As derrotas de Trump expõem as limitações dos EUA

Foto: Daniel Torok/The White House

Mais Lidos

  • Quantum e qualia. Entre teoria quântica e a filosofia da mente. Entrevista com Osvaldo Pessoa Junior

    LER MAIS
  • Soberania e desenvolvimento digital e econômico do Brasil dependem de alternativas que enfrentem a dependência das multinacionais, afirma o pesquisador

    Data centers: a nova face da dependência brasileira. Entrevista especial com Vinícius Sousa de Oliveira

    LER MAIS
  • Israel está causando a pior tragédia humanitária no Líbano em mais de duas décadas, seguindo a mesma estratégia adotada em Gaza

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

31 Março 2026

Uma série de contratempos expõe os limites do poder militar e econômico de Washington, bem como os mecanismos para uma resistência eficaz aos seus ataques.

A reportagem é de Andrea Rizzi, publicada por El País, 30-03-2026.

A fracassada guerra comercial contra a China; as ameaças de anexação da Groenlândia que só geraram indignação e terminaram em retrocesso; a pressão sobre o Canadá que facilitou a vitória de Mark Carney e aproximou Ottawa de Pequim; a ação do Congresso para limitar a capacidade da Casa Branca de retirar tropas da Europa; e a decisão da Suprema Corte que anulou a guerra tarifária. Aguardando a inclusão final da guerra com o Irã na lista, o catálogo de reveses e derrotas de Donald Trump neste segundo mandato é extenso e multifacetado. Vários deles têm profundo significado, revelando as limitações dos EUA e de seu governo, bem como os mecanismos para uma oposição eficaz às ofensivas da atual Casa Branca. Os mercados são frequentemente o canal para a poderosa mensagem que inibe Trump, mas o fator subjacente é sempre a combinação de vontade e resiliência. Em conjunto, essa dinâmica lança luz sobre o futuro do mundo e justifica uma análise constante e cuidadosa.

Irã

A atenção mundial está compreensivelmente voltada para o ataque lançado pelos Estados Unidos — e por Israel — contra o Irã. O conflito encontra-se em um momento de grande instabilidade, e seria imprudente e prematuro emitir um julgamento definitivo agora. Contudo, seu desenrolar já está causando sérios problemas para Washington e ameaça resultar em um grande revés para o governo americano.

O Irã vem sofrendo duros golpes há quatro semanas, mas o regime permanece no poder e continua bloqueando o Estreito de Ormuz. As consequências são significativas, afetando o comércio de hidrocarbonetos e fertilizantes, bem como de outros produtos essenciais, como o hélio, necessário para a fabricação de microchips. Além disso, o impacto nos países do Golfo ameaça ter sérias repercussões nos mercados de capitais, já que as vastas reservas desses países têm sido um fator-chave em projetos de investimento em grande parte do mundo há décadas.

Na frente política, no Irã o regime não só permanece no poder, como é cada vez mais controlado pela Guarda Revolucionária radical. Enquanto isso, nos EUA, tensões aumentaram dentro do movimento MAGA, muitos dos quais repudiam essa guerra de escolha.

Mas talvez o fato mais relevante desta aventura seja uma vulnerabilidade crítica que a Operação Epic Fury evidenciou: os limites da superioridade tecnológica militar no novo ambiente de guerra, em que grandes quantidades de armas baratas podem reequilibrar a desvantagem qualitativa.

A coluna de fumaça se eleva após um ataque de drone no Kuwait

Nos primeiros 16 dias de combate, os EUA e seus aliados dispararam aproximadamente 11.000 munições — incluindo quase 1.700 mísseis de defesa aérea Patriot, 300 mísseis THAAD e mais de 500 mísseis Tomahawk — a um custo total de cerca de US$ 26 bilhões. Além do custo, o problema é que algumas dessas armas — especialmente interceptores de longo alcance e armas de ataque de precisão — são difíceis de produzir. Os arsenais são limitados. A taxa de esgotamento é rápida e a taxa de reposição é lenta.

Segundo estimativas publicadas pelos autores — os Estados não divulgam seus inventários —, Israel teria gasto 80% de seus interceptores Arrow 2 e 3, enquanto os países do Golfo gastaram 60% de seus THAADs e os EUA gastaram 40% dessa mesma arma.

