Um passo profético da Celam: IA e desenvolvimento integral

Foto: FlickrCC | Mike MacKenzei

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20 Mai 2026

Na preparação para a primeira encíclica de Leão XIV, o Celam oferece uma obra que se concentra no problema da América Latina: a tecnologia e seu impacto sobre os mais pobres. Trata-se de um recurso em plena harmonia com a Doutrina Social da Igreja, que vai além da reflexão teórica e oferece critérios práticos em uma situação em que os interesses das periferias são frequentemente alheios ou distantes da revolução digital.

A informação é de Aníbal Pastor N; publicada por Religión Digital, 20-05-2026.

Dias após a publicação da primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, o Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam) anunciou outra importante contribuição sobre o mesmo tema: o livro Inteligência Artificial e Desenvolvimento Humano Integral. Este estudo foi elaborado pelo Grupo de Trabalho sobre Fronteiras Tecnológicas do Celam, composto por uma dezena de renomados especialistas e acadêmicos da América Latina. Essa equipe vem pesquisando o tema há três anos a pedido dos bispos, e esta obra representa sua mais recente contribuição de grande relevância.

O aspecto mais inovador da publicação — que tem apenas 85 páginas — é que ela não se limita à teoria, mas sim deriva de uma urgência pastoral: impedir que a tecnologia se torne uma nova ferramenta de exclusão em um continente já ferido pela desigualdade, especialmente quando esta já está presente na educação, no trabalho, na saúde, na comunicação, na economia, na política e também nas questões pastorais da Igreja.

Portanto, o Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam) busca lançar luz sobre essa realidade, uma vez que toda tecnologia deve ser avaliada por sua capacidade de servir à dignidade humana, ao bem comum e, sobretudo, aos pobres.

Com esse horizonte em mente, surge Inteligência Artificial e Desenvolvimento Humano Integral, um novo documento do Grupo de Trabalho sobre Fronteiras Tecnológicas do Celam. O trabalho dá continuidade ao caminho aberto em 2025 com Inteligência Artificial: Uma Perspectiva Pastoral da América Latina e do Caribe, mas vai além: não se limita mais a questionar o que é IA ou quais são seus riscos pastorais, mas sim como ela pode contribuir para — ou dificultar — o verdadeiro desenvolvimento humano integral e baseado na solidariedade.

A questão fundamental que permeia todo o texto é: pode a inteligência artificial ajudar as pessoas a viverem vidas melhores, com mais liberdade, justiça e dignidade, ou acabará por reforçar as desigualdades que já assolam o continente? A resposta, alerta o documento, não é automática. Dependerá das decisões éticas, políticas, económicas, educativas e pastorais que forem tomadas agora.

Em sua apresentação, D. Lizardo Estrada Herrera, Secretário-Geral do Celam, ofereceu uma chave para a compreensão do espírito do texto: “A inteligência artificial pode e deve ser um instrumento para o desenvolvimento e para o bem. Deve também servir para promover o bem-estar”. Assim, a IA não é demonizada nem canonizada; não é a salvação, mas pode ser uma ferramenta; não substitui a consciência humana, mas pode ajudar se guiada por uma ética do cuidado.

O Celam coloca esta reflexão no centro da Doutrina Social da Igreja e reconhece que a inteligência artificial já é um sinal dos tempos. Não se trata simplesmente de usar melhores ferramentas digitais para a catequese, a comunicação ou a administração da Igreja. Trata-se de discernir que tipo de humanidade está sendo moldada quando os algoritmos começam a influenciar decisões no emprego, na educação, na saúde, nas finanças e na política.

Guillermo Sandoval, diretor do Centro de Gestão do Conhecimento do Celam, afirma com clareza: “O problema surge quando a IA pode empobrecer ainda mais os pobres e enriquecer ainda mais os ricos”. Essa declaração resume perfeitamente a realidade da América Latina, onde já existem desigualdades históricas e diversas disparidades, inclusive nas regiões periféricas.

Uma das contribuições mais significativas do documento é evitar dois extremos: o entusiasmo ingênuo e o medo paralisante. O Celam não propõe o afastamento da tecnologia, como se a Igreja pudesse simplesmente observar essa mudança de época à distância. Tampouco endossa acriticamente o avanço tecnológico. A chave que propõe é o discernimento. Ou seja, examinar os fins, os interesses e os impactos concretos na vida das pessoas.

O texto desenvolve cinco capítulos principais: antropologia e sociedade; ética, bioética e perspectiva social; ecossistemas de IA, com atenção às suas dimensões ambientais e trabalhistas; missão pastoral na América Latina e no Caribe; e, finalmente, o chamado aos discípulos missionários para a ação pastoral em tempos de inteligência artificial.

O conceito de “sinodalidade digital” surge como uma intuição convincente. Não significa substituir os encontros humanos por telas ou reduzir a comunhão eclesial à mera conectividade. Significa aprender a caminhar juntos também em ambientes digitais, ouvindo aqueles que têm voz nas redes sociais e, sobretudo, aqueles que sequer têm acesso a elas.

Sandoval recorda que a Igreja já enfrentou dilemas semelhantes com outros processos históricos, como a globalização. Naquela época, não se tratava simplesmente de apoiá-la ou rejeitá-la, pois aconteceria com ou sem a Igreja. A verdadeira questão era quem a guiaria e com que valores. Algo semelhante está acontecendo agora com a inteligência artificial: ela avançará, mas a questão crucial é se o seu curso será ditado unicamente por interesses econômicos e geopolíticos, ou se também será iluminado pela dignidade humana, justiça social, fraternidade e pelo Evangelho.

O tom do texto é exigente, mas também esperançoso. Reconhece que a IA pode aprimorar diagnósticos médicos, expandir oportunidades educacionais, traduzir conteúdo e apoiar respostas a emergências sociais ou ambientais. Mas também alerta que ela pode reproduzir preconceitos, aumentar a vigilância, manipular emoções, concentrar poder, criar empregos precários e reduzir indivíduos a meros consumidores ou perfis de risco.

“A tarefa da Igreja neste campo é um desafio fascinante. Passar do medo à ação. Aventurar-se em novos territórios. Tornar-se protagonista na construção ética da IA, sabendo que a Palavra de Deus, especialmente o Evangelho, também pode iluminar a era digital”, destaca Sandoval. E conclui:

“Em última análise, este é um recurso importante para a ação pastoral que nos permitirá usar novas ferramentas tecnológicas na construção de um mundo mais justo, fraterno, compassivo e pacífico. A encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, que esperamos ser publicada nos próximos dias, certamente nos proporcionará ainda mais conhecimento para essa reflexão e discernimento.”

O documento tem um enfoque decididamente prático. Seu apêndice contém referências bibliográficas com seus respectivos links para a internet e um glossário com 57 termos-chave. Ele estará disponível para download gratuito nos próximos dias em https://documental.celam.org.

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