24 Abril 2026
"A recepção de Virgílio por Bergoglio se insere nos passos de muitos escritores e homens de cultura para quem a recepção de um clássico representa uma relação fecunda entre passado e presente: é a retomada do fio que une a experiência presente e passada, a possibilidade de regeneração de um texto de ontem para extrair orientações que moldem um nosso futuro", escreve Antonio Spadaro, jesuíta e ex-diretor da revista La Civiltà Cattolica, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 21-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Entre os poetas que alimentaram o imaginário de Jorge Mario Bergoglio, Virgílio ocupa um lugar único. A Eneida não foi apenas uma leitura formativa para ele, mas uma fonte da qual continuou a haurir conhecimento — como arcebispo e como Pontífice — para refletir sobre a relação entre memória e futuro, entre raízes e caminho. Os vestígios dessa leitura estão espalhados por seus escritos e discursos ao longo de quase vinte anos.
Em sua Mensagem às Comunidades Educativas de 23 de abril de 2008, o então Cardeal Bergoglio, Arcebispo de Buenos Aires, falou sobre o fato de a humanidade sempre ter concebido a vida como um caminho e o homem como um viandante, homo viator. Na Bíblia, isso certamente acontece: basta pensar em Abraão. Mas "em toda história e mitologia humana", escreve ele, "enfatiza-se o fato de que o homem não é um ser quieto e sedentário, mas sim 'em caminho', chamado, 'vocado' — daí o termo 'vocação' — e quando não entra nessa dinâmica, então se anula como pessoa ou se corrompe. Mais ainda, colocar-se em caminho está radicado em uma inquietação interior que leva o homem a 'sair de si mesmo'".
Em especial, Bergoglio faz referência a Eneias, que, "diante da destruição de Troia, supera a tentação de parar e reconstruir a cidade e, carregando seu pai nos ombros, começa a escalar a montanha em direção a um pico que será a fundação de Roma". Essa imagem é indelével na mente do Pontífice. É um ícone.
No ano seguinte, em uma longa conversa com Sergio Rubin e Francesca Ambrogetti, ele disse sobre o herói de Virgílio: "Cuidado, a paciência cristã não é quietista nem passiva. É a paciência de São Paulo, que implica carregar a história nos ombros. É a imagem arquetípica de Eneias que, enquanto Troia arde, toma seu pai nos ombros — Et sublato montem genitori petivi — carrega sua história nos ombros e se coloca em caminho em busca do futuro."
Essas duas citações do poema de Virgílio indicam que essa obra deu ao futuro Pontífice muito assunto para reflexão. Parar é uma tentação: Eneias assume o risco de partir, de subir, e de fazê-lo carregando o pai idoso nos ombros. Pode-se, portanto, buscar o futuro apenas carregando nos ombros o passado, a história e a memória.
Como Pontífice, Francisco retomou plenamente esse eco virgiliano, revelando a profunda influência da Eneida em seu imaginário. Em especial, o fez em uma entrevista concedida a Austin Ivereigh durante a pandemia. No final da entrevista, acrescentou, referindo-se à Eneida II, 800-804: "Acabei de me lembrar de outro verso de Virgílio, quando Eneias, derrotado em Troia, havia perdido tudo e só lhe haviam sobrado duas saídas: ficar ali, lamentando-se e pondo fim à sua vida, ou fazer o que mandava seu coração, seguir em frente, ir para as montanhas para se afastar da guerra. É um verso magnífico: Cessi, et sublato montem genitori petivi. ‘Cedi e, erguendo meu pai, dirigi-me às montanhas.' É isso que todos nós devemos fazer hoje: 'Pegar as raízes de nossas tradições e subir as montanhas'. Assim, retorna o ícone que o então Arcebispo de Buenos Aires já havia pintado com tanta beleza.
