A febre do Ártico

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06 Junho 2026

O Ártico, a Antártida e até mesmo o espaço exterior são os novos territórios estratégicos de uma economia que demanda, com urgência, minerais críticos para sustentar a transição digital e energética.

A reportagem é de Oliver Tapia, publicada por Ethic, 02-06-2026.

Durante décadas, o Ártico simbolizou uma fronteira remota, congelada tanto pelo clima quanto pela geopolítica. Hoje, ocorre o contrário. O aquecimento global está derretendo o gelo marinho a uma velocidade sem precedentes e, com isso, abre rotas comerciais, facilita o acesso a matérias-primas críticas e desperta ambições territoriais que pareciam adormecidas desde o fim da Guerra Fria.

É então que surge o paradoxo: a mesma mudança climática que ameaça ecossistemas inteiros está tornando mais acessíveis os recursos de que as novas economias digitais e verdes precisam para continuar se expandindo. Lítio, cobre, níquel, cobalto, terras raras e grafite são minerais fundamentais para fabricar baterias, painéis solares, centros de dados, veículos elétricos, turbinas eólicas e semicondutores. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda global por minerais críticos vinculados a tecnologias limpas pode se multiplicar várias vezes antes de 2040, dependendo da velocidade da descarbonização.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos estima que, além desses valiosos minerais, o Ártico pode abrigar também cerca de 13% do petróleo ainda não descoberto e 30% do gás natural não descoberto do planeta.

Poucos lugares refletem melhor essa tensão do que a Groenlândia. O território autônomo dinamarquês concentra importantes reservas de terras raras, urânio e outros minerais estratégicos. Além disso, o degelo facilita progressivamente a exploração de minérios e o acesso marítimo. O Conselho do Ártico, composto por oito membros – cinco dos quais possuem fronteira com o oceano Ártico: Canadá, Rússia, Estados Unidos, Noruega e Dinamarca, em razão de sua soberania sobre a Groenlândia –, vem há anos alertando que a região experimenta um aquecimento muito mais acelerado do que a média global, alterando tanto os ecossistemas quanto as dinâmicas econômicas e geopolíticas.

Estados Unidos, China, Rússia e União Europeia, entre outros atores, observam a região com interesse crescente. Muito antes da recente intenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de assumir o controle da Groenlândia por “motivos de segurança nacional”, Washington já havia reaberto seu consulado em Nuuk, a capital groenlandesa, em 2020, e reforçado sua presença diplomática e militar no Ártico. Pequim, por sua vez, tem buscado participar de projetos de mineração e de infraestruturas estratégicas dentro de sua chamada “Rota da Seda Polar”. A Rússia reforçou bases militares e corredores marítimos no norte; Canadá e Noruega também estão se mexendo.

No entanto, o desenvolvimento extrativista gera fortes divisões internas. Parte da sociedade groenlandesa vê na mineração uma via para reduzir a dependência econômica em relação à Dinamarca e avançar rumo a uma eventual independência. Outros setores alertam para o impacto ambiental e social que teria transformar um dos ecossistemas mais frágeis do planeta em uma nova fronteira da mineração.

O degelo não apenas libera recursos, como também reativa disputas estratégicas. Em seu livro Prisoners of Geography (Elliot & Thompson, 2015), o jornalista britânico Tim Marshall analisa como o recuo do gelo transforma o Ártico em um dos principais tabuleiros geopolíticos do século XXI: “O degelo e a crescente competição entre grandes potências trazem consigo um endurecimento das posições no Conselho do Ártico, o fórum onde a geopolítica se transforma em geopolártica”. Marshall sustenta que as novas rotas marítimas e o acesso a recursos energéticos estão alterando o equilíbrio estratégico global: “As disputas e reivindicações de soberania sobre o Oceano Ártico são juridicamente complexas, e algumas têm o potencial de provocar sérias tensões entre as nações”.

Dos polos ao espaço

A pressão extrativista não se limita ao hemisfério norte. A Argentina flexibilizou recentemente parte da proteção sobre áreas glaciais para facilitar determinados projetos de mineração vinculados a minerais estratégicos para a transição energética. A Antártida está protegida pelo Tratado Antártico, assinado em 1959, que proíbe a exploração mineral por meio do Protocolo de Madrid, de 1991. Entre os signatários do tratado, há sete países (Argentina, Austrália, Chile, França, Noruega, Nova Zelândia e Reino Unido) com reivindicações territoriais, que em alguns casos coincidem em parte. E embora no momento não existam explorações autorizadas, diversos analistas alertam que a crescente demanda por minerais críticos pode aumentar a pressão política rumo a 2048, quando o tratado poderá ser renegociado.

“A Antártida e o Ártico são opostos geográficos polares – um é um continente cercado por oceanos; o outro, um oceano cercado por continentes –, mas existem semelhanças e a preocupação de que o que está ocorrendo geopoliticamente no Ártico acabe acontecendo também no sul”, adverte Marshall em seu livro.

E essa lógica se estende, inclusive, para além do planeta. A mineração espacial – por anos considerada ficção científica – começa a fazer parte de estratégias empresariais e governamentais. A NASA e diversas agências espaciais estudam a possibilidade de extrair água, hélio-3 e minerais de asteroides ou da Lua para sustentar futuras missões espaciais. Além disso, empresas privadas já trabalham em tecnologias voltadas à exploração de recursos extraterrestres. O debate jurídico continua aberto. O Tratado do Espaço Exterior de 1967 proíbe a apropriação nacional de corpos celestes, incluindo a Lua, mas não regulamenta de forma clara a propriedade dos materiais extraídos. O Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Exterior reconhece que o marco legal ainda apresenta importantes zonas cinzentas.

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