De Rerum Novarum a Leão XIV: não era o vapor, mas a ética; não são os dados, mas a dignidade. O que vale não é mensurável. Artigo de Paolo Benanti

Foto: alanajordan/Pixabay

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29 Mai 2026

"Reivindicar a magnificência do ser humano diante de sistemas que otimizam o comportamento a partir de perfis de dados não é saudosismo romântico: é o ato fundador de toda forma de resistência democrática à dominação computacional e, portanto, uma questão laica antes mesmo que religiosa", escreve Paolo Benanti, franciscano, teólogo e especialista em revolução digital, em artigo publicado por Avvenire, 26-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Em 1891, a questão não era o vapor. Leão XIII não escreveu a Rerum Novarum para reclamar das máquinas a vapor ou para celebrar as maravilhas do progresso industrial: ele escreveu porque a revolução industrial havia concentrado a capacidade de controle sobre as vidas humanas em mãos que não respondiam a nada e a ninguém, e esse desequilíbrio estava destruindo o tecido social das nações europeias.

Quando, cento e trinta e cinco anos depois, Leão XIV assina a Magnifica Humanitas — datada de 15 de maio de 2026, como citação deliberada ao antecessor — o tema é o mesmo, o sujeito mudou: não o capital industrial, mas o capital computacional; não as fábricas, mas os centros de dados; não os donos das siderúrgicas, mas os donos dos algoritmos.

Ler a encíclica como um documento religioso seria um erro de categoria. Trata-se de um texto de filosofia política, no sentido mais rigoroso do termo: aborda a questão de quem detém o poder de definir as regras de acesso à informação, da visibilidade pública, da organização das oportunidades econômicas e da formação das preferências individuais. O documento nomeia explicitamente o que a literatura acadêmica chama de "algocracia" — a governança dos algoritmos — e "algorética" — a gestão ética dos algoritmos —, reconhecendo que os principais motores do desenvolvimento tecnológico atual são atores transnacionais privados dotados de recursos superiores aos de muitos governos, que não respondem a nenhum mecanismo de accountability democrática. É um diagnóstico que muitos economistas e cientistas políticos elaboraram nos últimos anos; é raro entrar no registro do magistério com tamanha precisão e franqueza ao nomear os sujeitos da dominação. A contribuição filosoficamente mais original do documento, contudo, não é o diagnóstico, mas a crítica ao paradigma tecnocrático como estrutura cognitiva, e não apenas como arranjo econômico.

Leão XIV retoma a categoria introduzida por Francisco na Laudato Si' e a radicaliza: o paradigma tecnocrático não é o excesso de confiança na tecnologia, mas a forma como a lógica da eficiência e do controle se instalou como medida exclusiva da realidade, relegando afetividade, moralidade e relação a uma irrelevância operacional. O problema não é que temos máquinas demais, mas que as máquinas se tornaram o modelo pelo qual medimos os seres humanos: e quando um ser humano é medido com o mesmo padrão de um algoritmo, aquilo que não é quantificável — a dignidade, a consciência, a capacidade de relação autêntica — deixa de existir como dado relevante para os sistemas que organizam a vida coletiva.

É aqui que o documento toca a questão mais profunda. Byung-Chul Han descreveu a contemporaneidade como uma "sociedade da transparência", na qual a pressão sistêmica para tornar tudo visível, mensurável e comparável produz paradoxalmente a opacidade dos mecanismos do poder real: quem controla os parâmetros da transparência exerce o poder mais eficaz, porque parece neutro. A encíclica capta esse movimento com a citação de Hannah Arendt sobre os "súditos ideais" do totalitarismo — não os ideologicamente convictos, mas aqueles para quem a distinção entre fato e ficção já desapareceu — indicando que a crise epistêmica produzida pelos algoritmos de desinformação não é um incômodo comunicativo, mas uma condição estrutural que torna possível o autoritarismo sem que ninguém o decrete e sem que ninguém assuma formalmente a responsabilidade por ele.

Há também uma seção do documento que não tem precedentes no magistério e que merece atenção especial: aquela dedicada às novas formas de escravidão na economia digital. Leão XIV descreve com precisão o trabalho de etiquetagem de dados realizado por jovens mulheres por remuneração mínima, a extração de terras raras por adolescentes e a exploração de plataformas digitais por redes criminosas que gerenciam o tráfico de seres humanos.

A ideologia da imaterialidade digital — a narrativa segundo a qual os algoritmos existiriam em uma esfera de pura inteligibilidade separada da matéria — é desmontada em sua função ideológica: esconder a cadeia de corpos, energias e recursos físicos sobre a qual se baseia o poder computacional. A inteligência artificial não pode ser governada eticamente, observa o documento, sem que se governem as condições materiais de sua produção; e essa simples observação soa como uma denúncia contra qualquer discussão sobre a ética da IA que ignore a cadeia que a sustenta.

A proposta positiva da encíclica estrutura-se em torno de uma imagem bíblica que o documento elabora cuidadosamente: Neemias que reconstrói as muralhas de Jerusalém, pedaço por pedaço, confiando a cada um seu próprio pedaço, escutando os temores, coordenando os esforços sem impor soluções vindas do alto. É a lógica da subsidiariedade aplicada à governança tecnológica — uma distribuição das responsabilidades que se opõe tanto à delegação total ao mercado quanto à regulamentação centralizada e vinda de cima, reconhecendo que cientistas, legisladores, educadores, empreendedores e comunidades civis possuem cada um competências irredutíveis e ônus indelegáveis.

A inteligência artificial já é o ambiente no qual estamos imersos; a questão não é mais se devemos governá-la, mas quem governa quem, segundo quais critérios e com qual distribuição real dos benefícios e das vulnerabilidades. Aquela que Leão XIV chama de Magnifica humanitas — a magnífica humanidade — não é uma categoria sentimental. É uma posição política: a tese de que a dignidade humana não é uma variável dependente da eficiência algorítmica, mas a condição de possibilidade de cada ordenação política legítima. Reivindicar a magnificência do ser humano diante de sistemas que otimizam o comportamento a partir de perfis de dados não é saudosismo romântico: é o ato fundador de toda forma de resistência democrática à dominação computacional e, portanto, uma questão laica antes mesmo que religiosa.

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