19 Mai 2026
"A geopolítica agora já está totalmente voltada para um confronto que será cada vez mais difícil de mediar, controlar e governar entre os Estados Unidos e a China", afirma Massimo Cacciari. O filósofo falou no estande do jornal La Stampa no Salão de Turim, em conversa com Gabriele Segre, diretor da Fundação Vittorio Dan Segre, e Andrea Malaguti, diretor do La Stampa. "A China", alerta Cacciari, "está se tornando cada vez mais uma grande potência tecnológica, a mesma primazia que, há um século e meio, é fundamental para os Estados Unidos".
A reportagem é de Paolo Festuccia, publicado por "La Stampa", 16-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Segue a conversa entre Malaguti e Cacciari.
Lendo os jornais, parece que o presidente Xi, efetivamente — e falo de forma diplomática — “fez picadinho” de Donald Trump, no sentido de que, ao final do encontro, ficou claro que Xi se sente livre de entrar em Taiwan e fazer o que bem entender, depois de Trump ter iniciado uma guerra no Irã, invadido a Venezuela e ameaçado tomar a Groenlândia. Na realidade, as relações entre a China e os Estados Unidos parecem hoje ter se invertido. Professor Cacciari, até que ponto tudo isso é verdade e o que está acontecendo?
"Precisamos primeiro fazer uma panorâmica muito ampla e abrangente; vamos por partes. A geopolítica agora já está totalmente voltada para um confronto, que será cada vez mais difícil de mediar, controlar e governar, entre os Estados Unidos e a China. A competição está ali; a China está se tornando cada vez mais uma grande potência, inclusive tecnológica, ou seja, a mesma primazia fundamental que, há um século e meio, é fundamental para os Estados Unidos. A competição chinesa é formidável. Imaginem que, nos últimos anos, 70% das patentes de inteligência artificial são chinesas, enquanto a Europa, por exemplo, está de fora da disputa nesse setor crucial; não existe. A distância agora já se tornou intransponível e poderia continuar. A participação da China no PIB global continua a crescer, enquanto aquela dos Estados Unidos está estagnada há um século, e assim por diante, então a competição está ali. Taiwan não é uma pequena ilha, vocês sabem, Taiwan é a capital de setores-chave da informática e da eletrônica. Não acredito que será muito fácil para a China desembarcar em Taiwan e dominá-la como Hong Kong. No entanto, é claro que será igualmente difícil que se chegue a um confronto catastrófico (...) Mas, certamente, se a China anexasse Taiwan amanhã, seria uma catástrofe para os equilíbrios mundiais, então espero que seja um processo de alguma forma longo, diplomático. (...) Enquanto isso, os Estados Unidos estão consolidando seu território, que é obviamente um território global, portanto se consolidam e se afirmam até mesmo com prepotência — uma prepotência, na minha opinião, meio predatória — mas afirmam que eles estão no continente americano e ponto, e que no Oriente Médio está Israel e ponto. E assim poderíamos chegar a um grande tratado tipo aquele de Yalta para estabelecer uma divisão do globo: aqui está o império estadunidense, aqui está a China, aqui está a Índia, aqui está o que resta da Rússia, que é pouca coisa. (...) A ordem que será reconstituída não terá nada a ver com a que resultou da Segunda Guerra Mundial. Aquela ordem não existe mais. Qual será a nova? Ninguém sabe, essa é a situação em que nos encontramos, podemos dizer que o jogo fundamental certamente será entre os Estados Unidos e a China, isso podemos dizer."
De acordo com uma pesquisa realizada pelo V-Dem, think tank da Universidade de Gotemburgo, 90% dos seres humanos no mundo são atualmente governados por regimes que não são democracias liberais, ou seja, 50% dos seres humanos vivem sob ditaduras propriamente ditas, como os russos, os chineses e muitos países africanos. Há também uma longa lista de estados, representando entre 50% e 90%, que são governados por democracias recentes ou iliberais. Os Estados Unidos e Israel estão entre estes. Portanto, nós, europeus, na realidade, vivemos dentro de uma pequena bolha, uma espécie de privilégio. E é interessante ressaltar que hoje todos concordamos em condenar Trump. Basta olhar as pesquisas —se deu conta até Giorgia Meloni, que mudou sua posição sobre Trump — para entender que o presidente dos EUA se tornou uma espécie de elemento radioativo com o qual ninguém quer ter nada a ver. Enquanto isso, o presidente chinês está assumindo o papel de quem pode explicar ao mundo como as relações devem ser administradas. Como nasce essa inversão?
“As democracias representativas não são pressionadas apenas por certos tipos de relações internacionais, porque quando se está em uma situação de guerra, ou em uma situação pré-guerra, é perfeitamente lógico e fisiológico que as formas democráticas vacilem. As democracias representativas também estão em crise por razões internas, que alguns de nós vêm denunciado há quarenta ou cinquenta anos, dizendo: cuidado, não se pode seguir em frente com uma política fiscal de um certo tipo (...) não se pode seguir em frente pensando que o bem-estar social pode ser sustentado por meio de um aumento contínuo de impostos. Não dá, porque nesse ponto acabam disparando mecanismos de sonegação fiscal incontrolável e, depois disso, mecanismos políticos contrários a essa política redistributiva. Qual é a ideologia fundamental da equipe de Trump? O Estado não deve custar, a política não deve custar, todos os recursos devem ser destinados à inovação, à pesquisa tecnológica e ao desenvolvimento. E as chamadas esquerdas, nos últimos quarenta anos, foram completamente incapazes de compreender que precisam mudar a estrutura do Estado, que precisam ser reduzidos os custos da administração e todas as conversas sobre o federalismo, etc. As democracias estão em crise por seus próprios motivos; não foi nenhum ditador chinês que obrigou os países democráticos como o nosso a eliminar o legislativo; o legislativo é a aprovação de decretos, e as leis se tornaram decretos do governo, e não foi o chinês que nos empurrou para essa deriva. (...) Nada obrigava a Europa a seguir as políticas que seguiu, ninguém a obrigava a tornar-se um sistema burocrático administrativo pervasivo, incapaz de resolver questões de convergência fiscal, convergência social, etc. As grandes questões internacionais sobre as quais nos sentimos impotentes não devem nos isentar de compreender todas as responsabilidades que temos por não termos sido capazes de modificar nada dentro dos nossos estados democráticos e da nossa Europa."
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