‘Eles podem ter o poder do dinheiro, mas nós temos muito mais’, diz Alessandra Munduruku após ocupação na Cargill

Foto: ONU Brasil | Tiago Zenero

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27 Fevereiro 2026

'Nós temos muito mais poder: a nossa vida, o território, o espírito, a terra', diz a liderança indígena.

A reportagem é de Ana Rosa Carrara e Lucas Salum, publicada por Brasil de Fato, 26-02-2026.

Em resposta à mobilização de mais de um mês de mais de 20 povos indígenas que ocuparam o terminal da Cargill, em Santarém (PA), o decreto 12.600 de 2025, que pretendia conceder para empresas privadas a realização do tráfego de embarcações nos rios Madeira, Tocantins e Tapajós, foi revogado pelo Governo Federal.

Alessandra Munduruku Korap, uma das principais lideranças indígenas do Brasil, em entrevista ao Conversa Bem Viver, descreveu como “histórica” a mobilização que demonstrou a vida e resistência dos povos indígenas. “A gente percebe essas matanças do Rio, da floresta, a gente vê crescendo muito plantação de soja, milho, mineradoras, entrando, garimpo, prédio, loteamento. Quando vêm, vêm matando para dar espaço para o homem. Enquanto isso, vai enfraquecendo o nosso território.”

Na presença de muitas mulheres à frente da organização da ocupação, Alessandra enxerga uma relação com a coragem natural em lidar com diferentes dores na vida, mas ressalta que a “dor de perder não é uma dor com que as mulheres indígenas se acostumam”. “A gente prefere entrar para o confronto sabendo que tem bebê no colo, as crianças segurando a mão para entrar com todas as forças. Mas as mulheres são muito porretas, admiro muito as mulheres”, diz.

Apesar da quantidade de etnias envolvidas na mobilização, a liderança indígena comenta que em nenhum momento isso dificultou a comunicação durante o ato. “Fortaleceu a nossa união, até mesmo para daqui para frente a gente trazer mais povos que estão sendo perseguidos para se reunir e mostrar para o mundo todo que nós somos capazes de dialogar, de cantar, de pintar, de estar junto”.

‘A gente não pode baixar a cabeça’

Sobre a articulação do protesto, ela conta que a mobilização foi crescendo aos poucos. “O cacique já tinha me ligado falando das decisões deles. E quando eu vim, eles já estavam há 12 dias acampados num grupo de apenas 57 pessoas, se eu não me engano. Pouquíssimas pessoas, mas estavam lá”, recorda. “Então eu falei: ‘não cancela que nós vamos chegar”.

“Quando nós chegamos, no outro dia, fechamos a estrada do aeroporto, Os jovens já estavam todos alinhados. Fomos lá chamar a atenção. Até aquele momento, as pessoas não estavam se importando. Quando a gente fechou o aeroporto, veio todo mundo, inclusive os blogs de Santarém”, diz.

Nesse ponto, Alessandra Munduruku critica a imprensa comercial, que muitas vezes recebe financiamento do próprio agronegócio. “Apesar dos indígenas serem do município, tinha mais gente falando por fora do que pessoas falando aqui dentro. E os nossos jovens estavam todo dia divulgando, mas parece que ninguém estava ligando. Parece que só acreditam quando um não indígena divulga”, diz. “Um Jornal Nacional, por exemplo, é um jornal da mídia que muitas vezes quem paga é o agronegócio e eles não vão divulgar esse assunto. Então, nós temos que ter uma articulação própria de comunicação”, aponta.

“Sempre falei assim para os parentes: a gente não pode baixar a cabeça. Parece que eles têm todos os poderes. Eles podem ter os poderes do dinheiro, os poderes de dizer que eles compram alguém, mas nós temos muito mais poder: a nossa vida, o território, o espírito, a terra”, reforça.

‘Vamos ter que nadar’

Um dos episódios mais marcantes da mobilização, conforme conta Alessandra, foi o momento em que os indígenas nadaram no Rio Tapajós para ocupar o terminal.

“Quando a gente resolveu fazer a passeata no barco, veio todo mundo em cima de nós, inclusive a Marinha. Os comandantes dos barcos ficaram todos preocupados, [achando que] eles iam ser processados, que eles iriam nos perseguir. Mas os guerreiros e as mulheres falaram assim: ‘Vamos ter que nadar para chegar lá. Vamos para lá’. Já estamos acostumados com o rio, estamos acostumados a nadar, brincar e por que não fazer enfrentamento com essa sorte? Toda vez que eu falo, eu me arrepio muito porque eu sinto muito vivo ainda. Ninguém está morto, por mais que os nossos espíritos tenham ido, eles estão muito presentes diante de nós”, conta.

Ela explica que o objetivo, naquele momento, era dar uma volta de barco na orla para ver “como estava”. “A nossa ideia era encostar, mas não podia. Na hora que vimos o barco voltando, foi que pulamos. Os guerreiros pulando, eu pulei, as outras mulheres pularam. Foi todo mundo pulando, foi muito bonito. Foi uma conexão. Parece que os espíritos falavam: ‘Vai, não desiste, vai que vocês vão ganhar’. Foi muito cansativo, mas a gente precisa chamar a atenção.

Alessandra reforça que a ligação dos povos indígenas com o rio, a terra e a natureza é ancestral. “Todo dia as crianças falavam: ‘Não quero o rio morto, eu não quero que mate meu rio’ (…) Essa ligação é muito ancestral, muito antiga e hoje, olhando para as crianças, sei que elas sabem o que querem. Esse é o bem viver mais precioso que nós temos. Não é uma ligação só para os caciques, não é uma ligação só com as mulheres. É uma ligação em conjunto. A gente trabalha junto, choramos juntos, gritamos juntos.

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