“Uma nova civilização está sendo construída, a civilização da onipotência”. Entrevista com Gilles Lipovetsky

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24 Fevereiro 2026

Poucos dissecam as sociedades contemporâneas como o filósofo e sociólogo francês Gilles Lipovetsky. A crise da autoridade, a masculinidade em xeque e a sociedade do medo são alguns dos temas abordados pelo autor de A era do vazio. Lipovetsky tem buscado detectar, de modo muito original e misturando filosofia, história e sociologia, a evolução das mentalidades, as práticas sociais e os costumes, atribuindo-lhes um significado social.

A entrevista é de Paula Escobar, publicada por La Tercera, 21-02-2026. A tradução é do Cepat.

Cavaleiro da Legião de Honra Francesa, a mais alta distinção concedida pelo Estado francês, e doutor honoris causa de diversas universidades, é autor de A nova era do kitsch: ensaio sobre a cultura do ‘excesso', em coautoria com o crítico de cinema Jean Serroy. Nele, analisam essa estética - considerada vulgar - que hoje está presente em todas as partes e que, para ele, é símbolo de uma nova era. Uma era ostentosa e sem limites, que busca transgredir todos os limites do poder humano.

Da França, via Zoom, Lipovetsky conversou com La Tercera sobre o kitsch e seus ícones. Também sobre o seu novo livro em francês, L’Odyssée de la Surpuissance.

Eis a entrevista.

Para começar, por que, entre todos os temas relacionados à hipermodernidade já abordados em seus diversos livros, o fenômeno do kitsch lhe interessou agora?

Passei a me interessar pelo kitsch porque houve uma mudança de perspectiva. Desde o século XIX, o kitsch era visto como algo sem valor, de mau gosto. Mas, a partir dos anos 1980, talvez tenhamos passado a presenciar uma mudança completa. O kitsch, antes desprezado, agora é celebrado, valorizado e exibido nos melhores museus do mundo. Isso é muito incrível, porque quando se lê artistas e intelectuais até 1960, eles o detestavam. O kitsch era associado ao asco. E, de repente, algo mudou. O que aconteceu? O significado global do kitsch mudou.

Durante muito tempo, o kitsch esteve associado a coisas pequenas e cotidianas. Eram bugigangas, lembrancinhas, móveis, cópias fixadas nas paredes... E agora o kitsch penetrou em todos os lugares. Então, um novo mundo está emergindo, impulsionado por novos valores. Como você viu no livro, a hipótese geral é que vivemos uma nova era. É importante destacar este ponto, já que, geralmente, o kitsch nos é apresentado como uma categoria estética que sempre permaneceu a mesma. E perdemos de vista o ponto fundamental: o kitsch dos anos 2000 e 2020 não é mais o kitsch de antes.

Você disse que a Trump Tower, o ouro, o luxo ostentoso e até mesmo a retórica MAGA são a quintessência do kitsch. Como este livro estabelece um diálogo com a era Trump?

Temos um presidente estadunidense que personifica o mau gosto, a ostentação, a megalomania. O excesso, justamente, em tudo e sem fim. Então, se preferir, ele é a ilustração política do kitsch na era hipermoderna. Durante muito tempo, o kitsch esteve bastante presente em certas repúblicas das bananas da América Latina e da África, com chefes de Estado que eram ditadores insignificantes na história. Mas, hoje, Trump é a figura mais importante na maior potência mundial. Isto não é um simples detalhe. E vemos que a lógica do kitsch triunfou, inclusive, nos Estados Unidos.

Costumávamos dizer que a política havia se tornado entediante porque existia esta linguagem, como a chamávamos, do politicamente correto. Não se deve dizer coisas que ofendam as mulheres ou as minorias. Mas, agora, os mexicanos são chamados de chicanos, estupradores, comedores de cães e gatos. É extremamente vulgar. E ele (Trump) não tem respeito algum pela verdade. Despreza tudo isso. No período contemporânea, temos algo bastante interessante: a oposição entre dois tipos de kitsch.

Quais kitsch se opõem?

Há o kitsch da rainha Elizabeth, que faleceu recentemente na Inglaterra. É um kitsch tradicional, um kitsch respeitável. É kitsch; as pessoas a viam com seus chapéus roxos e vestidos amarelos. Mas ela personificava uma tradição, uma dignidade. Trump não tem nada disso; ele é kitsch vulgar. Sei que, tradicionalmente, o kitsch é vulgar, mas durante anos existiram outras categorias de kitsch que poderiam se distanciar disso.

