Por que os últimos três anos foram os mais quentes já registrados no planeta?

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15 Janeiro 2026

O ano de 2025 foi o terceiro mais quente já registrado no planeta, segundo dados do programa Copernicus, pois só foi ligeiramente mais frio (0,01°C) do que 2023 e (0,13°C) do que 2024, o ano mais quente registrado até agora. Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados. O pico do aquecimento observado entre 2023 e 2025 foi extremo e é considerado pelos cientistas mais uma evidência do ritmo acelerado do aquecimento global.

A reportagem é de Antonio Cerrillo, publicada por La Vanguardia, 14-01-2026. A tradução é do Cepat.

O que tornou os números de 2025 particularmente extraordinários foi o fato de, no ano passado, ter ocorrido uma fase de esfriamento no oceano Pacífico equatorial, de modo que os aumentos de temperaturas foram atenuados pelo efeito do La Niña. Em outras palavras, o calor dos gases do efeito estufa contrabalançou significativamente essa influência do esfriamento ao ponto de, apesar de tudo, ter ficado entre os anos mais quentes.

A temperatura média global, em 2025, foi de 14,97°C, ou seja, 0,59°C acima da média do período 1991-2020 e 0,13°C abaixo de 2024, o ano mais quente já registrado. O resultado é que as temperaturas globais dos últimos três anos (2023-2025) ultrapassaram em média 1,5 °C o nível pré-industrial (1850-1900).

Dois conjuntos de dados gerenciados pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) classificaram 2025 como o segundo ano mais quente dos 176 anos de registros.

“Pela primeira vez, os últimos três anos foram os primeiros a ficarem acima de um aumento médio de 1,5°C, em comparação ao período pré-industrial. E isto é significativo porque indica que estamos nos aproximando do limite estabelecido pelo Acordo de Paris, algo que pode ser alcançado nesta década de 2020”, destaca Carlo Buontempo, diretor do Serviço de Mudanças Climáticas do Copernicus.

O Acordo de Paris estabelece a meta de não ultrapassar o aumento de temperatura de 1,5°C em relação à era pré-industrial, mas não considerando uma ultrapassagem pontual durante um, dois ou poucos anos, mas avaliando os registros dos últimos 20 anos, para que seja representativo, pois há oscilações entre os anos. Sendo assim, não se está descumprindo (ainda) literalmente o que foi acordado na capital francesa, mas, “sim, estamos nos aproximando muito, muito rapidamente”, acrescenta o físico e climatologista.

Por isso, no ritmo atual de aquecimento, o limite de 1,5°C do Acordo de Paris pode ser alcançado no final desta década, ou seja, mais de uma década antes do previsto, quando o acordo foi assinado. No momento, o aumento (considerando esse critério de longo prazo) seria de cerca de 1,4°C acima do nível pré-industrial.

Três anos excepcionalmente quentes por duas razões principais

De qualquer forma, os últimos três anos, 2023-2025, foram excepcionalmente quentes por duas razões principais. A primeira é “o acúmulo de gases do efeito estufa na atmosfera, devido às emissões contínuas e à redução da capacidade de absorção de dióxido de carbono pelos sumidouros naturais”, considerou Copernicus. E, em segundo lugar, as temperaturas da superfície do mar alcançaram níveis excepcionalmente altos em boa parte dos oceanos.

No entanto, o ano de 2024 foi mais quente do que 2025 porque nos últimos meses daquele ano ainda houve a influência do El Niño, um fenômeno cíclico que acarreta um aquecimento que se inicia no Pacífico equatorial oriental e afeta o clima de todo o planeta.

Ao contrário, em 2025, “não houve a influência do El Niño, mas do La Niña e algumas condições do ENSO-neutro, o que significa que o Pacífico tropical não alcançou temperaturas tão intensas como em 2024”, disse Buontempo. Mesmo assim, 2025 foi um dos três anos mais quentes, “um indicativo de que estamos vivendo em um clima muito diferente do clima histórico”.

Robert Rohde, cientista-chefe da Berkeley Earth, destaca outros fatores imprevistos que amplificaram o aquecimento em poucos décimos ou centésimos de grau em escala planetária. Em particular, refere-se às regulamentações internacionais que reduziram o conteúdo de enxofre do óleo combustível para navios, a partir de 2020, do qual a atmosfera se beneficiou. Isto teve a consequência imprevista de se contribuir para o aquecimento ao diminuir as emissões de dióxido de enxofre, cujos aerossóis refletiam antes os raios do sol e tinham um efeito de esfriamento na Terra.

“O ano de 2025 começou e terminou com um esfriamento causado pelo La Niña, e mesmo assim foi um dos anos mais quentes registrados globalmente devido ao acúmulo de gases do efeito estufa que retêm o calor em nossa atmosfera”, declarou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo.

As temperaturas mais baixas observadas nas regiões tropicais durante 2025

No ano passado, as temperaturas nas zonas tropicais foram mais baixas em comparação a 2023-2024, ao passo que a temperatura do ar acima das zonas terrestres foi a segunda mais quente. De fato, os termômetros subiram mais nas regiões polares e compensaram em parte as temperaturas mais baixas observadas nas regiões tropicais.

