03 Março 2026
Os filhos de Arce, que está detido desde julho de 2025, relatam que seu pai foi retirado da prisão em estado crítico e temem que ele sofra o mesmo destino de outros presos políticos que morreram sob custódia.
A reportagem é de Wilfredo Miranda Aburto, publicada por El País, 03-03-2026.
Os seis filhos de Bayardo Arce, comandante histórico da Revolução Sandinista e ex-conselheiro presidencial, vivem em incerteza há uma semana. Segundo informações não oficiais recebidas pela família, Arce foi retirado da prisão La Modelo, em Manágua, na noite de 26 de fevereiro em “estado delicado” para ser transferido a um hospital. Diante do silêncio das autoridades, a família exigiu na segunda-feira que o regime de Daniel Ortega e Rosario Murillo forneça “prova imediata de vida” e permita visitas para verificar seu estado de saúde.
A última vez que a família viu o ex-braço direito do presidente foi em 7 de dezembro de 2025. Naquela época, Arce já apresentava deterioração física visível, agravada pelo confinamento e por doenças crônicas, além da suspeita de melanoma em um dos braços. “Hoje, quase três meses depois, não sabemos seu estado atual, o que nos deixa em constante angústia e desolação. Isso o coloca, mais uma vez, em situação legal de desaparecimento forçado”, afirmou a família em carta endereçada a Ortega, tornada pública nesta segunda-feira. “Nosso pai permanece detido arbitrariamente em condições que carecem de quaisquer garantias processuais. Ele tem sido submetido a tratamento que constitui tortura física e psicológica: isolamento absoluto e privação de cuidados médicos especializados”, disseram os seis filhos do ex-braço direito de Ortega.
Arce, o último dos comandantes da Revolução que permaneceu ao lado de Ortega, caiu em desgraça em julho de 2025. Ele foi preso violentamente como parte de uma purga interna liderada pelo chamado copresidente Rosario Murillo, uma caça às bruxas contra figuras que a liderança considera obstáculos à sucessão dinástica. Seu assistente, Ricardo Bonilla, desapareceu junto com ele, e seu paradeiro permanece um mistério.
Em janeiro passado, após os primeiros seis meses de detenção incomunicável na prisão de La Modelo, a família de Arce, exilada, denunciou o "medo por sua vida". Três dias depois, o regime, por meio da Procuradoria-Geral da República (PGR), o acusou formalmente de supostos crimes de corrupção, fraude fiscal e lavagem de dinheiro. Ele é acusado de desviar a impressionante quantia de US$ 5 bilhões. O processo, conduzido sem acesso a representação legal independente, também envolve sua esposa, Amelia Ybarra, e seu cunhado, ambos exilados.
O espectro da morte sob custódia
Os temores dos filhos de Arce não são infundados. Nos últimos anos, o padrão de presos políticos que morrem sob custódia após serem transferidos secretamente para hospitais tem se repetido na Nicarágua. Os casos do general reformado Hugo Torres e de Humberto Ortega Saavedra, irmão do próprio presidente, são os precedentes mais recentes. Em 2025, em menos de quatro meses, Mauricio Alonso e Carlos Cárdenas foram presos por motivos políticos. Nenhuma acusação formal foi apresentada contra eles, nem suas famílias foram informadas sobre seu paradeiro. Algum tempo depois, as autoridades anunciaram suas mortes sob custódia e liberaram seus corpos para sepultamentos apressados sob coação.
A família de Arce também não recebeu nenhuma informação sobre seu estado de saúde, então a notícia de sua hospitalização, publicada por diversos veículos de comunicação, obrigou seus filhos, pela primeira vez, a se dirigirem publicamente ao casal presidencial. “A situação se agrava com a informação que recebemos de que ele está hospitalizado em estado grave, circunstância da qual nossa família não foi oficialmente notificada. Tememos que a combinação de isolamento, castigo, doença, peso e idade possa levar à sua morte”, enfatizam os filhos. “Nosso temor não é infundado. Tendo observado padrões em situações semelhantes, estamos preocupados que esse modus operandi possa ser fatal para nosso pai”, alertam.
Eles fazem um apelo direto a Ortega e Murillo: “Como família, exigimos urgentemente de Rosario Murillo e Daniel Ortega, e de todo o aparato estatal que os apoia, informações oficiais sobre o estado de saúde e a localização exata de nosso pai, Bayardo Arce. Exigimos prova pública imediata de que ele está vivo e acesso a visitas familiares para que possamos verificar pessoalmente seu estado, tomando com urgência as medidas humanitárias que todo preso político merece, acima e além de filiações políticas”, pedem os seis filhos.
A gravidade do caso levou o Mecanismo para o Reconhecimento de Presos Políticos a incluir Arce em sua lista oficial pela primeira vez na semana passada. A organização esclareceu que essa decisão não se baseia em sua trajetória política ou em seu papel histórico na Frente Sandinista, mas sim nas flagrantes violações do devido processo legal e na motivação política por trás de sua detenção. Para as organizações de direitos humanos, o caso de Arce reflete um aprofundamento do padrão repressivo na Nicarágua, que agora se estende com a mesma voracidade a figuras históricas dentro do próprio partido governista, em meio a uma luta interna pelo poder.
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