Agora, com Trump, temos um fenômeno excepcional, que, de fato, é o tema do meu novo livro, que acaba de ser publicado na França. O livro se chama L’Odyssée de la Surpuissance. E o superpoder, hoje em dia, materializa-se em um personagem hiper-kitsch. Não apenas um pouco kitsch: é um kitsch colossal. Na linguagem, nos gestos, na estética, na vulgaridade.

Como você explica o fenômeno Trump e outros como ele? O que pode combatê-lo?

Voltemos um pouco à dissolução da União Soviética, em 1991, à queda do Muro de Berlim e sua posterior implosão, marcas do início de um período conhecido como a “globalização feliz”, com Fukuyama e sua teoria do “fim da história”. Este período se caracterizou pela ideia de que, com o desaparecimento das ideologias em conflito, caminhávamos para uma era de paz e de consagração da democracia. Após eliminar os regimes totalitários e, em particular, o comunismo, a democracia havia triunfado. A história refutou cruelmente as teorias de Fukuyama porque, em primeiro lugar, a guerra retornou e, em segundo lugar, a fase ascendente da democracia terminou.

De fato, vivemos em um momento de retrocesso democrático.

Sim. O número de democracias liberais está diminuindo no mundo e, mesmo dentro das democracias, com o populismo, pode-se dizer que a democracia de alguma forma perdeu seu caráter sexy. É como se a democracia não fosse mais desejável. Na Europa, isso também começou a ganhar terreno. Está aí Milei, seu vizinho. O Brasil, felizmente, deteve Bolsonaro; foi justo, havia planejado um golpe de Estado. Trump não gosta da democracia, prefere as ditaduras à democracia. Vivemos tempos muito difíceis.

Será que isso vai durar?

Não é possível ser profeta nessas coisas. Eu simplesmente acredito que o próximo passo decisivo são as eleições de meio de mandato. Foram os estadunidenses que votaram em Trump. São eles que votarão (...) Não estou sendo apocalíptico; devemos ser cautelosos, mas é certo que a era do triunfalismo democrático acabou. A democracia está na defensiva… A democracia liberal será mantida? Não sei. Está fragilizada. É inegável que a democracia está sendo fragilizada porque nosso melhor aliado, os Estados Unidos, está nos abandonando.

A Europa pode ser muito criticada, mas, em termos gerais, é um continente democrático. E nos odeiam e querem desmantelar a União Europeia. Mas não temos os meios, não temos a força. E, desde a Segunda Guerra Mundial, os líderes políticos se equivocaram ao pensar que poderiam viver simplesmente do que agora é chamado, em termos diplomáticos, dividendo da paz. Os estadunidenses nos protegem, então, não investimos em defesa, nem em armamentos, exceto na França… Não podemos mais depender do guarda-chuva estadunidense. Essa era acabou. Trump só reconhece a força.

O que fazer?

Não sou político, mas o Ocidente está rachando: existe o Ocidente norte-americano e o que não é; não são a mesma coisa. Penso que a Europa precisa tomar as rédeas da situação. E tomar as rédeas da situação significa que, se você quer a paz, deve se preparar para a guerra. O continente europeu é rico. O problema é que suas populações não estão dispostas a fazer sacrifícios, então é complicado. Contudo, é necessário. Caso contrário, vamos nos tornar uma colônia estadunidense. Donald Trump fará conosco a mesma coisa que fez na Venezuela. Dirá: “Vejam, façam assim, e ponto”.

A era frágil

Você antecipou algumas questões cruciais: a crise da autoridade, da masculinidade, a democracia marcada pela insegurança. Considera que elas são importantes para explicar o presente?

Sim, mas devo acrescentar que há muitas coisas que não previ.

Como o quê?

Por exemplo, isto. Não acreditava que fosse possível o retorno da guerra à Europa. Jamais teria imaginado. E não era o único. Todos compartilhavam desse sentimento. Não previ a ascensão da extrema-direita. É verdade que os tempos mudam, isso é normal. Não sou metafísico; analiso as coisas conforme acontecem, e novas forças estão surgindo, e estamos entrando em uma nova era.

