Quando a religião é usada para alimentar a guerra

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09 Abril 2026

O que as guerras no Irã e no Oriente Médio têm a ver com religião? Qualquer pessoa que acompanhe a retórica dos atores políticos perceberá como ideias religiosas estão sendo usadas para alimentar o conflito. Isso tem uma longa tradição.

O artigo é de Christoph Arens e Christoph Schmidt, publicado por Katholisch, 08-04-2026.

Christoph Arens é editor da Katholische Nachrichten-Agentur.

Christoph Schmidt é redator da Katholische Nachrichten-Agentur. 

Eis o artigo.

Discursos inflamados fazem parte do seu repertório habitual: Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA e autoproclamado "Secretário da Guerra", gosta de combinar retórica agressiva com imagens e conteúdo cristãos. O político de 45 anos tem uma tatuagem da Cruz de Jerusalém no peito, um símbolo da época das Cruzadas. Seu impressionante bíceps exibe a inscrição Deus Vult, latim para "Deus o quer" — um grito de guerra histórico dos cruzados.

O chefe do Pentágono descreve a guerra contra o Irã como uma espécie de guerra santa e cruzada. Segundo relatos da mídia, Hegseth orou em um culto no Pentágono pedindo "força esmagadora contra aqueles que não merecem misericórdia". E pediu a Deus: "Que cada bala contra os inimigos da justiça e de nossa grande nação atinja seu alvo". O Papa Leão XIV discordou veementemente: Deus não deve ser usado indevidamente para justificar a guerra. Ele é "um Deus que rejeita a guerra", disse o pontífice nascido nos Estados Unidos. Deus não ouve as orações daqueles que fazem guerra. O cardeal Reinhard Marx, de Munique, usou palavras ainda mais fortes na Páscoa: é uma "blasfêmia vergonhosa" Hegseth orar para que cada bala na guerra contra o Irã atinja seu alvo. O mesmo se aplica à declaração do Patriarca Ortodoxo de Moscou, Kirill, que descreveu a guerra de agressão lançada pela Rússia contra a Ucrânia como uma "guerra santa".

Visões do fim dos tempos e linguagem religiosa

Embora as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia sejam claramente lutas geopolíticas pelo poder, visões apocalípticas e linguagem religiosa ressurgem repetidamente. A religião condensa contextos políticos complexos em narrativas simples de um plano divino. Ela visa mobilizar na batalha entre o bem e o mal e silenciar a resistência: Israel, em seus ataques ao Irã, recorre à terminologia do Antigo Testamento. A guerra de 12 dias em junho de 2025 recebeu o codinome "Leão Ascendente", e a guerra atual é conhecida como "Leão Rugidor". Ambas aludem ao Livro de Números: "Um povo que se levantará como um leão". O Irã vem imbuindo seu conflito com o Ocidente de significado religioso desde a Revolução Islâmica de 1979: os EUA são chamados de "Grande Satã" e Israel de "Pequeno Satã". A luta contra o Ocidente incrédulo é retratada como um conflito apocalíptico entre o bem e o mal.

Será que esses padrões de pensamento poderiam fazer parte do DNA do cristianismo, do judaísmo e do islamismo? Na década de 1990, o egiptólogo Jan Assmann apresentou a controversa tese de que a crença em um único Deus aguçou distinções como amigo e inimigo, verdadeiro e falso — padrões de pensamento que frequentemente levam à violência contra pessoas de outras religiões. Por outro lado, a não violência e a paz são mensagens centrais das religiões monoteístas. "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens aos quais ele concede sua graça" — o Evangelho de Lucas, por exemplo, faz do Natal uma festa da paz, e Jesus é chamado de "Príncipe da Paz".

É inegável: a história do cristianismo é marcada por um rastro de derramamento de sangue, intolerância e crueldade – desde a conversão forçada dos saxões até a perseguição de hereges, as Cruzadas e as guerras religiosas, como demonstra o especialista medieval Philippe Buc em seu estudo de 2015, "Guerra Santa: violência em nome do cristianismo". A luta não se dirigia apenas contra dissidentes dentro da Igreja, mas também contra inimigos percebidos fora dela. O mandato missionário do Evangelho foi interpretado como um chamado para forçar os não crentes a se converterem, se necessário pela violência. Muçulmanos, mas também judeus, tornaram-se vítimas. Para aqueles que matassem a serviço da Igreja, os papas prometiam recompensas, incluindo a ascensão ao céu.

Mesmo nos tempos modernos, existem exemplos da religião cristã justificando a violência. O ex-presidente americano, George W. Bush, por exemplo, declarou a "Guerra ao Terror" após o 11 de setembro de 2001 e a descreveu como uma "cruzada". No mundo muçulmano, os massacres dos cruzados em Jerusalém tornaram-se um mito constantemente revivido. O grupo terrorista Estado Islâmico (EI) usa sua propaganda para atacar os "cruzados infiéis". Desde os ataques de 11 de setembro de 2001, a palavra árabe "jihad" tem se tornado cada vez mais parte do vocabulário de extremistas muçulmanos em sua luta contra o mundo ocidental.

A ideia de guerra santa

O conceito de guerra santa é interpretado de maneiras diferentes no Islã. A chave para essa interpretação reside nos chamados Versículos da Espada do Alcorão e nos ditos do Profeta Maomé, que liderou campanhas contra seus inimigos. A doutrina jihadista clássica exige que os não crentes sejam combatidos e subjugados até que o mundo inteiro seja islâmico. Os muçulmanos que morrem nessa luta são considerados mártires. No entanto, a jihad está sujeita a regras estritas. Por exemplo, só pode ser declarada por governantes legítimos, e as vidas de civis cristãos e judeus devem ser poupadas.

Portanto, quando os jihadistas assassinam civis inocentes hoje em dia, não podem invocar a doutrina islâmica clássica. De qualquer forma, a maioria dos juristas islâmicos interpreta a jihad como uma guerra puramente defensiva.

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