14 Mai 2026
A conta oficial da presidência dos EUA publicou uma série de memes sugerindo a anexação do país sul-americano.
A reportagem é de Nicholas Dale Leal, publicada por El País, 13-05-2026.
Uma imagem do mapa da Venezuela preenchido com a bandeira americana e duas palavras: “51º Estado”. E oito minutos depois, outro tuíte. Um vídeo de nove segundos mostrando Marco Rubio em janeiro de 2026 parafraseando o rapper Biggie Smalls — “Se você não sabia, agora sabe” — cuja música toca ao fundo, após anunciar a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Em seguida, a agora histórica imagem de Maduro dentro de um avião a caminho de Nova York é mostrada. E, finalmente, o Secretário de Estado novamente, vestido com o mesmo agasalho cinza da Nike que Maduro. São memes, piadas, provocações. Mas a conta oficial da Casa Branca está brincando nesta terça-feira à tarde, sem sutileza, sobre algo profundamente sério: a anexação da Venezuela.
— The White House (@WhiteHouse) May 12, 2026
Nas últimas semanas, até mesmo meses, a Venezuela não tem sido muito mencionada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que tem se preocupado mais com o caso do Irã, decisões da Suprema Corte ou, ocasionalmente, com Cuba. E Caracas tem sido pouco mencionada desde o início do ano, quando Delcy Rodríguez se posicionou como sucessora de Maduro e começou a abrir o país para investimentos americanos, aparentemente atendendo a todas as exigências de Washington.
Nos últimos dias, porém, essa tendência mudou. Trump já havia insinuado a ideia de tornar a Venezuela o 51º Estado e recebeu uma resposta nesta segunda-feira da presidente interina, Delcy Rodríguez. “O presidente Trump sabe que temos trabalhado em uma agenda diplomática de cooperação. Esse é o rumo e esse é o caminho”, disse Rodríguez em Haia. “A Venezuela certamente tem as maiores reservas de petróleo do planeta e também uma das maiores reservas de gás. O caminho é a cooperação para o entendimento entre os países”, observou.
Mas as mudanças na Venezuela, além das novas leis que regulamentam as operações de petróleo e mineração, não são muito perceptíveis. A economia não experimentou um crescimento explosivo e o investimento estrangeiro não inundou o país. Embora o próprio Trump não tenha demonstrado publicamente e explicitamente exasperação com o ritmo da liberalização econômica do chavismo, as mensagens postadas no X podem ser vistas como uma ameaça.
Foi assim que o presidente colombiano Gustavo Petro, o primeiro chefe de Estado a reagir, interpretou a notícia. Após pôr fim a meses de desavenças com os republicanos em janeiro passado, o presidente colombiano se manifestou sobre a publicação no X. “Este tuíte oficial da Casa Branca é uma ideia completamente contrária à de Simón Bolívar”, alertou. “Esta nova ideia do governo dos EUA não pode ser implementada sem a vontade do povo venezuelano, que seria obrigado a trair seu filho: Simón Bolívar, fundador da Grã-Colômbia e da liberdade venezuelana.”
Do ponto de vista dos EUA, não há nada mais que ajude a decifrar a mensagem. Aliás, não é a primeira vez que esse mapa circula nas redes sociais americanas. Ele também apareceu em outra imagem irônica mostrando Trump com vários líderes europeus no Salão Oval, com um mapa da Venezuela ao fundo como o 51º país. Naquela ocasião, em meio à controvérsia sobre as ameaças de anexação da Groenlândia, o mapa da Venezuela passou praticamente despercebido.
Muitas das contas oficiais do governo americano nas redes sociais se tornaram uma coleção de memes provocativos. Recentemente, o presidente entrou em conflito com a Igreja Católica ao publicar uma imagem sua como Jesus, que ele apagou logo em seguida. Contas de agências de imigração, por exemplo, rotineiramente publicam memes e imagens geradas por inteligência artificial que zombam de imigrantes detidos, em um padrão desumanizador. E outras ainda incorporam e ocultam mensagens de extrema direita e supremacia branca em suas publicações. Nesse sentido, as postagens da Casa Branca também podem ser simplesmente um espetáculo para seu próprio público.
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