O século XXI não se parecerá com o século XX. E penso que, em parte, o que estamos experimentando se deve ao que analisei, mas também à outra força que agora é o tema do meu novo livro, como mencionei, que é a vontade de poder. Em meus livros anteriores, o paradigma dominante era o tocquevilliano. Ou seja, o avanço da revolução democrática. O fenômeno ao longo da história moderna o confirmou. Contudo, considero que algo está acontecendo que não é de tipo tocquevilliano.

O que é?

É a busca, a obsessão, pelo poder. O que Trump quer? O que Xi Jinping quer? Não é a democracia, de forma alguma. Querem aumentar constantemente seu poder. Dizem que é por segurança, por proteção. Não considero que seja verdade; são pretextos. Penso que querem o poder pelo poder. O que acontece hoje com a inteligência artificial, os robôs humanoides, as biotecnologias, as nanotecnologias, o capitalismo globalizado, (é que) a questão da democracia não é mais central. Esta é a questão do que eu chamo de superpoder, o poder colossal, poder infinito. Poder que rejeita todos os limites.

Não queremos mais nenhum limite. Trump não quer limites. Joga o direito internacional pela janela; não existe mais lei. Não existe mais moral. Sou seu amigo, tudo bem, mas me paga. Eu te defendo, mas me paga. Moralidade? Não existe moralidade. Existem apenas interesses e força. Desse modo, caminhamos para um novo mundo onde os conflitos de interesses e de forças serão, acredito, centrais. Uma civilização completamente nova está sendo construída, a que eu chamo de civilização da onipotência.

E o que acontece neste novo mundo?

Penso que o mundo vindouro será um mundo de poder desenfreado. É um poder que fragiliza as pessoas. Vemos que a extralimitação tecnológica e comercial está devastando o planeta, reduzindo a biodiversidade, provocando o aquecimento global com uma cascata de furacões, incêndios e tempestades terríveis, que resultam em centenas de milhares de mortes todos os anos. Amanhã, o nível do mar subirá. O que será do Caribe? Todas essas ilhas correm o risco de serem tragadas pelo aumento do mar. Um desastre se aproxima.

Então, vemos o paradoxo: enquanto a humanidade e a civilização hoje possuem poderes incríveis - planejamos ir a Marte, pretendemos colonizar o planeta, estamos inventando uma inteligência artificial incrível, inclusive, podemos ter filhos com os mortos -, hoje, uma pessoa falecida, por meio da inseminação artificial ou congelamento de esperma, pode se tornar pai. Todas as categorias estabelecidas são completamente transgredidas. Mas, ao mesmo tempo, esse enorme poder está acompanhado de uma grande fragilidade. As pessoas são frágeis, estão deprimidas, têm medo. Tememos a tudo. Tememos a poluição, o que comemos, perder o emprego, as ditaduras, a guerra, os imigrantes.

Como recuperar a relevância do bem comum, para além do bem individual, na esfera pública?

Duas coisas me parecem essenciais: a regulamentação e a educação. A regulamentação é um problema porque os estadunidenses não a querem. Querem um mercado livre porque os mercados se veem obrigados a ser mais poderosos e a gerar mais receitas. Mas um mundo sem regulamentação é um pesadelo. É a lei da selva. Uma sociedade civilizada deve estabelecer pautas, deve fixar padrões, mas o Estado estabelece as normas e os limites. Portanto, embora o poder dominante hoje seja cada vez mais tecnológico e econômico, o Estado desempenha um papel crucial. Devemos defender que a sociedade é mais do que apenas a economia. Então, precisamos regulamentar. Caso contrário, pagaremos um preço muito alto.

O segundo ponto é que, sem regulamentação, todas as formas de notícias falsas podem ser difundidas nas redes sociais. Precisamos educar os cidadãos. Devemos fazer mais do que simplesmente ensinar a ler, escrever e matemática. Devemos ensinar alfabetização midiática. Devemos ensinar as crianças a verificar a informação. É disso que se trata a educação. Se as pessoas usarem apenas as redes sociais e ficarem fechadas em suas bolhas, será um desastre.

Com certeza...

Não deveríamos nos concentrar apenas na crise das democracias. Há um fenômeno tecnocientífico considerável em jogo hoje. E não deveríamos sonhar com uma revolução contra o capitalismo. Não haverá uma. O capitalismo triunfou. Mas pode haver capitalismo inteligente. Existe o capitalismo predatório e o capitalismo apocalíptico. (Mas) acredito que podemos, e temos, modelos de capitalismo mais humanos, mais civilizados. Devemos civilizar o capitalismo. Não demonizá-lo.

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