A invenção de Deus. Artigo de Vito Mancuso

Foto: Marc-Olivier Jodoin/Unsplash

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05 Mai 2026

"O amor é o grande mistério do ser. O Divino é o horizonte mais sublime que surgiu nos corações dos seres humanos para venerar, proteger e praticar esse grande mistério da vida, neste mundo de ferro e de gesso, mas também de luz e de música, tão terrível quanto belíssimo", escreve Vito Mancuso, ex-professor da Universidade San Raffaele, de Milão, e da Universidade de Pádua, em artigo publicada por La Stampa, 25-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A invenção de Deus: Deus é, afinal, uma invenção humana? Sim, claro que é. Mas não da mesma forma que este microfone ou este teatro. É no sentido latino do termo inventio, do verbo invenire, que significa “descobrir”, “encontrar”; de forma que inventio significa “encontro”, “descoberta”. A invenção de Deus: isto é, a descoberta de Deus. Mesmo aqui e agora, entre nós, há alguns que descobriram e outros que não: para os primeiros, Deus é uma experiência; para outros, uma fantasia, um sinal de ignorância e medo, ignorância da natureza, medo da morte. Quanto à experiência, aqui estão algumas palavras de Gandhi:

"Tenho mais certeza da sua existência do que do fato de você e eu estarmos nessa sala. Posso testemunhar que talvez até poderia viver sem ar e água, mas não sem Ele. Poderiam arrancar meus olhos, mas isso não me mataria. Poderiam cortar meu nariz, e isso também não me mataria. Por outro lado, destruam minha fé em Deus, e eu estarei morto."

Estou repetindo a distinção clássica entre crentes e não crentes? Não exatamente. Vejam bem, crer no senso comum significa aceitar doutrinas como verdadeiras, principalmente para nós as doutrinas da Igreja Católica, mas essa aceitação não necessariamente corresponde à descoberta de Deus: há crentes que não têm nada a ver com Deus e, inversamente, há aqueles que se declaram não crentes, mas que têm muito a ver com Deus porque o descobriram, mesmo que não o saibam e até o neguem. Estou confundindo suas ideias? Agora espero esclarecê-las.

Norberto Bobbio, filósofo do direito e da política, senador vitalício, um dos pais do pensamento laico italiano, sempre se declarou não crente. Algum tempo antes de sua morte, entregou uma carta ao jornal La Stampa com a instrução de publicá-la após o seu falecimento. Bobbio morreu em Turim em 9 de janeiro de 2004, e em 10 de janeiro, a carta agora conhecida como "Últimas Vontades" foi publicada no La Stampa. Em seu cerne, estão as seguintes palavras: "Não me considero nem ateu nem agnóstico. Como homem de razão e não de fé, sei que estou imerso no mistério que a razão não consegue penetrar completamente e que várias religiões interpretam de maneiras diferentes."

Essa frase contém quatro elementos importantes:

1) uma confissão pessoal;

2) a ideia de que é a razão, e não a fé, que leva ao mistério;

3) a convicção de que o mistério sempre estará destinado a permanecer mistério;

4) um juízo sobre as religiões, pois todas são imperfeitas.

A invenção-descoberta de Deus está enraizada na consciência racional de estar "imersos no mistério". O conceito de mistério vai muito além do horizonte cognitivo: mistério é diferente de enigma. O termo vem do latim mysterium, por sua vez do grego mysterion, que deriva do verbo myo, que significa "fechar", e é usado em relação a olhos e boca. A consciência de estar diante de um enigma faz com que você escancare os olhos para ver e a boca para falar, a fim de resolvê-lo; a consciência de estar diante do mistério faz com que você feche os olhos e a boca: você não quer ver nada externo, porque sente que algo está sendo revelado a você por dentro; não quer falar, mas mergulhar no grande silêncio dentro de você mesmo, porque sente que há algo a ser ouvido.

