A cúpula entre Trump e Xi marca mais um passo na ascensão da China como superpotência e no declínio dos EUA

Foto: The White House | Flickr

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18 Mai 2026

"Um modesto avanço da China ou um retrocesso dos Estados Unidos coloca os líderes de ambas as superpotências em pé de igualdade. Uma vez que essa dinâmica foi acentuada sob Trump, é duvidoso que uma mudança na maioria no Congresso em novembro próximo ou uma mudança na Casa Branca em 2028 reverta essa tendência", escreve Lluís Bassets, jornalista espanhol, em artigo publicado por El País, 17-05-2026.

Eis o artigo.

Apenas mais um passo. Mais um na ascensão gradual da China e no declínio abrupto dos Estados Unidos. Imperceptível em meio à pompa e circunstância, mas transparente nas palavras dos protagonistas. Donald Trump teceu elogios a Xi Jinping, mas Xi Jinping teceu elogios à relação entre os Estados Unidos e a China. Sem quaisquer exigências preliminares do subserviente presidente americano, focado apenas em negócios e desinteressado em direitos humanos, e com apenas uma linha vermelha traçada pelo sóbrio presidente chinês no início da cúpula. Vermelha como um semáforo sinalizando “uma situação extremamente perigosa”: Cuidado com Taiwan!

Segundo Odd Arne Westad, professor da Universidade de Yale e historiador da Guerra Fria, o status disputado da ilha representa "uma possibilidade real de guerra entre a China e os Estados Unidos na próxima década". A ameaça preventiva de Xi não parece ter como objetivo dissuadir alguém como Trump, que se preocupa menos com o futuro de Taiwan do que Joe Biden, que reconheceu abertamente seu compromisso em defender a ilha em caso de invasão chinesa.

Em vez disso, trata-se de uma demonstração de poder para obter um daqueles acordos transacionais que o presidente americano tanto aprecia. A Casa Branca ainda não a utilizou para exigir concessões políticas da China, como um maior comprometimento com a abertura do Estreito de Ormuz ou com o desarmamento nuclear do Irã, embora não se possa descartar a possibilidade de que explore essa ameaça no futuro.

Muitos esperavam, e outros temiam, que esta cúpula trouxesse uma mudança na posição dos Estados Unidos em relação a Taiwan, uma mudança que, no fim das contas, não se concretizou. Isso teria significado passar de "não apoiar a independência" para "opor-se à independência", rompendo com a ambiguidade estratégica que caracterizou a posição de Washington desde a assinatura do Comunicado de Xangai em 1972, após o famoso encontro entre Nixon e Mao Tsé-Tung.

Por meio desse comunicado, os Estados Unidos reconheceram a existência de uma única China, mas mantiveram relações diplomáticas com Pequim e laços não oficiais com a ilha autogovernada de Taiwan, incluindo o fornecimento de armas. Tratava-se de um equilíbrio puramente dissuasório para impedir que a China invadisse Taiwan e que Taiwan declarasse sua independência.

A especulação sobre essa mudança estratégica decorre da imprevisibilidade notória de Trump e de sua frieza em relação a Taiwan, citando seus modestos gastos com defesa, compras insuficientes de armas de empresas americanas e o quase monopólio na fabricação de semicondutores. Tal movimento equivaleria à rendição repentina a Pequim de uma esfera de influência onde Washington ainda mantém livre acesso marítimo e hegemonia geopolítica.

Isso aceleraria a anexação da ilha e eliminaria qualquer resquício de confiança entre os aliados dos Estados Unidos. Culminaria o distanciamento dos europeus e a retirada do continente americano. Um novo e significativo impulso à proliferação nuclear afetaria países excluídos da proteção dos EUA.

Essa mudança radical não se materializou, mas houve sinais sutis apontando em uma direção preocupante para o governo taiwanês. Antes de partir para Pequim, Trump expressou sua intenção de discutir com Xi a venda de armas de US$ 11 bilhões para Taiwan, que havia sido temporariamente suspensa devido à viagem presidencial.

Embora tenha reafirmado a política de Uma Só China, essas declarações divergem da linha oficial de Washington, que é protegida pelas Seis Garantias do presidente Reagan, a segunda das quais afirma claramente que não haverá consulta com Pequim sobre o direito dos Estados Unidos de vender armas para Taiwan.

Trump prometeu esclarecer sua posição nos próximos dias. Se ao menos uma garantia fosse considerada obsoleta, as outras sofreriam o mesmo destino. Sem elas, um prazo poderia ser estabelecido para a venda de armas, uma revisão da lei aprovada pelo Congresso sobre as relações com a ilha poderia ser proposta, a soberania taiwanesa poderia ser reconsiderada, Washington poderia pressionar o governo taiwanês a negociar com Pequim, e até mesmo Trump poderia se oferecer como mediador, em consonância com sua vocação para a paz, digna de um Prêmio Nobel.

Isso seria o cumprimento literal da declaração de Xi Jinping sobre a compatibilidade entre o ápice da ascensão imperial da China e o projeto Trump: "O rejuvenescimento da nação chinesa e o retorno da América à grandeza (MAGA) podem caminhar juntos."

Um modesto avanço da China ou um retrocesso dos Estados Unidos coloca os líderes de ambas as superpotências em pé de igualdade. Uma vez que essa dinâmica foi acentuada sob Trump, é duvidoso que uma mudança na maioria no Congresso em novembro próximo ou uma mudança na Casa Branca em 2028 reverta essa tendência. Daí a natureza singular e histórica, talvez até definitiva, desse encontro entre uma potência em ascensão e uma em declínio.

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