É claro que a indústria está substituindo esses sistemas, mas vários deles são muito complexos. Por exemplo, os autores estimam que serão necessários cinco anos para substituir os 500 mísseis Tomahawk disparados nos primeiros 16 dias desta guerra. Outros especialistas sugerem uma capacidade de substituição um pouco mais rápida, mas, em qualquer caso, bastante trabalhosa. Enquanto isso, a guerra continua. Fontes citadas pelo The Washington Post indicam que o número de mísseis Tomahawk disparados nas primeiras quatro semanas ultrapassou 850. A versão moderna do míssil custa cerca de US$ 3,5 milhões.

A ofensiva demonstrou, sem dúvida, as impressionantes capacidades de ataque dos EUA e resultou em uma significativa redução do poderio militar do Irã. No entanto, também está causando sérios problemas econômicos, esgotando arsenais e revelando uma fragilidade problemática escondida por trás da superioridade tecnológica americana. Alguns drones que custam cerca de € 30.000, como o Shahed iraniano, são suficientes para esgotar rapidamente um estoque de mísseis avaliado em mais de € 3 milhões, como o Patriot.

Essa assimetria desafia pressupostos antigos sobre o equilíbrio de poder. A dinâmica já era evidente na guerra na Ucrânia, mas seu efeito sobre a maior potência militar do mundo é impressionante. É um efeito com repercussões globais, porque afetará aqueles que dependem do fornecimento de armas do conglomerado industrial americano, que agora se concentrará em reabastecer os estoques do Pentágono. E porque os adversários estão atentos a esse período de escassez de armamentos altamente relevantes. A China continua satisfeita com o enfraquecimento dos EUA em uma guerra desnecessária.

China

Pequim é precisamente a protagonista de outro grande revés sofrido por Trump: o fracasso da ofensiva comercial lançada por Washington contra a China no ano passado. Ao contrário de outros que cederam, Pequim recusou-se a sucumbir à pressão assinando um acordo desvantajoso. Resistiu, acionando uma espécie de botão nuclear comercial: restrições às exportações de matérias-primas estratégicas, um ativo cuidadosamente construído ao longo de várias décadas por meio do controle tanto da extração quanto do refino. A resposta de Pequim, restringindo as vendas de elementos de terras raras, desencadeou pânico no setor industrial global, que depende dessas matérias-primas para toda a manufatura moderna.

Trump pensou que iria subjugar a China, e percebeu que a China estava mais bem preparada do que ele imaginava. Ele superestimou suas próprias forças e capacidades e subestimou seu rival”, afirma Miguel Otero, pesquisador sênior do Instituto Real Elcano, especializado em economia política internacional e no triângulo de poder EUA-China-UE.

“Com suas ações em relação às exportações de terras raras, a China ousou usar a bazuca”, continua Otero. “E isso é muito significativo, porque não foi apenas uma simples aposta. Apoiada por capacidade econômica, influência, poderio militar e determinação estratégica, sem muita alarde, a China demonstrou seu poder estrutural, e acho que isso é algo muito inédito”, afirma o especialista.

“Minha interpretação é que existe um elemento de desespero americano em relação à ascensão da China. Trump é um reflexo disso”, diz Otero. “Eles não conseguiram conter essa ascensão por meio de ações multilaterais, por meio de alianças. Agora, acham que, recorrendo à força, conseguirão colocar todos na linha.”

Mas, por ora, o que eles conseguiram foi destacar os pontos fortes da China. Todos viram e notaram como Trump reagiu à ofensiva chinesa. Também notaram como ele teve que adiar sua tão aguardada visita de Estado a Pequim, uma empreitada impossível para ele, dada a fragilidade causada pela guerra descontrolada com o Irã.

Canadá

A China é coprotagonista em outra das principais lições aprendidas com os reveses de Trump neste segundo mandato: sua fracassada campanha de pressão contra o Canadá. Desde o início de sua presidência, o presidente americano expressou o desejo de transformar o país vizinho em um novo estado da União Americana, atacando-o com uma enxurrada de tarifas e interferindo em sua política interna. O resultado foi uma forte reação de orgulho nacional canadense, o colapso, durante a campanha eleitoral, do partido com a ideologia mais próxima do trumpismo e a vitória de Mark Carney, que posteriormente se tornou um líder político e intelectual da resistência global ao trumpismo e o promotor de uma reconfiguração das relações de seu país com a China.

