13 Março 2026
Como em tantas outras passagens em que Jesus confronta os fariseus, vemos o contraste entre aqueles que afirmam guardar a lei e aqueles que não a guardam, e se estes são capazes de ouvir e crer.
O comentário é de Consuelo Vélez, teóloga colombiana, publicado por Religión Digital, 10-03-2026.
Eis o comentário.
Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. Os discípulos lhe perguntaram: “Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?” Jesus respondeu: “Nem este homem nem seus pais pecaram; mas isto aconteceu para que as obras de Deus se manifestassem nele. (...) Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.” Depois de dizer isso, cuspiu no chão, fez lama com a saliva e a aplicou nos olhos do homem. “Vá”, disse-lhe, “lave-se no tanque de Siloé.” O homem foi, lavou-se e voltou vendo. Os vizinhos e os que antes o tinham visto mendigar perguntaram: “Não é este o homem que costumava sentar-se e mendigar?” Alguns disseram: “É ele.” Outros disseram: “Não, ele apenas se parece com ele.” Mas ele mesmo disse: “Sou eu.” Então lhe perguntaram: “Como, então, seus olhos foram abertos?” Ele respondeu: “O homem chamado Jesus fez lama, aplicou-a nos meus olhos e disse-me para ir lavar-me no tanque de Siloé”. Fui, lavei-me e recuperei a vista. Perguntaram-lhe: “Onde ele está?” Ele respondeu: “Não sei”. Levaram então aos fariseus o homem que fora cego. Ora, era sábado quando Jesus fez a lama e lhe abriu os olhos.
Os fariseus perguntaram-lhe novamente como ele havia recuperado a vista. Ele respondeu: “Ele aplicou lama nos meus olhos, eu lavei-os e agora vejo”. Alguns dos fariseus disseram-lhe: “Este homem não é de Deus, pois não guarda o sábado”. Outros disseram: “Como pode um pecador realizar tais milagres?” E estavam divididos. Perguntaram novamente ao cego: “O que dizes dele, visto que te abriu os olhos?” Ele respondeu: “É um profeta”. (...) Responderam-lhe: “Tu nasceste em pecado e queres ensinar-nos?” E expulsaram-no. Jesus ouviu que o tinham expulsado e, encontrando-o, perguntou-lhe: "Você crê no Filho do Homem?" Ele respondeu: "Quem é ele, Senhor, para que eu creia nele?" Jesus disse: "Você já o viu, e é ele quem está falando com você." Ele respondeu: "Eu creio, Senhor." E ajoelhou-se diante dele. Jesus disse: "Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os cegos vejam e os que veem se tornem cegos." Alguns fariseus que estavam com ele perguntaram: "E nós? Somos cegos?" Jesus respondeu: "Se vocês fossem cegos, não teriam pecado; mas agora que afirmam que veem, a culpa de vocês permanece" (João 9,1-17, 34-41).
Neste quarto domingo da Quaresma, a liturgia nos oferece outro encontro entre Jesus e uma pessoa, neste caso, um homem cego de nascença. O texto apresenta vários detalhes a serem considerados. Começa com a crença dos discípulos na lei da retribuição, segundo a qual o mal que acomete uma pessoa está ligado à sua própria casa ou à de seus pais. Jesus não aceita essa lei e expressa isso aos seus discípulos. O evento ocorre no sábado, e a cura é realizada com barro que Jesus coloca sobre os olhos do cego. Trabalhar com barro no sábado é inaceitável para o repouso sabático, assim como curar nesse dia. Com isso, já vemos a posição de Jesus sobre a Lei: ela deve estar a serviço da vida, e não o contrário.
Mas o ponto central do texto deriva da declaração de Jesus sobre si mesmo: "Eu sou a luz do mundo", e precisamente por ser luz, ele pode restaurar a visão do cego. Ele o faz, mas o cego ainda não sabe quem Jesus é. Quando o cego retorna curado à sinagoga, é questionado pelos fariseus sobre quem o curou. O cego conta-lhes como tudo aconteceu, mas ainda vê Jesus apenas como um homem que lhe devolveu a visão. Os fariseus, por sua vez, não aceitam tal cura — embora alguns pareçam ceder, argumentando que como ele poderia realizar tais milagres se Jesus fosse um pecador? Contudo, eles se recusam a acreditar e expulsam o homem curado da sinagoga.
Quando Jesus fica sabendo da expulsão, encontra o homem novamente e lhe pergunta diretamente se crê no Filho do Homem. O cego pergunta quem é ele para que possa crer, e Jesus revela que é ele mesmo. De fato, o cego crê e não apenas afirma isso, como se prostra diante dele. Mas os fariseus não creem e lhe perguntam se são cegos. Jesus responde que, se fossem cegos, não teriam pecado, mas afirmam ver e se recusam a reconhecer em Jesus a luz que há de vir ao mundo. Portanto, o pecado permanece neles.
Como em tantas outras passagens em que Jesus confronta os fariseus, vemos o contraste entre aqueles que afirmam guardar a lei e aqueles que não a guardam, e se estes são capazes de ouvir e crer. É por isso que eles conseguem ver e reconhecer Jesus como o Filho do Homem. O texto nos convida a questionar se nós também cremos ou se, como os fariseus, permanecemos no pecado. A Quaresma, tempo de conversão, nos convida a crer em Jesus, rompendo com toda a nossa cegueira.
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