“As regiões tropicais não desempenharam um papel fundamental em 2025. Vimos que a superfície terrestre nas latitudes médias e mais ainda nas zonas polares, inclusive de modo destacado na Antártica, tiveram um papel importante nas temperaturas recordes atingidas”, explica o responsável do programa Copernicus.

Oceanos quentes

Entre as temperaturas alcançadas pelos oceanos, destacam-se os registros no Atlântico Nordeste e no Noroeste do Pacífico, onde também vimos temperaturas recordes. Isto não vale para o Pacífico Tropical, com um registro “normal” ou frio. As temperaturas no Atlântico Tropical e no Oceano Índico também foram menos extremas em 2025 do que em 2024.

No ano de 2025, ocorreram inúmeros eventos meteorológicos extremos: ondas de calor, ciclones e tempestades violentas na Europa, Ásia e América do Norte, incêndios devastadores na Espanha, Canadá e Califórnia, cuja intensidade e frequência se veem agravadas pelo aquecimento global.

Todos esses resultados são publicados hoje pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), que administra o Serviço de Mudanças Climáticas do Copernicus.

A década mais quente

“Este relatório confirma que a Europa e o mundo estão na década mais quente já registrada”, destaca Florian Pappenberger, diretor-geral do ECMWF.

“O fato de os últimos onze anos terem sido os mais quentes já registrados oferece mais uma prova da tendência inequívoca rumo a um clima mais quente. O mundo está se aproximando rapidamente do limite de temperatura a longo prazo estabelecido pelo Acordo de Paris. Estamos destinados a ultrapassá-lo; a escolha que temos agora é como gerir melhor a inevitável ultrapassagem e suas consequências para as sociedades e os sistemas naturais”, disse Carlo Buontempo.

E como será 2026?

“A urgência da ação climática nunca foi tão grande”, apontaram diversos porta-vozes do Copernicus, em uma coletiva de imprensa. E não há indícios de que 2026 irá interromper essa tendência. Samantha Burgess, diretora adjunta do Copernicus, “prevê que 2026 será um dos cinco anos mais quentes já registrados. Poderá ser comparável a 2025”.

Cientistas climáticos da Berkeley Earth também preveem que 2026, “provavelmente, será semelhante a 2025, sendo possivelmente o quarto ano mais quente desde 1850”. Buontempo acrescenta que ainda é necessário observar o comportamento do El Niño, “pois se for um episódio forte, poderá se tornar outro ano recorde”.

“O fenômeno El Niño sempre exerce influência. A questão é que não sabemos o grau. Existem algumas simulações que indicam a possibilidade do El Niño se desenvolver, mas é muito cedo para saber. Não podemos afirmar algo com segurança antes do verão”, explica ao jornal La Vanguardia. Além disso, afirma que será necessário observar a possível incidência dos vulcões, pois a possibilidade de uma grande erupção vulcânica nos trópicos poderia reduzir um pouco a temperatura global.

O aumento das concentrações de gases do efeito estufa na atmosfera (principalmente como consequência direta das atividades humanas) continua sendo, portanto, o principal fator que impulsiona o aumento observado a longo prazo na temperatura média global.

“Os dados atmosféricos de 2025 oferecem uma imagem clara: a atividade humana continua sendo o fator dominante das temperaturas excepcionais que estamos observando. Os gases do efeito estufa atmosféricos aumentaram constantemente, durante os últimos dez anos”, acrescenta Laurence Rouil, diretora do serviço de Vigilância Atmosférica do Copernicus. “A atmosfera está nos enviando uma mensagem e devemos escutá-la”.

O risco de ultrapassar o aumento de 1,5°C em relação à era pré-industrial

Ultrapassar o limite a longo prazo de 1,5°C, mesmo que temporariamente, levaria a impactos mais extremos e generalizados, como ondas de calor mais intensas e prolongadas e tempestades e inundações mais fortes.

As condições excepcionais de 2025 resultaram em um ano marcado por eventos extremos em muitas regiões, incluindo ondas de calor recordes, tempestades severas na Europa, Ásia e América do Norte, e incêndios florestais na Espanha, Canadá e sul da Califórnia. Os estudos científicos confirmaram que as mudanças climáticas agravaram eventos meteorológicos específicos, como o furacão Melissa no Caribe e as chuvas de monção no Paquistão, que causaram a morte de mais de mil pessoas em inundações.

Em 2025, metade da superfície terrestre mundial experimentou mais dias do que o habitual de estresse térmico intenso, definido como uma temperatura percebida de 32°C ou mais. A OMS reconhece o estresse térmico como a principal causa de morte relacionada ao clima em todo o mundo. Em regiões com condições secas e frequentemente com vento, as altas temperaturas também contribuíram para a propagação e intensificação de incêndios florestais excepcionais, cujos efeitos são os poluentes atmosféricos tóxicos, como partículas em suspensão e ozônio, com repercussões para a saúde humana. Essas emissões degradaram significativamente a qualidade do ar em algumas partes da Europa e da América do Norte e tiveram efeitos potencialmente nocivos para a saúde humana, tanto em escala local quanto em escala maior.

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