Cada vez mais perguntas surgem antes de uma Copa do Mundo ofuscada por Trump

Foto: Joshua Hoehne/Unsplash

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27 Março 2026

Nos Estados Unidos, pouco se fala sobre o maior evento esportivo do mundo dois meses e meio antes da partida de abertura.

A reportagem é de Nicholas Dale Leal, publicada por El País, 26-03-2026.

Nos Estados Unidos, todos se perguntam quando terminarão as filas intermináveis ​​nos aeroportos, causadas pela paralisação parcial do Departamento de Segurança Interna. Poucos, no entanto, questionam — dada a natureza caótica do governo — o que acontecerá se essa situação persistir até junho, quando começa a Copa do Mundo e são esperados 6 milhões de viajantes. O maior evento esportivo do mundo, com 48 seleções e 104 partidas, foi completamente ofuscado pelo presidente Donald Trump, que está gerando incertezas sobre a organização do evento.

A guerra com o Irã levantou uma grande questão que permanece sem resposta: a participação da seleção nacional daquele país. Trump comentou sobre o assunto em 12 de março: “A seleção iraniana de futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas eu realmente não acho apropriado que eles estejam lá, para a segurança deles”, escreveu ele nas redes sociais, em uma declaração que muitos interpretaram como uma ameaça velada. O Ministro do Esporte iraniano afirmou que não vê “nenhuma possibilidade” da participação do Irã, mas os jogadores e a federação de futebol deixaram claro que desejam competir.

A FIFA está cuidando do caso. O Irã tem pelo menos três partidas agendadas em Los Angeles e Seattle, e possivelmente mais se se classificar em seu grupo, que inclui Bélgica, Egito e Nova Zelândia. O México, um dos três países-sede juntamente com o Canadá, declarou que estaria disposto a sediar os jogos do Irã, se necessário. Os organizadores descartaram essa possibilidade esta semana, deixando a questão sem solução. Há especulações de que outra seleção possa substituir o Irã nas próximas semanas, após a conclusão das partidas da repescagem.

A incerteza sobre a possibilidade de participação desses times se estende aos torcedores. E não apenas aos iranianos. Trump implementou um sistema restritivo de processamento de vistos para estrangeiros, incluindo a proibição de entrada para cidadãos do Haiti, Costa do Marfim, Senegal e República do Congo, país que disputa uma vaga nos próximos dias. Nem o governo americano nem a FIFA anunciaram qualquer plano alternativo, o que deixaria essas seleções com apoio muito limitado nas arquibancadas.

Mesmo aqueles elegíveis para visto podem se ver impossibilitados de viajar para os Estados Unidos. Os EUA anunciaram um processo acelerado para quem possui ingressos para a Copa do Mundo em seu nome. Isso inclui entrevistas e taxas que podem ultrapassar US$ 500, sem contar o depósito reembolsável de US$ 15.000 para algumas nacionalidades. No entanto, o tempo de espera aumentou e algumas pessoas podem não receber seus vistos a tempo. Muitas podem até optar por nem tentar, dada a dificuldade e o custo.

Dúvidas sobre o financiamento do Departamento de Segurança Interna (DHS) e as operações aeroportuárias pairam sobre a organização do torneio. Há alguns dias, o Departamento de Segurança Interna finalmente liberou os US$ 625 milhões prometidos às cidades-sede para cobrir despesas com segurança. Anteriormente, vários comitês organizadores haviam alertado que seriam forçados a cancelar eventos relacionados aos jogos, como festivais para fãs onde as partidas podem ser assistidas em telões gigantes em espaços públicos.

A presença de agentes do ICE em estádios e festivais de torcedores é outra preocupação. Agentes de imigração têm aterrorizado as ruas há um ano com batidas baseadas em perfilamento racial. O diretor interino da agência, Todd Lyons, recusou-se em fevereiro a esclarecer se haveria ou não agentes atuando durante a Copa do Mundo. A deputada democrata Nellie Pou, de Nova Jersey, apresentou um projeto de lei na semana passada para proibir a presença do ICE nos arredores dos estádios e em festivais relacionados.

“A Copa do Mundo deveria unir o mundo, não deixar famílias se perguntando se agentes da imigração estarão esperando do lado de fora dos estádios”, declarou Pou. “Não pode haver um torneio de sucesso se torcedores e jogadores tiverem que ficar constantemente olhando por cima do ombro”, acrescentou.

Preços altos, arquibancadas vazias e temperaturas extremas

Esses problemas são agravados por outras questões mais gerais, não diretamente relacionadas à forma como o governo Trump lidou com a situação. Os preços exorbitantes dos ingressos ontem levaram a uma reclamação de grupos de torcedores contra a FIFA perante a Comissão Europeia; e o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, também se manifestou repetidamente contra os preços, que considera excludentes e discriminatórios, com ingressos para a final custando mais de US$ 8.000.

A experiência da primeira edição do Mundial de Clubes e da Copa América, ambas realizadas nos Estados Unidos no ano passado, também levanta outras preocupações. Embora haja grande interesse nas partidas das fases eliminatórias e com a participação de seleções de ponta, os jogos da fase de grupos entre seleções menos conhecidas provavelmente terão menor público. É possível que vejamos uma repetição dos estádios meio vazios que prejudicaram o resultado geral dessas competições.

Da mesma forma, o calor extremo que assolou aquele torneio, bem como as tempestades de verão inesperadas que forçaram o adiamento de partidas por horas, também representam ameaças. Por um lado, a saúde dos jogadores pode ser afetada por jogarem em temperaturas acima de 35°C, em estádios não equipados com sistemas de climatização como os instalados no Catar em 2022, e durante os horários de pico de calor, escolhidos para acomodar o público global. Por outro lado, esses planos de programação, que visam maximizar a audiência, podem ser prejudicados por longos atrasos causados ​​por tempestades.

São muitas perguntas que, em meio à preocupação em acompanhar o comportamento errático de Trump, poucos fazem e menos ainda respondem. Por ora, a menos de 80 dias do início do torneio, elas não estão no radar do debate público nos Estados Unidos. O tempo dirá se a aparente apatia em relação ao maior evento esportivo do mundo foi um erro e se esses problemas acabarão se materializando. Ou se, ao contrário, são apenas pequenos tropeços em um evento gigantesco que nem mesmo Trump consegue sabotar.

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