Saudades: Papa Francisco e a Amazônia

Foto: Presidencia de la Republica Mexicana/Flickr

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24 Abril 2026

"Eu sinto saudades do Papa Francisco. Sou grato por sua vida, por seu ministério pastoral e por seu ensinamento. Por mais estranho que possa parecer, também sou grato pela proximidade “pessoal” que sentia em relação a ele. Eu sinto saudades da Amazônia e, cada vez que estou lá para matar a saudade, levo comigo a memória do Papa Francisco como motivação para continuar acreditando na cosmologia e na ética de uma única natureza, vivida na fauna, na flora, nos rios e nos povos da Amazônia", escreve Alexandre A. Martins, professor de bioética e ética social na Marquette University em Wisconsin, nos EUA e presidente da Sociedade Brasileira de Teologia Moral, em artigo enviado pelo autor ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

Pouco depois de Jorge Mario Bergoglio ser eleito papa e escolher o nome Francisco — inspirado por um amigo no conclave que lhe disse “não se esqueça dos pobres” —, ele viajou ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude 2013. Eu estava lá, em meio a uma imensa multidão de jovens católicos vindos de todo o mundo. Como arcebispo de Buenos Aires, Francisco já era próximo de nós, brasileiros; o amigo que inspirou seu nome era um cardeal brasileiro; e, como cardeal Bergoglio, ele havia sido uma figura central na Conferência do CELAM em Aparecida em 2007. Aquele encontro de bispos da América Latina e do Caribe deu origem ao Documento de Aparecida, um texto que se tornaria uma espécie de bússola para o ministério de Francisco. Ele conhecia bem o Brasil e sabia como se conectar com seu povo. Ao final da Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco usou uma palavra para descrever sua experiência que somente falantes de português, especialmente brasileiros, conseguem compreender plenamente: saudades.

Eu estava entre a multidão na Praia de Copacabana quando o ouvi dizer: sentirei saudades de vocês. Mais de três milhões de pessoas ocupavam aquela praia para a missa de encerramento do evento, e, ainda assim, tive a sensação de que Francisco falava diretamente comigo quando disse que sentiria saudades.

Hoje, um ano após sua morte, é assim que me sinto: eu sinto saudades do Papa Francisco. Quando ele morreu, em 21 de abril de 2025, foi como se eu tivesse perdido alguém muito próximo. No meu escritório, chorei ao saber de sua morte. Foi um luto que eu só havia experimentado antes, quando perdi meu avô, em 1999. Nunca encontrei o Papa Francisco pessoalmente — um sonho que permaneceu não realizado. Nunca apertei sua mão nem o ouvi dirigir-se a mim diretamente, como aconteceu com tantos que conheço. E, ainda assim, sempre o senti próximo, uma proximidade que me ensinou o que é um verdadeiro líder espiritual. Mesmo à distância, sabendo que Francisco não fazia ideia de quem eu era, eu me sentia perto dele, como um amigo que muito me ensinou.

Saudades é a melhor palavra para expressar o que sinto: tenho saudades do Papa Francisco. Escrevo esse texto dos EUA, onde vivo com minha esposa e três filhos. Ela é estadunidense e fala português. Embora as crianças já entendam o sentido de saudades, minha esposa tem dificuldade de compreender. Não é fácil explicar para ela, pois não é fácil explicar nem para nós mesmos. Apenas sentimos. Aproxima-se do I miss you, em inglês, mas é muito mais do que sentir falta de alguém ou de algo. Digo para ela que saudade se aproxima de um anseio profundo, um estado emocional intenso associado a uma pessoa, a um lugar ou a uma experiência do passado que foi muito significativa para você. É dor e alegria ao mesmo tempo. Saudades é o desejo doido de reviver algo, de voltar a um lugar, de abraçar alguém, ou, muitas vezes, tudo isso junto. Ao mesmo tempo, é a memória alegre de algo que valeu a pena viver, que revisitamos continuamente na memória e nos afetos e que, assim, nos enche de alegria e gratidão.

Há alguns dias, estive na pequena cidade de Xapuri, no Acre, região amazônica. Passei a chamar esse lugar de casa quando meus pais se mudaram de Minas Gerais para lá, em 1995. Embora eu seja um filho desgarrado que vive longe de casa há mais de duas décadas, retorno sempre que posso. Entre tantas coisas que aprendi com o Papa Francisco, uma das mais especiais é olhar para a floresta amazônica e contemplar seus povos e sua diversa fauna e flora com novos olhos. Assim como sinto saudades de Francisco, também sinto saudades da Amazônia quando estou longe. São essas saudades que, apesar de todas as tensões, dramas, desafios e contradições que encontro em Xapuri, continuam a me trazer de volta a essa pequena cidade no coração da floresta.

Minha relação com a Amazônia começou quando eu era criança. Desde então, entre idas e vindas, e sem nunca ter vivido plenamente na região, sinto minhas raízes se aprofundarem na terra, de modo que, onde quer que eu esteja, elas alcançam o solo amazônico. Quanto mais profundas essas raízes se tornam em direção à floresta, maiores são as saudades da vida em meio à simplicidade autêntica e digna dos povos da floresta. Com Francisco, aprendi o sentido de um enraizamento espiritual que se torna compromisso ético e responsabilidade cada vez que estou na Amazônia, junto a seu povo, que me acolhe como um dos seus.

Um dos meus textos favoritos de Francisco é sua Exortação Apostólica Querida Amazônia, que, para mim, é um guia espiritual para uma nova cosmologia e para um compromisso ético de construir um novo mundo sustentado por uma única natureza. Essa cosmologia e ética só são possíveis quando aprendemos a contemplar o ambiente representado pela floresta amazônica e por qualquer outra floresta do mundo.

Aprendendo com os povos nativos, podemos contemplar a Amazônia, e não apenas analisá-la, para reconhecer esse precioso mistério que nos supera; podemos amá-la, e não apenas usá-la, para que o amor desperte um interesse profundo e sincero; mais ainda, podemos sentir-nos intimamente unidos a ela, e não só defendê-la: e então a Amazônia tornar-se-á nossa como uma mãe. Porque se ‘contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres’ (Querida Amazônia, n. 55).

Eu sinto saudades do Papa Francisco. Sou grato por sua vida, por seu ministério pastoral e por seu ensinamento. Por mais estranho que possa parecer, também sou grato pela proximidade “pessoal” que sentia em relação a ele. Eu sinto saudades da Amazônia e, cada vez que estou lá para matar a saudade, levo comigo a memória do Papa Francisco como motivação para continuar acreditando na cosmologia e na ética de uma única natureza, vivida na fauna, na flora, nos rios e nos povos da Amazônia.

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