"O Evangelho de hoje (Jo 20,19-31) apresenta os discípulos reunidos, com as portas fechadas. Mais do que uma simples descrição física, trata-se de um retrato interior que expressa o medo, a insegurança e a frustração após a morte de Jesus. Eles haviam depositado suas expectativas, esperanças e sonhos em um projeto que, aos seus olhos, parecia ter fracassado. Quantas vezes também nós nos encontramos assim: desanimados e feridos pelas experiências da vida, assustados diante de tanta violência, inseguros em relação ao futuro e com dificuldade de acreditar que algo novo possa, de fato, surgir."
A reflexão é de Sandra Maira Pires, religiosa da Congregação das Irmãs da Divina Providência - IDPs. Ela possui graduação em teologia pela Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana - ESTEF, de Porto Alegre/RS, e especialização em espiritualidade pelas Faculdade Vicentina - FAVI, de Curitiba/PR. Atualmente atua em atividades de formação religiosa e orientação de retiros.
At 2,42-47
Sl 117(118),2-4.13-15.22-24 (R. 1)
1Pd 1,3-9
Jo 20,19-31
O segundo Domingo da Páscoa, Ano A, nos mergulha no centro e no coração da experiência cristã: a presença do Ressuscitado no meio da comunidade frágil, vulnerável pelo medo e pela dúvida e, ao mesmo tempo, chamada a reconhecer os sensíveis sinais de esperança que começam a despontar.
O Evangelho de hoje (Jo 20,19-31) apresenta os discípulos reunidos, com as portas fechadas. Mais do que uma simples descrição física, trata-se de um retrato interior que expressa o medo, a insegurança e a frustração após a morte de Jesus. Eles haviam depositado suas expectativas, esperanças e sonhos em um projeto que, aos seus olhos, parecia ter fracassado. Quantas vezes também nós nos encontramos assim: desanimados e feridos pelas experiências da vida, assustados diante de tanta violência, inseguros em relação ao futuro e com dificuldade de acreditar que algo novo possa, de fato, surgir.
É precisamente nesse cenário que o Ressuscitado se faz presente. Ele não exige dos discípulos prontidão, coragem ou uma fé já consolidada. Mesmo com as portas fechadas, Jesus entra e se coloca no meio deles. Sua primeira palavra não é de repreensão nem de reprovação; ao contrário, é dom: “A paz esteja convosco”. Trata-se de uma paz que não significa ausência de dificuldades, mas a certeza de que não estão sozinhos, mesmo nas situações mais duras. É uma paz que reorganiza o coração, devolve o sentido da vida e reacende a esperança e a alegria.
Em seguida, Jesus lhes mostra as feridas — as marcas da cruz, as chagas que permanecem, mas que agora já não expressam fracasso, e sim vida. Crer no Ressuscitado não significa apagar o sofrimento vivido, mas permitir que ele seja transformado. Assim, também as nossas feridas, quando alcançadas pela graça e pela misericórdia de Deus, tornam-se fonte de vida, de compaixão e de testemunho.
A seguir, Jesus sopra sobre eles dizendo: “Recebei o Espírito Santo”. A comunidade, antes paralisada pelo medo, é agora recriada pelo Espírito e enviada para uma missão caracterizada pela misericórdia: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”. Ao ofertar/comunicar o Espírito Santo, Jesus revela que a comunidade de fé é espaço de reconciliação, de acolhida e de novos começos.
Por isso, a comunidade que faz a experiência pascal persevera na escuta da Palavra, na comunhão, na fração do pão e na oração. Assume um estilo de vida marcado pela partilha, pela solidariedade e pela alegria. Não se trata de uma utopia romântica, mas de um sinal concreto de que Cristo está vivo. Onde há comunhão verdadeira, onde as pessoas cuidam umas das outras, ali a Páscoa continua acontecendo, como testemunha a primeira leitura (At 2,42-47).
Voltemos à comunidade dos discípulos: nem todos estavam presentes quando o Ressuscitado se manifestou — faltava Tomé. Sua ausência é significativa, pois a fé na ressurreição não se sustenta no isolamento. Ao retornar, ele não apenas resiste ao testemunho dos outros, mas deseja ver e tocar para poder crer. À primeira vista, essa atitude pode parecer fraqueza; no entanto, revela algo profundamente humano. Tomé não se satisfaz com uma fé superficial, mas busca uma experiência existencial, autêntica e profunda.
Então, Jesus se manifesta novamente e se dirige diretamente a Tomé. Acolhe sua necessidade, sem qualquer condenação. O convite é claro: “tocar as feridas”. Diante dessa presença viva, Tomé proclama uma das mais belas profissões de fé de todo o Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus!”. Aquilo que era dúvida se transforma em fé profunda. Assim, podemos aprender que a dúvida, quando vivida com sinceridade, pode se tornar caminho para uma fé mais madura e sólida, e não o seu oposto.
O Ressuscitado, “em sua grande misericórdia, nos faz nascer de novo para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, que não se mancha nem se murcha”, como afirma a Primeira Carta de Pedro (1Pd 1,3-9). Nossa fé e nossa esperança são vivas não porque eliminam o sofrimento e as dificuldades, mas porque nos apontam um horizonte maior: a firme e feliz certeza de que a vida vence a morte.
Jesus encerra esse encontro com uma bem-aventurança: “Felizes os que creram sem terem visto!”. É o lembrete de que nossa fé não se baseia em provas materiais, mas em um encontro vivo com o Senhor, que acontece na comunidade, na Palavra, nos sacramentos, na vida.
A liturgia de hoje nos convida a voltar o olhar para a nossa própria vida, para nossas comunidades e famílias, e a nos perguntar: quais portas ainda estão fechadas? Que medos nos impedem de viver plenamente a fé? Em que aspectos precisamos acolher a paz do Ressuscitado?
Somos chamados e chamadas, à semelhança de Tomé, a reconhecer com honestidade nossas dúvidas e a “tocar as feridas” dos crucificados de hoje.
É certo que o Ressuscitado continua a entrar em nossas vidas. Ele segue oferecendo sua paz e sua misericórdia, chamando-nos e enviando-nos — não como pessoas perfeitas, mas como testemunhas da esperança cristã, uma esperança que transforma.
Na força da ressurreição possamos passar do medo à confiança, do isolamento à comunhão, da dúvida a uma fé viva e comprometida.
Então, com o salmista, podemos proclamar: “O Senhor é minha força e meu canto e tornou-se para mim um salvador. Clamores de alegria e de vitória ressoem pelas tendas dos fiéis!” (Sl 117/118).
Crer no Ressuscitado sem esquecer suas feridas na humanidade. Reflexão de Luisa de Lucas