07 Janeiro 2026
“Depois deste ano, seremos mais capazes de reconhecer no visitante um peregrino, no desconhecido um buscador, no distante um vizinho, no diferente um companheiro de viagem?”, perguntou o Papa na homilia da missa da Epifania.
A informação é de José Lorenzo, publicada por Religión Digital, 06-01-2025.
"Perguntemo-nos: Há vida em nossa Igreja? Há espaço para o que está nascendo? Amamos e proclamamos um Deus que nos coloca em um caminho?" Na homilia da Santa Missa na Solenidade da Epifania do Senhor, e depois que Leão XIV presidiu esta manhã o rito do Fechamento da Porta Santa na Basílica de São Pedro, com o qual se encerrou o Jubileu da Misericórdia inaugurado por Francisco, essas três perguntas simples, diretas e claras não soaram retóricas, mas, na realidade, como uma porta que se fecha com força.
“A Porta Santa desta Basílica, que hoje foi a última a se fechar, viu passar inúmeros homens e mulheres, peregrinos da esperança, a caminho da Cidade das portas sempre abertas, a nova Jerusalém. Quem eram eles e o que os movia?”, voltou a interrogar o Papa.
“Que corações, que atenção, que reciprocidade?” “Interpela-nos com particular seriedade, ao término do Ano jubilar, a busca espiritual de nossos contemporâneos, muito mais rica do que talvez possamos compreender. Milhões deles atravessaram o limiar da Igreja. O que encontraram? Que corações, que atenção, que reciprocidade?”, lançou o Papa Prevost no ar da Basílica de São Pedro, repleta de fiéis, dos últimos peregrinos que ainda ontem cruzaram a porta agora fechada, mas também já com cardeais vindos de todo o mundo e que, a partir de amanhã, participarão do consistório extraordinário para o qual foram convocados.
Usando a imagem viajante dos três magos, recordou que “somos vidas em caminho” e que o próprio Evangelho “leva a Igreja a não temer esse dinamismo, mas a valorizá-lo e orientá-lo para o Deus que o suscita”, manifestando seu desejo de que “lugares santos como as catedrais, as basílicas e os santuários, convertidos em meta de peregrinação jubilar, difundam o perfume da vida, o sinal indelével de que outro mundo começou”.
E então, sem se alterar, como se as perguntas lhe caíssem da boca, soou assim: “Perguntemo-nos: há vida em nossa Igreja? Há espaço para aquilo que nasce? Amamos e anunciamos um Deus que nos põe a caminho?” “Como é importante que aquele que cruza a porta da Igreja perceba que o Messias acaba de nascer ali, que ali se reúne uma comunidade onde surgiu a esperança, que ali está sendo realizada uma história de vida”, enfatizou em seguida.
“O Jubileu veio recordar-nos que é possível recomeçar; mais ainda, que ainda estamos nos começos”, observou, afirmando agora de modo categórico que “sim, Deus questiona a ordem existente; tem sonhos que inspira também hoje a seus profetas; está decidido a nos resgatar de antigas e novas escravidões; em suas obras de misericórdia, nas maravilhas de sua justiça, envolve jovens e idosos, pobres e ricos, homens e mulheres, santos e pecadores. Sem fazer ruído; contudo, seu Reino já está brotando em todo o mundo”.
“Amar a paz, buscar a paz, significa proteger o que é santo e que, justamente por isso, está nascendo: pequeno, delicado e frágil como uma criança. Ao nosso redor, uma economia deformada tenta tirar proveito de tudo. Vemos isso: o mercado transforma em negócio até a sede humana de buscar, de viajar e de recomeçar. Perguntemo-nos: o Jubileu nos educou a fugir desse tipo de eficiência que reduz qualquer coisa a produto e o ser humano a consumidor? Depois deste ano, seremos mais capazes de reconhecer no visitante um peregrino, no desconhecido um buscador, no distante um vizinho, no diferente um companheiro de viagem?”, perguntou o Papa.
O Menino que os magos adoram, acrescentou o papa Prevost, “não nos espera nos lugares prestigiosos, mas nas realidades humildes”, e voltou a enfatizar: “Sim, o Senhor continua a nos surpreender! Deixa-se encontrar. Seus caminhos não são os nossos caminhos, e os violentos não conseguem dominá-los, nem os poderes do mundo podem obstruí-los. Aqui reside a grandíssima alegria dos magos, que deixam para trás o palácio e o templo para ir a Belém; e é então que voltam a ver a estrela!”.
Por isso — concluiu Leão XIV — “é belo tornar-se peregrinos da esperança”, assegurando que “se não reduzirmos nossas igrejas a monumentos, se nossas comunidades se tornarem lares, se rejeitarmos juntos as seduções dos poderosos, então seremos a geração da aurora”, na qual, caminhando com Maria, “em seu Filho contemplaremos e serviremos a uma humanidade magnífica, transformada não por delírios de onipotência, mas pelo Deus que se fez carne por amor”.
A homilia do Papa
Queridos irmãos e irmãs:
O Evangelho (cf. Mt 2,1-12) narrou-nos a grandíssima alegria dos magos ao verem a estrela, mas também a perturbação experimentada por Herodes e por toda Jerusalém diante de sua busca. Sempre que se trata das manifestações de Deus, a Sagrada Escritura não esconde esse tipo de contrastes: alegria e perturbação, resistência e obediência, medo e desejo. Celebramos hoje a Epifania do Senhor, conscientes de que, diante de sua presença, nada permanece como antes.
Surpreende o fato de que seja precisamente Jerusalém, a cidade testemunha de tantos novos começos, a que esteja perturbada. Em seu seio, aquele que estuda as Escrituras e pensa ter todas as respostas parece ter perdido a capacidade de fazer perguntas e de cultivar desejos.
A Porta Santa desta Basílica, que hoje foi a última a se fechar, viu passar inúmeros homens e mulheres, peregrinos da esperança, a caminho da Cidade das portas sempre abertas, a nova Jerusalém (cf. Ap 21,25).
Homo viator, diziam os antigos. Somos vidas em caminho. O Evangelho leva a Igreja a não temer esse dinamismo, mas a valorizá-lo e orientá-lo para o Deus que o suscita.
No relato, Herodes teme por seu trono, agita-se diante do que lhe escapa ao controle.
Os magos trazem a Jerusalém uma pergunta simples e essencial: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?”.
Quantas epifanias nos foram dadas ou ainda nos serão dadas!
O modo como Jesus foi ao encontro de todos e deixou que todos se aproximassem dele ensina-nos a valorizar o segredo dos corações que só Ele sabe ler, como recorda o Concílio Ecumênico Vaticano II, na constituição pastoral Gaudium et Spes.
“E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá”.
Por isso, queridos irmãos e irmãs, é belo tornar-se peregrinos da esperança. Maria, Estrela da manhã, caminhará sempre à nossa frente. Em seu Filho contemplaremos e serviremos a uma humanidade magnífica, transformada não por delírios de onipotência, mas pelo Deus que se fez carne por amor.
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