfar, este país pegará fogo”, disse ele na terça-feira. “O povo não vai se deixar destruir assistindo de braços cruzados”, afirmou, referindo-se à ameaça de De la Espriella de destruir a esquerda.

Carlos Carrillo, ex-diretor da Unidade Nacional de Gestão de Riscos de Desastres, que renunciou ao cargo para se juntar à campanha de Cepeda, ecoou esse sentimento. Esta semana, no programa "Desnúdate con Eva" (Desnude-se com Eva), Carrillo fez um alerta que a direita interpretou como um ultimato: se De la Espriella vencer, a Colômbia vai queimar. "Sem dúvida, o país vai pegar fogo", disse ele. Quando a jornalista espanhola

Eva Rey lhe perguntou se não deveria haver um apelo à calma em caso de derrota, Carrillo foi enfático: "Não funciona assim". Ele acrescentou: "Se o fascismo vencer, a violência vai se intensificar. Vão arrancar os olhos dos manifestantes novamente. Voltaremos a um passado em que o protesto é criminalizado e os jovens da classe trabalhadora são perseguidos."

Da prisão, Pastor insiste que os resultados não demorarão a ser sentidos nas ruas. Na lateral do rosto, entre a têmpora e a sobrancelha, ele tem uma tatuagem. Ele a fez num acampamento na linha de frente, enquanto a polícia os atacava. Em letras góticas, lê-se: resistência.

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