13 Junho 2026
A Amnistia Internacional denunciou nesta quarta-feira "o apoio tácito ou explícito da comunidade internacional aos crimes israelitas, incluindo genocídio e apartheid, ou a sua incapacidade de agir com determinação para os impedir", que "encorajou as autoridades israelitas a intensificar uma campanha brutal para deslocar à força os palestinianos e expandir o seu controlo sobre as terras na Cisjordânia".
A informação é publicada por 7Margens, 10-06-2026.
Esta afirmação acompanha um novo relatório de 149 páginas, no qual a organização detalha "como as autoridades israelitas estão a acelerar a anexação através de uma campanha estatal de limpeza étnica que visa as comunidades beduínas e pastoris palestinianas na denominada Área C da Cisjordânia ocupada, enquanto cometem o crime contra a humanidade de transferência forçada".
Para além de já ter denunciado a prática de genocídio na Faixa de Gaza, este extenso e documentado relatório expõe "como o governo israelita fez da anexação formal um objetivo político explícito". Segundo o documento "Eliminar tudo o que é palestiniano: a limpeza étnica de Israel contra as comunidades beduínas e pastoris da Cisjordânia", Israel está "a implementar a agenda nacionalista religiosa do movimento dos colonos".
A Amnistia Internacional indica que as autoridades israelitas aceleraram "a expansão dos colonatos e a apropriação de terras", aumentaram "o apoio financeiro e logístico aos colonatos" e armaram os colonos, "permitindo assim uma campanha brutal — sancionada pelo Estado — de violência por parte dos colonos e de deslocação forçada de palestinianos da Área C".
"Nos últimos três anos e meio, as autoridades israelitas aceleraram uma campanha de limpeza étnica patrocinada pelo Estado na Cisjordânia, desalojando, desapropriando e transferindo à força comunidades palestinianas. Isto não é obra de intervenientes desonestos ou do que a comunidade internacional tem repetidamente rotulado como colonos extremistas, organizações ou um ou dois ministros. O que estamos a testemunhar é uma anexação deliberada e liderada pelo Estado, em total violação do direito internacional, a desenrolar-se perante os olhos do mundo inteiro", afirmou Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional.
"O nosso relatório revela que estes abusos não são o resultado de algumas 'maçãs podres'. A violência dos colonos é uma componente central de uma campanha de limpeza étnica sancionada pelo Estado, fundamental para a manutenção do sistema de apartheid de Israel", apontou a responsável.
A investigação da Amnistia Internacional mostra que os palestinianos estão a ser forçados a abandonar as suas terras ancestrais, privados dos seus meios de subsistência e aterrorizados para que fujam das suas casas, num contexto de aumento sem precedentes dos ataques de colonos, abertamente tolerados e ativamente facilitados por um governo israelita que se vangloria da sua intenção de anexar formalmente vastas áreas de território palestiniano.
As comunidades em todo o Vale do Jordão e nas Colinas do Sul de Hebron que enfrentam as deslocações continuam a resistir, determinadas a permanecer nas terras que habitam há gerações. A Amnistia Internacional apela à comunidade internacional para que aja com urgência para as proteger.
No entanto, apesar das obrigações legais claras dos Estados de agir para pôr fim à ocupação ilegal de Israel e ao seu sistema de apartheid, a comunidade internacional tem repetidamente falhado na ação.
"A comunidade internacional tem sido cúmplice ou demasiado passiva face às repetidas e graves violações do direito internacional por parte de Israel e ao seu desrespeito pelas resoluções da Assembleia-Geral e do Conselho de Segurança da ONU. Deve sinalizar claramente que a era da aquiescência tácita à limpeza étnica e à anexação por parte de Israel chegou ao fim", sublinhou Agnès Callamard.
Relatório é "sinal de alerta" para líderes mundiais
"Para os líderes mundiais que enquadraram a anexação e a violência dos colonos como atos isolados de colonos ou ministros 'extremistas' e impuseram sanções limitadas contra alguns indivíduos ou organizações, o relatório da Amnistia deve ser um sinal de alerta: estas medidas limitadas são lamentavelmente insuficientes para fazer face à campanha estatal de limpeza étnica e às violações sistémicas, que têm vindo a aumentar rapidamente perante os olhos da comunidade internacional", declarou Callamard.
"Aos líderes mundiais que afirmam repetidamente opor-se à anexação, mas nada fazem para a impedir: saibam que a vossa inação está a alimentar diretamente crimes contra a humanidade e tem consequências globais que corroem ainda mais a ordem internacional baseada em regras", disse Agnès Callamard.
"Os Estados, particularmente aqueles com influência sobre Israel, incluindo os Estados Unidos da América, o Reino Unido, a Alemanha, bem como a Itália e outros países da União Europeia e árabes, devem proibir imediatamente todo o comércio, investimento e qualquer forma de cooperação ou assistência financeira que contribua para a ocupação ilegal de Israel, o sistema de apartheid e a limpeza étnica dos palestinianos", disse ainda Callamard.
"Além disso, todos os Estados devem impor sanções específicas, incluindo proibições de viagem e congelamento de bens, contra os responsáveis israelitas diretamente implicados nestes atos, incluindo o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, a ministra dos Colonatos e Missões Nacionais, Orit Strock, e o ministro da Defesa, Israel Katz."
A Amnistia Internacional investigou 27 comunidades beduínas e de pastores na Área C, que foram deslocadas à força entre 2023 e 2025, ou que estão em risco de deslocação. A equipa de investigação entrevistou 45 palestinianos de 12 comunidades, bem como 19 advogados, ativistas, jornalistas e representantes de ONGs israelitas e palestinianas. A organização também verificou mais de 420 vídeos e imagens e realizou análises de declarações oficiais do governo, legislação, mapas, imagens de satélite e relatórios da ONU.
Até ao final de abril de 2026, os colonos israelitas tinham estabelecido 363 postos avançados na Cisjordânia ocupada, segundo a ONG Peace Now. Destes, 212 foram criados desde 2023, com as autoridades israelitas a encorajá-los ativamente e a não tomar praticamente nenhuma medida para os desmantelar, apesar de serem ilegais, tanto ao abrigo da lei israelita como do direito internacional.
Quase 58 por cento das terras na Área C não estão registadas e, em fevereiro de 2026, as autoridades israelitas já tinham confiscado metade dessas terras não registadas, através de declarações de propriedade estatal. A organização partilhou as suas conclusões com as autoridades israelitas a 13 de maio. O Ministério da Defesa respondeu a 23 de maio, afirmando que as suas forças respondem a incidentes de violência por parte de colonos. As provas documentadas pela Amnistia Internacional apresentam uma realidade diferente, concluiu a organização.
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