Memorial da covid: quando a memória fala do futuro

Foto: Ministério da Saúde

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09 Abril 2026

No Dia Mundial da Saúde, Brasil inaugura monumento em honra às vítimas da pandemia. Ele não recupera as perdas, mas traz uma mensagem urgente perante o neoliberalismo, que destrói a solidariedade e o Comum. Como ampliar essa onda a favor da vida?

O artigo é de Túlio Batista Franco, professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro da Rede Unida e Frente pela Vida, publicado por Outras Palavras, 08-04-2026.

Eis o artigo.

Ontem, 7 de abril de 2026, Dia Mundial da Saúde, foi reaberto o Centro Cultural do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro, com uma homenagem às vítimas da pandemia de covid-19. São três esculturas e um parquinho com símbolos do Gotinha, entre os quais perfilaram representantes do movimento social, academia, artistas, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha e a ex-ministra Nísia Trindade.

Faltava até então um memorial que contasse o sofrimento das milhões de pessoas, e a morte de mais de 700 mil durante a maior tragédia sanitária do país. Há vítimas que continuam entre nós, mais de 100 mil órfãos, pessoas com sequelas, famílias que tiveram suas economias devastadas. A presença da pandemia é uma realidade para milhares, que carregam efeitos para o resto das suas vidas. Um lugar de memória não é feito para atualizar o que passou, mas lembrar do que levou àquela experiência trágica. Esse não esquecimento deve ser o salvo conduto para um futuro em que episódios como este nunca mais se repitam.

É nesse sentido que a memória fala do futuro, no qual o cuidado com a vida deve ser a prioridade, a começar com a principal vida, do planeta, que abriga a todos nós. A pandemia foi talvez o primeiro grande evento que demonstra o colapso do modelo de desenvolvimento ganancioso do capitalismo global perpetrado nos dois últimos séculos. Torna-se urgente a tomada de consciência de que a prática extrativista predatória sobre a natureza, o desenvolvimento desenfreado com base na energia à base de carbono, o aquecimento global, e seus efeitos, elevam o sofrimento humano, e apontam para um futuro sombrio. Hoje já ultrapassamos o temido índice de 1,5 graus de temperatura da Terra, acima do que era há 200 anos. O ponto de não retorno. Estamos condenados a viver em um planeta febril, nos defendendo dos eventos climáticos extremos, que serão cada vez mais frequentes.

Tudo isto exige uma tomada de consciência de que o capitalismo e sua versão atual, neoliberal, mais radicalmente danosa aos interesses humanitários, e contrário ao desenvolvimento sustentável da economia e da vida, devem ser definitivamente combatidos. É nesse sentido que o Memorial às Vítimas da Covid-19 inaugurado agora, mais do que necessário, é oportuno. Não é feito para presentificar a tragédia, mas indicar que precisamos lutar por um futuro em que isto nunca mais se repita. Será um lugar de visitação, reflexão sobre os sentidos da vida, e educação de jovens e adultos para um mundo diferente e melhor, de paz, saúde, justiça social.

O Memorial nos remete à forte ideia de que mais do que nos prepararmos para uma nova pandemia, impedi-la é o grande objetivo. Não esquecer é também lançar luz aos crimes hediondos cometidos pelo governo brasileiro na época da pandemia. Jair Bolsonaro estava à frente, e ficou conhecido por propagar contra as medidas protetivas à vida, difamar o distanciamento social, e indicar medicamentos e terapêuticas sem efeito e nocivas à saúde. Sócio do vírus, se tornou um genocida durante a pandemia. O dito popular diz que o criminoso sempre volta à cena do crime. Este ano, 2026, haverá eleições presidenciais, e o genocida de então quer voltar à cena do crime através do seu filho e herdeiro político, Flávio Bolsonaro. E cabe ao sofrido povo brasileiro impedir que isto aconteça. E o fará.

Nosso foco nesse momento está em construir o futuro: coletivamente devemos formular projetos e propostas que ativem a esperança a milhões de pessoas. Definitivamente devemos propor um projeto de política de saúde que traga em si linhas de ruptura com a lógica do “biomercado”, e sua dinâmica de acumulação. O SUS tem na sua origem o forte componente solidário que marcou as políticas sociais formuladas no âmbito da Constituição de 1988. E é justamente a solidariedade social o antídoto à subjetividade neoliberal, esta, marcada pela construção do sujeito da concorrência, que orientou a maior reestruturação produtiva do trabalho dos últimos tempos, a chamada “uberização”, ou “capitalismo de plataforma”, no qual um trabalhador vê no outro não seu igual e parceiro, mas um concorrente com o qual compete. A este esgarçamento da solidariedade de classe apresentamos a ideia de relações comunitárias, que têm no seu pilar mestre a solidariedade, como fundamento anticapitalista e antineoliberal.

As eleições gerais de 2026, em particular a presidencial, atualiza a disputa histórica com o projeto neoliberal, que agora se apresenta na versão da ultradireita, que conta com um correspondente no governo estadunidense atual. Todo o esforço a ser feito neste ano de construção do SUS, – uma política de saúde radicalmente solidária, sustentada pelo movimento social – vem no sentido de vencer e consolidar definitivamente um país socialmente justo.

O projeto do SUS no seu formato original, traduzido para o tempo atual, deve agir como a força propulsora de um amplo movimento, de alta capilaridade em todo território nacional. A Frente pela Vida tem capitaneado este movimento, e se movimenta neste momento para organizar a 2ª Conferência Nacional Livre Democrática e Popular de Saúde, que deverá acontecer em agosto de 2026. Esta Conferência tem a missão de ativar as energias para criar uma onda a favor da vida por todo país, que vai mais uma vez dar a vitória à esperança de um Brasil vivo, saudável, solidário e em paz.

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