A consciência de Bobbio de estar imersos no mistério é condição sine qua non para falar do Divino; e digo Divino (com D maiúsculo), não Deus, porque o Divino é muito mais alto (no sentido latino, que também significa profundo) que Deus. A distinção entre Deus e Divino ecoa aquela do maior místico medieval, Mestre Eckhart, que distinguia entre Gott e Gottheit, Deus e Divindade. O Divino: deveríamos concebê-lo no masculino, no feminino, no neutro, no singular, no plural, no dual, e assim compreender que é inconcebível, mas, ainda assim, experienciável. Explicito minha consciência do mistério por meio destas duas fórmulas:

Ser – Mundo = x

Eu – Mundo = x.

Em matemática, x é chamado de incógnita, ‘in-cógnito’, não conhecido: aqui expressa a dimensão do excedente ou excesso da totalidade do ser em relação ao ser conhecido chamado mundo (hoje até a física atesta que tudo o que vemos, incluindo as galáxias mais distantes, representa apenas 5% do total; o restante é composto por 25% de matéria escura e 70% de energia escura). Escura, isto é, não conhecida, ‘in-cógnita’.

Isso, porém, não é um mistério, mas um enigma. E mesmo que um dia a ciência explique o enigma e tivermos matéria clara e energia clara, o mistério da nossa existência permanecerá intacto, porque está em jogo muito mais do que conhecimento objetivo: está em jogo o significado de tudo e o destino de cada um de nós. Somos destinados a estar imersos no mistério, e o sentido do Divino que os seres humanos desde sempre cultivaram é prova disso.

Existe, contudo, uma diferença crucial entre o sentido laico de mistério percebido por Bobbio e o sentido do mistério estritamente religioso vivido por Gandhi. A diferença cognitiva permanece, mas quem cultiva uma vida religiosamente inspirada tem uma conexão com o mistério calorosa, vital, sentimental - justamente, afetiva. Ou seja, intui que o rosto mais profundo e eterno do ser é a inteligência boa, ou a bondade inteligente.

Não apenas bondade, não apenas inteligência, mas a união das duas. É isso que Dante resume na seguinte frase: "Luz intelectual cheia de amor" (Paraíso XXX, 40).Último passo. Retorno ao mistério. E apresento a pergunta, em minha opinião, crucial em relação ao Divino: quando um ser humano sente indignação dentro de si diante do mal, da astúcia desonesta, da malícia, da prepotência, da falsidade; e quando, inversamente, sente admiração e, eventualmente, comoção diante do bem, da justiça, da pureza, da honestidade, será ele um ingênuo que ainda não compreendeu como o mundo funciona? Que não compreendeu que não há nenhum sentido na história e na natureza exceto a luta, a guerra, a sedução — em suma, armas, aço, doenças? Ou não? Ou será que não é ingênuo, mas está vivenciando a dimensão mais verdadeira da vida? Uma dimensão que atravessa este mundo, mas não coincide com ele, e que, portanto, pode ser chamada de transcendência?

Creio que a segunda alternativa seja a verdadeira. Kant também pensava assim, como pode ser lido na Conclusão da Crítica da Razão Prática: "A lei moral revela-me uma vida independente da animalidade e até mesmo de todo o mundo sensível". Pouco antes, no mesmo texto, ele havia falado do "eu invisível", referindo-se à profundidade do eu. Concluo com Lucio Dalla, que me honrou com sua amizade. Os versos finais de Balla balla ballerino dizem:

"Eis o mistério:
sob um céu de ferro e gesso
o homem consegue amar mesmo assim,
e ama realmente,
sem nenhuma certeza,
que comoção, que ternura".

O amor é o grande mistério do ser. O Divino é o horizonte mais sublime que surgiu nos corações dos seres humanos para venerar, proteger e praticar esse grande mistério da vida, neste mundo de ferro e de gesso, mas também de luz e de música, tão terrível quanto belíssimo.

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