Construindo uma teologia palestina em meio à ruína. Artigo de David Neuhaus, SJ

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14 Janeiro 2026

No final de cada ano, procuro algo para ler que possa abrir horizontes, prometendo um futuro melhor. O que pode me ajudar a imaginar que não precisa ser assim?

Artigo de David Neuhaus, SJ, publicado por America, 12-01-2025. 

Eis o artigo. 

Este ano — assim como nos dois últimos anos — o horizonte parece bloqueado por paredes de ódio, violência, destruição e morte em Palestina/Israel. Embora o ritmo de assassinatos em massa e destruição deliberada tenha diminuído devido ao “cessar-fogo” imposto pelos EUA, a situação horrível dos palestinos na Faixa de Gaza continua a se agravar com o frio, a chuva e a contínua falta de necessidades básicas. Na Cisjordânia, colonos apoiados pelo exército israelense continuam seu rampante de destruição. Dentro de Israel, também, reina o desespero, com dezenas de milhares de israelenses deixando o país e muitos dos que permanecem apoiando medidas discriminatórias mais severas contra os cidadãos árabes palestinos do Estado.

No último dia de 2025, soubemos que Israel havia decidido bloquear as atividades de 37 organizações não-governamentais internacionais envolvidas em assistência humanitária em Gaza; entre elas está a Caritas Católica, que tem ajudado a paróquia católica e seus vizinhos a sobreviver nos últimos dois anos. Foi nesse clima sombrio que peguei uma nova antologia de ensaios: The Cross and the Olive Tree: Cultivating Palestinian Theology Amid Gaza (A Cruz e a Oliveira: cultivar a teologia palestina em meio a Gaza, em tradução livre), de John S. Munayer e Samuel S. Munayer.

A teologia palestina, como toda teologia formulada à margem, lembra aos cristãos que Deus se importa profundamente com todos os filhos de Deus — e de maneira especial com aqueles que sofrem as chagas da discriminação e opressão, da violência e destruição. A teologia palestina não apenas confronta e desafia o discurso teológico que legitima o despojo do povo palestino; ela também nutre espiritualmente a vida palestina diante das forças que buscam arrancá-la e destruí-la.

Seguindo pensadores cristãos palestinos notáveis como Michel Sabbah (o patriarca latino emérito) e Rafiq Khoury, o padre anglicano Naim Ateek, os pastores luteranos Mitri Raheb e Munther Isaac e outros, uma nova geração aparece neste volume. É uma confirmação reconfortante de que os cristãos palestinos não apenas sobrevivem ao último ataque, mas também têm capacidade de pensar e falar, agir e ministrar ao seu povo. Como escrevem os dois editores, a teologia cristã palestina não pode se preocupar apenas com a sobrevivência, mas deve passar “da mera preservação à ação ativa”.

Na introdução, os editores declaram: “Gostaríamos que este livro não precisasse existir.” A antologia deles está enraizada na tragédia do povo palestino. Uma das contribuidoras do volume, Marah Sarji, define um tom que ressoa por todo o livro, explicando que este escrito examina “o que corpos torturados podem nos ensinar sobre a cruz e se a divindade pode ser encontrada em meio à violência implacável.”

É particularmente notável a experiência das mulheres palestinas como locus e foco da reflexão teológica. O belo capítulo de Yousef AlKhouri, intitulado “A Fé de Teita”, foca em sua cidade natal em Gaza. Identificando suas duas avós (teita é a palavra árabe usada para se referir a avós), ele as descreve amorosamente como fonte de resiliência e sabedoria em meio à violência. “O amor inabalável delas por seu Senhor, sua terra, seus vizinhos e até seus inimigos encarna uma vida cristã que aspira trazer justiça, paz e reconciliação.” Além disso, o escritor insiste: “Vemos Deus encarnado naqueles que praticam o cuidado, particularmente mulheres.” Marah Sarji também enfatiza este foco nas mulheres, escrevendo: “Elas continuam a refletir o amor divino para com seus parentes… Mulheres incorporam a verdade da vida e do amor em meio à destruição.”

Em outro ensaio, Daniel Munayer enuncia como se poderia trabalhar pela reconciliação em meio aos horrores que engolfam a Palestina. Ele está ciente de que muito do suposto trabalho por “reconciliação” e “paz” está firmemente enraizado nas próprias estruturas e no discurso do status quo que promove ocupação, discriminação e destruição genocida. Organizações com orçamentos inflados, chamando-se de instrumentos de pacificação, proliferam. No entanto, são incapazes de transformar a realidade porque não se distanciaram da terminologia e das práticas dos perpetradores que buscam desafiar.

O autor exige que aqueles que trabalham por uma verdadeira reconciliação em Palestina/Israel se engajem em discernimento radical. Os judeus israelenses devem examinar cuidadosamente as ideologias que criaram a catástrofe na qual os palestinos são as principais vítimas. Eles devem estar dispostos a abrir mão dos privilégios que o status quo lhes concede, pagando o preço que a igualdade e a justiça exigem, incluindo reparações, reconhecimento público de décadas de violência e destruição e o arrependimento multigeracional que deve seguir.

No entanto, o autor também adverte os oprimidos. Eles devem evitar cuidadosamente resistir à opressão de maneira que os transforme em opressores. “Uma visão de libertação sem reconciliação corre o risco de se tornar uma inversão de papéis, na qual os oprimidos adotam as estruturas e práticas dos opressores para se tornarem os novos governantes da terra e do povo”, escreve. O único caminho é transcender a “dicotomia nativo-colono”, criando um novo discurso que permita emergir uma realidade firmemente fundada nos valores de igualdade, justiça e paz.

Outra contribuição valiosa em The Cross and the Olive Tree vem de Lamma Mansour, que reflete sobre o papel da imaginação em meio à catástrofe. Ela explica como uma imaginação do reino de Deus baseada no Evangelho pode servir como a ponte necessária “entre o Já e o Ainda Não”. Contextualizar essa tensão cristã fundamental no cenário da Palestina contemporânea abre um horizonte no coração do horror. A luta para preservar a imaginação é “reivindicar o reino do possível que foi deliberadamente restringido pelos sistemas de dominação”, escreve. No espaço que é reivindicado, a imaginação pode “perturbar o desespero, o cinismo e o fatalismo que muitas vezes se enraízam nos corações daqueles que vivem sob opressão.”

Inspirada pelo trabalho seminal de Walter Brueggemann, Mansour descreve uma “imaginação profética” que pode energizar e inspirar mesmo entre os escombros e a ruína, servindo como catalisador para uma visão além dos horizontes selados da conquista e destruição. Esta coletânea me permitiu imaginar um novo ano com uma centelha de esperança.

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