O próprio Francisco, em 23 de outubro de 2018, no Augustinianum, durante a apresentação do livro A Sabedoria do Tempo, para o qual contribuiu diretamente, pediu a projeção de um ícone criado pelo ateliê iconográfico de Bose: aquele que retrata um jovem monge carregando um irmão idoso nos ombros. De fato, trata-se da mesma imagem de Eneias carregando Anquises nos ombros. O Papa comentou então: "Vemos um jovem que conseguiu tomar para si os sonhos dos idosos e os leva adiante, para que frutifiquem. Isso talvez seja uma inspiração. Não se pode carregar todos os idosos consigo, mas se pode carregar os seus sonhos e levá-los adiante, carregá-los, e isso será bom para vocês."
Ícone escolhido pelo Papa Francisco. (Foto: Reprodução)
Mas Francisco foi além, enfatizando o tema da memória. Em conversa com A. Ivereigh, afirmou: "Lembro-me de um verso da Eneida que, no contexto da derrota, aconselha a não desistir. Preparem-se para tempos melhores, porque naquele momento isso nos ajudará a lembrar o que aconteceu agora. Cuidem-se para um futuro que virá. E quando esse futuro chegar, será bom lembrar o que aconteceu." O Papa estava evidentemente preocupado com o fato de o tempo pós-pandêmico fosse imaginado como um retrocesso, no simples esquecimento.
Esquecer o que aconteceu é a maior tentação quando se quer construir o futuro. Bergoglio disse ainda, falando a educadores em 2008: "Lembro-me de um verso de Virgílio (Eneida I, 203): Meminisce iuvabit. Será bom recordar essas coisas, porque a memória nos ajudará. Hoje é o tempo de recuperar a memória. Não é a primeira pestilência da humanidade. As outras já se reduziram a anedotas", sem que nada tenha mudado. E continuou: “Devemos recuperar a memória de nossas raízes, da tradição, que é ‘memoriosa’”.
Na Encíclica Fratelli tutti, a análise da história atual é mais ampla do que a pandemia. E Francisco se lembra do famoso verso de Virgílio “que evoca lamentáveis acontecimentos da história humana” (n. 34). O Papa se refere ao trecho do primeiro livro da Eneida, versículo 462, em que Eneias fala com Acates e diz: Sunt lacrimae rerum et mentem mortalia tangunt (“Há lágrimas nas coisas e as coisas mortais tocam a mente”).
Uma das razões para esse sofrimento é certamente a “terceira guerra mundial em pedaços”. No livro Eu vos peço em nome de Deus, editado por Hernán Reyes Alcaide, o Papa escreveu: “Há mais de dois mil anos, o poeta Virgílio compôs este verso: ‘A guerra não traz salvação!’ É difícil acreditar que, desde então, o mundo não tenha aprendido com a barbárie que habita os conflitos entre irmãos, compatriotas e países. A guerra é o sinal mais claro da desumanidade. Esse forte grito ainda ressoa.”
A recepção de Virgílio por Bergoglio se insere nos passos de muitos escritores e homens de cultura para quem a recepção de um clássico representa uma relação fecunda entre passado e presente: é a retomada do fio que une a experiência presente e passada, a possibilidade de regeneração de um texto de ontem para extrair orientações que moldem um nosso futuro. E de Virgílio, o jovem Bergoglio extrai grandes lições que continuará a comunicar ao longo de seu pontificado. Entre elas, destaca-se uma: “O heroísmo do homem não consiste em não cair, mas em se levantar depois de cair”, frase frequentemente repetida pelo pontífice.
Virgílio, portanto, não é um ornamento retórico para Francisco, nem uma referência ocasional. Ele é um companheiro de pensamento, um poeta que soube dar forma ao que o Papa não se cansa de repetir: que a história pesa, que deve ser carregada nos ombros e que somente aqueles que aceitam esse fardo podem realmente se colocar em caminho. Na figura de Eneias, Bergoglio encontrou o ícone de uma responsabilidade que não abandona o passado para perseguir o novo, mas também não se deixa paralisar pela ruína. É a postura de quem sobe a montanha com o pai nos ombros: sobrecarregado, mas, ainda assim, livre.
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