"Delírio de onipotência de Elon. Aqueles que investem nele são cúmplices e vítimas". Entrevista com Paolo Benanti

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10 Fevereiro 2026

 

SOS Musk. "Aqueles que investem em seu delírio de onipotência são cúmplices e vítimas", afirma o padre Paolo Benanti, presidente da Comissão de IA do governo italiano, conselheiro do Papa Francisco em ética da tecnologia e da IA, e professor da Luiss Guido Carli.

A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publica por La Stampa, 04-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Surpreso com Elon Musk?

A escala da operação é impressionante. Nasceu a maior empresa privada do mundo, com uma avaliação combinada de 1,25 trilhão de dólares, que em junho, com novos investidores, se multiplicará por cem se tiver sucesso. E não se trata de uma transação isolada, mas um processo que começou há quase um ano. Um colosso nas mãos de uma única pessoa anunciando ao mundo que fez tudo isto: concentração-escalada de poder. E com uma ideia fundamental que explica muita coisa.

Que ideia e quais efeitos?

A computação terrestre já não é suficiente, e por isso precisamos levá-la para o exterior. Musk tem em mãos o mais ambicioso motor de inovação, realmente integrado na Terra e fora da Terra, que inclui inteligência artificial, foguetes e internet. Ele pretende instalá-lo no espaço, com comunicação direta com dispositivos móveis e uma plataforma líder para informações em tempo real e o que Musk chama de ‘liberdade de expressão’. Em essência: existem demasiadas restrições na Terra, então eu vou aonde ninguém está. Uma nova migração para outro continente, o do espaço. Especialmente porque o custo computacional da IA de próxima geração não poderá ser sustentado por servidores terrestres, então coletamos ininterruptamente energia solar em órbita a fim de alimentar as infraestruturas computacionais. Musk tem um sonho tão grande que a Terra não é suficiente para contê-lo. É o transumanismo.

Que tipo de questões levanta?

Precisamos nos perguntar que tipo de arquitetura vertical Musk está construindo. A Starlink é um serviço de internet via satélite de banda larga, e uma nova forma de valor é distribuída por meio de satélites. Ou seja, os serviços do motor de inteligência artificial Grok, os dados em tempo real, a mídia social X que funciona como uma plataforma de aquisição de dados, de loops para o Grok, e de distribuição de modelos para os usuários humanos. E, mais ainda, os robôs humanoides e as espaçonaves para lançar a infraestrutura orbital. Em um campo como o espacial, Musk conseguiu mudar as regras do jogo: um setor que era gerenciado por grandes empresas estatais e voltado para pesquisa ou fins militares se tornou um enorme mercado com a SpaceX e a Starlink.

Uma escalada desenfreada?

A narrativa pública é um pouco ideológica e sonhadora. Mas o resultado não é garantido. Musk poderia ter um sucesso incrível, superando concorrentes como OpenAI, Google e Meta em eficiência energética, e o Grok poderia se tornar o modelo padrão para todos, desde a robótica até os sistemas autônomos. Mas também pode acontecer de o dinheiro acabar e o projeto fracassar, ou de Musk sofrer um fracasso tecnológico, já que para ter esse sinal precisaria estar a 36.000 quilômetros da Terra na órbita síncrona. Isso, no entanto, é impossível para as aplicações em tempo real. Ou poderia intervir um paradigma regulatório, impedindo-o de monopolizar o setor e forçando-o a dividir o mercado. Não faltam exemplos disso no passado.

O que acredita que vai acontecer?

Ou a economia de Musk é criada, como a do Google, com toda uma cadeia de produtos para criar infraestruturas no espaço até saturar o mercado com satélites, ou intervêm outros atores como a China ou a Europa, impedindo-o de controlar tudo. Além disso, existe um problema fundamental para a ética digital e a verdade algorítmica corre o risco de se tornar uma mera projeção do proprietário da plataforma. E a verdade só parece ser verdade quando reflete a visão do criador. Cabe perguntar qual a diferença entre uma máquina que se humaniza e um homem que se mecaniza. A máquina não tem uma consciência, mas isso não significa que não possa imitar o ser humano. Pode existir um oligarca em um campo crucial para os destinos da humanidade? Tudo em uma só mão?

Uma emergência inesperada?

“Não, as empresas de Musk, como Tesla, SpaceX e Neuralink, desde sempre oferecem uma mina de ouro de problemas estruturados e complexos. A Grok foi comercializada com o ousado rótulo de inteligência artificial ‘truth seeking’, ou seja, em busca da verdade. Há três anos, o FDA tinha concedido à Neuralink de Musk a permissão para implantar seus chips cerebrais sem fio em um ser humano. Se podem ser desenvolvidos implantes biotecnológicos capazes de interagir com o cérebro, quem garante que sejam projetados para permitir que uma pessoa se expresse e se movimente, e não se tornem ferramentas para alterar o funcionamento do sistema nervoso e modificar estados mentais e cognitivos? Na Terra e fora da Terra, precisamos de regras para todos.