19 Março 2026
A guerra que Israel e Estados Unidos travam contra o Irã não é uma guerra deles. É nossa. Independente do que demonstrarem o poder das forças militares e das armas, ela está perdida. O grande derrotado, seja em Gaza, seja na Ucrânia, seja no continente africano, é o gênero humano, que ainda disputa suas diferenças pela força, quando a cooperação produz os bons resultados.
O artigo é de Edelberto Behs, jornalista.
Eis o artigo.
Não dá para não ver como uma derrota a escola ser atingida por um míssil americano, no Irã, matando 176 pessoas, entre meninas escolares e funcionárias. A grande dúvida: era esse mesmo o alvo ou tratava-se de um suposto depósito de armamento? Com a tecnologia de guerra hoje disponível, com drones, robôs, miras telescópicas, um erro dessa envergadura é imperdoável.
Como justificar a morte de civis, que não fazem a guerra, seja na Ucrânia, em Gaza, na Cisjordânia, aonde for no mapa mundial, senão pela barbárie da qual a humanidade ainda não se libertou. Somos primitivos, embora tenhamos à nossa disposição internet, telefonia móvel, diagnósticos por computador, carros elétricos, veículos que levam astronautas à lua...
A Faixa de Gaza é o símbolo maior dessa insanidade. Dois milhões de pessoas não têm para onde ir, a não ser esperar a próxima bomba que vai destruir prédios, soterrar gente, não importa se mulheres, gestantes, crianças, idosos, enfermos, coxos, cegos... É preciso acabar com a raça, custe o que custar.
Os senhores da guerra passam, então, por cima do que existe acordado, seja pela Organização das Nações Unidas, seja pela Declaração dos Direitos Humanos, seja pelas admoestações de organismos religiosos, como a Igreja Católica Romana e o Conselho Mundial de Igrejas. São letra morta, mesmo que falem ou condenem o que deve ser condenado. Trump faz ouvidos moucos.
Aliás, o presidente dos Estados Unidos, que têm a maior força bélica do mundo à mão, tem se mostrado um péssimo estrategista no tabuleiro do xadrez internacional. Ele não conhece geografia. Quantos navios petroleiros estão ao sabor do vento no Estreito de Ormuz, fechado pela Marinha iraniana, que Trump disse sequer existir. Ora a guerra contra o Irã estava com seus dias contados, agora sequer sabem como vai acabar.
Como já alertava o chanceler alemão Otto von Bismarck: “Nunca se mente tanto quanto antes das eleições, durante a guerra e após a caçada.” Está difícil filtrar, tanto na guerra da Ucrânia, quanto no Oriente Médio, o quê é o quê, quem fala e mostra a real, quando até meios de imprensa tomam um lado. E mesmo que a opinião pública estadunidense seja contra a guerra, Trump já declarou que não liga para pesquisas.
Mas nós ligamos. Por isso a guerra também é nossa, embora não tenhamos nenhum soldado brasileiro, latino-americano, africano, asiático metido nesse imbróglio. Encoste o carro numa bomba de gasolina e observe quanto está o preço do combustível, do óleo diesel, para se dar conta que o mundo está interligado e se o Estreito de Ormuz está fechado isso traz consequências para a humanidade.
Subiu o diesel, subiu a gasolina, produtos que dependem de escoamento passam, automaticamente, a custar mais. As carências aumentam, a fome aumenta, a ansiedade aumenta, o temor aumenta, a desilusão como futuro aumenta... Por isso a guerra também é nossa e já está perdida desde saída, porque não temos voz ativa e quem tem já foi calado ou vilipendiado, como é o caso da ONU.
Ela entra também num estágio de briga religiosa. Como afirmou o secretário americano de Guerra, Pete Hegseth, em programa de televisão, “estamos lutando contra fanáticos religiosos que buscam capacidade nuclear para um Armagedom religioso”. Ou seja, a luta do bem contra o mal, para impedir que o outro lado tenha o que já temos: a capacidade nuclear.
As tropas do bem “precisam de uma conexão com seu Deus Todo-Poderoso nesses momentos”, e Trump também acredita nisso, segundo o secretário guerreiro. E tem até um grupo de pastores que esteve esses dias no poderoso salão oval orando com o presidente pelo sucesso das forças estadunidenses e israelenses.
O indicativo bíblico de que Deus é o criador do céu e da terra e de tudo e de todos os que nela habitam, também os diferentes, cai no esquecimento providencial desses evangélicos. Eles preferem lembrar versículos que apresentam o Senhor dos exércitos, como o conquistador da terra para os judeus. Ou seja, engrossam o marketing para o Estado de Israel.
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