“Independentemente da opinião que se tenha sobre Donald Trump e sua abordagem à política externa, uma coisa pode agora ser afirmada com alguma segurança: ele está agindo como um acelerador histórico, forçando tanto aliados quanto adversários a reavaliarem suas posições econômicas e de segurança em tempo real e com efeitos concretos”, disse Philippe Rehault, diretor do Instituto da China da Universidade de Alberta, em resposta por escrito a perguntas.

“Ao fazer isso”, continua o professor, “ele também está forçando até mesmo aliados e parceiros de longa data a reavaliarem seu relacionamento com Pequim. O verdadeiro revés para Trump não é simplesmente o fato de países como o Canadá estarem respondendo com resistência. É que sua postura pode estar minando a hierarquia de confiança sobre a qual o poder americano entre seus aliados sempre se baseou.”

O Canadá, devido à sua exposição única aos EUA por conta da proximidade geográfica, é um laboratório privilegiado para observação. “O impacto tem sido profundo. Os comentários de Trump sobre o '51º Estado' e sua postura comercial agressiva em relação ao Canadá estão abalando o país, tirando-o de sua complacência habitual e impulsionando-o a acelerar seus esforços em direção à diversificação comercial, maior resiliência e uma reavaliação mais ampla de suas opções externas”, continua Rehault. Nesse contexto, a mudança nas relações com a China, após anos de laços altamente problemáticos, é significativa.

“O que mudou não é exatamente que o Canadá tenha desenvolvido um afeto profundo ou renovado pela China. Mas há uma crescente aceitação — especialmente nos círculos comerciais e estratégicos — de que a China deve ser considerada, ao menos seletivamente, como parte de uma estratégia mais ampla de proteção contra a volatilidade, a beligerância e a imprevisibilidade dos Estados Unidos”, comenta Rehault.

O episódio canadense ilustra uma dinâmica que, embora ainda não seja um padrão totalmente estabelecido, está, no entanto, enviando sinais significativos: os excessos de Trump têm efeitos negativos sobre as forças alinhadas ao trumpismo. A vitória de Carney não é o único exemplo. As eleições dinamarquesas foram positivas para os líderes da resistência contra os EUA. Onde ele ataca, beneficia a resistência. E mesmo onde não há ataques diretos, em alguns casos seus excessos prejudicam seus aliados. Não há dúvida de que a proximidade com Trump não ajudou Meloni em seu recente referendo fracassado; na Austrália, no ano passado, o Partido Trabalhista venceu.

Groenlândia

Outro episódio problemático para a Casa Branca, e repleto de lições para o mundo, foi a campanha de Trump para anexar a Groenlândia, a qualquer custo, como ele mesmo afirmou. A ofensiva encontrou resistência constante da Dinamarca e de seu território ártico — que, segundo relatos recentes, chegou a se preparar para uma resistência militar contra uma possível invasão — e de países europeus que se uniram em seu apoio. O resultado foi tensão política, turbulência nos mercados e uma mudança de posição anunciada por Trump no Fórum de Davos.

“Podemos chamar isso de derrota completa, o fracasso de alguém que se acha todo-poderoso, o que não é”, afirma Diego López Garrido, diretor da Fundación Alternativas (Fundação Alternativas). O ex-secretário de Estado para Assuntos Exteriores acredita que a reação “funcionou porque houve uma solidariedade absoluta em torno da Dinamarca diante da ameaça de Trump. Em outras palavras, é a prova de que, quando a União Europeia demonstra uma atitude de unidade na diversidade, como afirma o Tratado, quando demonstra essa atitude, funciona. Quando a União Europeia adota uma postura tímida, perde, sempre perde.”

O mundo inteiro assistiu, atônito, à possibilidade de um ataque militar dos EUA contra um aliado europeu, enquanto esse aliado e outros se preparavam e se mobilizavam diante dessa possibilidade, e enquanto Washington recuava num piscar de olhos, apesar da veemente afirmação de seu líder de que o controle do território ártico era necessário para a segurança nacional de seu país.

O mundo inteiro também observou como, um mês antes dessa reviravolta em Davos, em dezembro, o Congresso dos EUA aprovou um orçamento de defesa que inclui medidas que limitam significativamente o poder do presidente de reduzir o número de tropas enviadas para a Europa. Embora claramente em declínio, como concluem estudos recentes do V-Dem e da Freedom House, a democracia americana ainda resiste aos excessos de Trump, como demonstrado pela decisão da Suprema Corte contra a forma como a Casa Branca conduziu a guerra comercial. Essa resistência também é uma lição relevante a ser aprendida com os reveses de Trump.

Leia mais