28 Mai 2026
"A cultura digital acelerou dramaticamente o tempo da experiência. Enquanto pensar exige demora e maturidade, substituímos esse tempo pela aceleração dos algoritmos que exigem velocidade. Aprender exige elaboração, enquanto as plataformas exigem resposta imediata. O vínculo humano requer presença, carinho e pertença, já o ambiente digital oferece simulações contínuas de interação e felicidade constante, o que é irreal", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).
Eis o artigo.
Em meio ao entusiasmo contemporâneo com a inteligência artificial, a nova encíclica Magnifica Humanitas, de Papa Leão XIV, realiza um movimento intelectualmente provocador ao recorrer não a um cientista, engenheiro ou futurista, mas a J. R. R. Tolkien. A escolha não é casual. Em uma época seduzida pela promessa de aceleração, automação e eficiência ilimitadas, recuperar Tolkien é recolocar o debate tecnológico em seu verdadeiro eixo: a questão antropológica.
No número 213 da encíclica, Leão XIV cita uma passagem de O Senhor dos Anéis: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar”.
A força dessa citação reside justamente em sua contraposição ao imaginário tecnológico dominante. Vivemos um tempo em que a técnica já não deseja apenas auxiliar a vida humana; ela pretende organizá-la, antecipá-la, otimizá-la e, em muitos casos, substituí-la.
A inteligência artificial generativa é talvez a expressão mais sofisticada dessa racionalidade. Ela promete produtividade sem pausa, criatividade instantânea, respostas imediatas, automatização cognitiva e redução drástica do esforço humano. O problema, contudo, não está apenas no avanço técnico em si, mas na antropologia implícita que sustenta essa lógica: a crença de que o ser humano é insuficiente, lento, falível demais e que, portanto, precisa ser continuamente ampliado, corrigido ou substituído por sistemas mais eficientes.
É precisamente aqui que Tolkien se torna decisivo. Sua literatura sempre foi, em certo sentido, uma resistência à idolatria do poder. Em sua obra, a verdadeira grandeza nunca pertence àqueles que desejam controlar tudo, mas àqueles que preservam a coragem moral diante dos limites. O anel, símbolo máximo de poder absoluto, não redime; corrompe.
A grande ilusão do nosso tempo é imaginar que a capacidade técnica equivale automaticamente a maturidade moral. E isso não ocorre. Podemos construir sistemas sofisticadíssimos de linguagem, diagnóstico, reconhecimento e decisão sem necessariamente desenvolver sabedoria para orientá-los. A história humana está repleta de avanços técnicos desacompanhados de responsabilidade ética. O século XX, aliás, foi a demonstração brutal de que inteligência instrumental e barbárie podem coexistir.
O debate sobre IA, portanto, não é fundamentalmente tecnológico. Ele é antropológico. A pergunta decisiva não é o que as máquinas conseguirão fazer, mas o que acontecerá conosco enquanto permitimos que façam. Quando terceirizamos excessivamente a escrita, enfraquecemos a elaboração intelectual. Quando delegamos discernimento a algoritmos, comprometemos a autonomia crítica. Quando interfaces simulam diálogo e companhia, corremos o risco de desaprender a convivência humana real.
Esse fenômeno já está diante de nós. A cultura digital acelerou dramaticamente o tempo da experiência. Enquanto pensar exige demora e maturidade, substituímos esse tempo pela aceleração dos algoritmos que exigem velocidade. Aprender exige elaboração, enquanto as plataformas exigem resposta imediata. O vínculo humano requer presença, carinho e pertença, já o ambiente digital oferece simulações contínuas de interação e felicidade constante, o que é irreal. Nesse contexto, a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta. Ela pode tornar-se um agente de reconfiguração da própria subjetividade.
A encíclica percebe esse ponto com clareza ao afirmar que a civilização do amor não nasce de gestos espetaculares, mas de pequenas fidelidades cotidianas. Trata-se de uma crítica profunda à mentalidade tecnocrática contemporânea, que mede valor em escala, produtividade e alcance. O humano, porém, não se constitui nessa lógica. Amor, cuidado, escuta, responsabilidade e compromisso pertencem ao universo do que não pode ser plenamente automatizado.
O problema mais grave talvez não seja a possibilidade de máquinas se tornarem mais inteligentes em tarefas específicas. O problema é a possibilidade de seres humanos se tornarem menos humanos por comodidade tecnológica. Uma humanidade que pensa menos acolhendo as sugestões sistêmicas, escreve menos porque plataformas produzem, discerne menos porque algoritmos recomendam, lentamente abdica de suas capacidades formativas fundamentais.
O que Leão XIV propõe, ao citar Tolkien, é precisamente o inverso dessa soberba. Em vez de domínio absoluto, responsabilidade situada. Em vez de ambição prometeica, cuidado intergeracional. Em vez de fascínio pelo poder, compromisso com o bem comum. O risco é claro: formar indivíduos tecnologicamente assistidos, mas intelectualmente frágeis; hiperconectados, porém incapazes de sustentar profundidade reflexiva.
Tolkien nos recorda algo essencial: não somos chamados a dominar todas as marés do mundo. Somos chamados a cuidar responsavelmente do campo que nos foi confiado. Isso vale para a política, para a educação, para a cultura e, sobretudo, para a tecnologia. Porque talvez a questão mais urgente do nosso tempo não seja quão inteligente a inteligência artificial poderá se tornar. A questão verdadeiramente decisiva é outra: estaremos suficientemente humanos para sobreviver ao fascínio daquilo que criamos?
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