Petróleo da Venezuela vai turbinar a crise do clima. Artigo de Marcelo Leite

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08 Janeiro 2026

"As reservas globais de petróleo confirmadas estão em torno de 1,6 a 1,8 trilhões de barris, o que redundaria numa emissão de 800 a 900 GtCO2e, caso extraídos. Se for para cumprir o acordado em Paris, 550 a 750 GtCO2e (69% a 83% das reservas, entre quatro e cinco Venezuelas) terão de permanecer no subsolo, ou será preciso apelar para contabilidade criativa de emissões negativas (captura de carbono)", escreve Marcelo Leite, em artigo publicado por Folha de S.Paulo, 06-01-2026 e reproduzido por André Vallias no seu Facebook, 07-01-2026.

Eis o artigo.

O sequestro do ditador Nicolás Maduro pelo governo dos EUA a mando de Donald Trump, sob pretexto de combater o narcotráfico na Venezuela, entrará para a história como patranha do calibre das armas de destruição em massa usada para justificar a invasão do Iraque em 2003. Não é por acaso que os dois países figuram entre os cinco com maiores reservas de petróleo.

A Venezuela aparece no alto dessa lista, com reservas comprovadas de 303 bilhões de barris, segundo a Opep, Organização dos Países Exportadores de Petróleo (o Iraque, em quarto lugar, tem 145 bilhões). Qual a implicação para a crise climática da promessa de fazer voltar a fluir todo esse combustível fóssil?

O compromisso do presidente norte-americano está em linha com sua política negacionista do aquecimento global, que engatou marcha à ré nos incentivos para carros elétricos, energia limpa de fonte eólica e fotovoltaica e reconsiderou a perfuração de poços no Alasca e em alto-mar. Sua máxima "drill, baby, drill" chegou até à boca da presidente da Petrobras, Magda Chambriard.

Dessa perspectiva, parece inconcebível que a Venezuela, ali no quintal dos EUA, forneça hoje só 1% do petróleo mundial. Trump se mostra disposto a tudo para garantir que empresas de seu país voltem a lucrar com a queima das reservas venezuelanas, turbinando o efeito estufa com carbono liberado na atmosfera.

Cada barril de petróleo, grosso modo, resulta na emissão de meia tonelada equivalente de dióxido de carbono (0,5 tCO2e). É o principal gás do efeito estufa e medida na qual se convertem quantidades de outros gases que também aprisionam radiação solar na atmosfera terrestre.

Se todo o óleo venezuelano fosse explorado, emitiria no mínimo 150 bilhões de toneladas (150 GtCO2e), segundo cálculo de Tasso Azevedo, criador do Seeg, sistema de estimativas de emissões de gases de efeito estufa do Observatório do Clima.

Como isso de compara com as emissões atuais do setor?

As emissões globais do petróleo estão na casa de 14 a 15 bilhões de toneladas por ano. Computando todos os combustíveis fósseis, ou seja, incluindo carvão mineral e gás natural, isso salta para 38 a 40 GtCO2e/ano. Quando se somam emissões de outras fontes —indústria, agricultura, desmatamento etc.—, chega-se a 58 GtCO2e/ano.

A conta mais importante não é essa, porém. No que toca à crise climática, a referência principal está no orçamento de carbono, vale dizer, quanto a economia global poderá emitir (500 GtCO2e) após o ano-base 2020. Como nesses cinco anos já se foram aí umas 250 GtCO2e, resta só metade para torrar.

É a condição para haver 66% de chance de cumprir a meta prudencial do Acordo de Paris e de refrear o acúmulo de eventos extremos (tempestades, enchentes, vendavais, secas, ondas de calor, incêndios), que já se manifestam. A COP21 na capital francesa fixou em 2015 o limite de 1,5°C de aquecimento acima do registrado na era pré-industrial.

No século 18, a concentração de CO2 na atmosfera era de 280 partes por milhão (ppm). Hoje estamos perto de 430 ppm, e o excesso de temperatura em 2025 deve fechar acima de 1,4°C, cravando o segundo ano mais quente no registro histórico, atrás só de 2024.

As reservas globais de petróleo confirmadas estão em torno de 1,6 a 1,8 trilhões de barris, o que redundaria numa emissão de 800 a 900 GtCO2e, caso extraídos. Se for para cumprir o acordado em Paris, 550 a 750 GtCO2e (69% a 83% das reservas, entre quatro e cinco Venezuelas) terão de permanecer no subsolo, ou será preciso apelar para contabilidade criativa de emissões negativas (captura de carbono).

Essa é a conta que Trump & cia se negam a fazer.

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