06 Janeiro 2026
O casal presidencial em Manágua reagiu com cautela ao ataque americano à Venezuela. Washington também designou a nação centro-americana como país de trânsito para o tráfico de drogas.
A reportagem é publicada por El País, 06-01-2026.
A captura e deposição de Nicolás Maduro por meio de um atentado a bomba nas primeiras horas de 3 de janeiro em Caracas teve efeito imediato em Manágua, especificamente no bairro de El Carmen, onde Daniel Ortega e Rosario Murillo vivem e trabalham em um reduto urbano protegido por policiais e soldados. Os copresidentes permaneceram em silêncio por quase 14 horas após o ataque ordenado pelo presidente Donald Trump e, quando finalmente reagiram, o fizeram com uma cautela incomum, sem a retórica bombástica dos comunicados sandinistas que normalmente cravam adjetivos depreciativos no homem a quem chamam de "ianque invasor".
Tampouco mencionaram o presidente republicano pelo nome na declaração, que desta vez foi assinada pelo "Governo de Reconciliação e Unidade Nacional", e não pelo casal governante, como costuma ser o costume em assuntos de sua importância.
“Apoiamos integralmente o apelo da Vice-Presidente da Venezuela, Camarada Delcy Rodríguez, para defender a Verdade, a Justiça e a Vida, e para exigir a libertação imediata do Presidente Nicolás Maduro e da Camarada Cilia Flores”, lê-se no primeiro comunicado oficial. Na sequência, observou-se a presença policial no complexo El Carmen, segundo fontes sandinistas consultadas pelo EL PAÍS.
Na manhã de sábado, os moradores também notaram um aumento da presença policial nas ruas de Manágua, que, desde os protestos de 2018, permanece sob vigilância constante como parte de um estado policial em todo o país. A prisão do jornalista aposentado Oswaldo Rocha também foi noticiada; ele foi acusado de comentar a queda de Maduro nas redes sociais.
O casal Maduro-Flores eram os principais aliados de Ortega e Murillo, embora a relação tivesse se deteriorado devido às crises internas de ambos os regimes. Em particular, as visitas habituais do líder chavista deposto a Manágua, todo dia 19 de julho, aniversário da revolução sandinista, foram completamente eliminadas.
O apoio econômico de Caracas a Manágua também havia diminuído, mas eles eram, sem dúvida, parceiros políticos e ideológicos próximos. Até a publicação deste artigo, apenas Murillo quebrou o silêncio, e muito timidamente, em seu pronunciamento diário, após Jaime Hermida Castillo, Representante Permanente da Nicarágua na ONU, ter transmitido uma breve mensagem de solidariedade nesta segunda-feira na reunião do Conselho Permanente convocada pela Colômbia.
“Nestes dias tão particulares, em que a segurança e a paz foram feridas em nossa América Caribenha, declaramos nossa infinita fraternidade ao glorioso povo de Bolívar, de Chávez, de Nicolás, esse povo honrado que hoje se ergue acima de todas as misérias para exigir justiça e respeito pela dignidade de cada um, e pelas vidas de Nicolás e Cilia, queridos irmãos e irmãs que foram sequestrados e transferidos ilegalmente para os Estados Unidos, onde pretendem continuar ferindo a autoridade, a dignidade e a honra de todos”, declarou Murillo em tom confrontador.
Nicarágua associada ao Cartel dos Sóis
Para os críticos do governo nicaraguense, os temores de Ortega e Murillo não são infundados, visto que o governo Trump, especialmente o secretário de Estado Marco Rubio, considera esses países, juntamente com Caracas e Havana, como algumas das ditaduras a serem eliminadas no hemisfério. Isso se deve também ao fato de Washington ter vinculado a Nicarágua aos carregamentos de cocaína provenientes da Venezuela, por ser um país de trânsito.
Os autos do processo contra Maduro mencionam explicitamente a Nicarágua como país de trânsito, citando inclusive um incidente envolvendo Diosdado Cabello, figura-chave no círculo íntimo do chavismo. “Por volta de 2009, Nicolás Maduro Moros, Diosdado Cabello Rondón e Hugo Armando Carvajal participaram de uma reunião com um representante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), na qual discutiram um carregamento de quatro toneladas de cocaína que as FARC estavam preparadas para transportar ao Cartel dos Sóis. Cabello Rondón indicou que as FARC entregariam a cocaína em um ponto específico da Venezuela, onde um avião estaria esperando para transportá-la para a Nicarágua, de onde seria então enviada para o México e importada para os Estados Unidos”.
É o que consta na primeira acusação apresentada pelo sistema judicial dos EUA em 2011, inicialmente contra Hugo Carvajal, ex-chefe da inteligência militar chavista, que foi ampliada em 2019 por meio de uma acusação substitutiva que incorporou acusações de narcoterrorismo contra Maduro, Cabello e outras figuras de alto escalão do regime venezuelano.
Contudo, na atual acusação contra Maduro, a Nicarágua não é citada como ponto de trânsito para narcóticos com destino ao norte, ao contrário de Honduras, Guatemala e México. Mesmo assim, a acusação se refere à "América Central" como um corredor de tráfico de drogas, o que, segundo especialistas jurídicos envolvidos nesse tipo de caso, abre espaço para que detalhes venham à tona durante o julgamento de Maduro e possam incriminar o regime nicaraguense.
Os documentos judiciais nos Estados Unidos também não mencionam nenhum funcionário do regime Ortega-Murillo envolvido no tráfico de cocaína. O casal presidencial também não fez qualquer referência a essas alegações. No entanto, esta não é a primeira vez que os Estados Unidos identificam a Nicarágua como uma rota livre para o narcotráfico. Independentemente do julgamento contra Maduro e seus associados, Washington designou a Nicarágua, em setembro de 2015, como “um país-chave de trânsito de drogas”.
Essa designação, emitida pelo Departamento de Estado, ocorreu em um contexto específico: as operações de Washington no Caribe venezuelano, o prelúdio da grande operação militar que culminou na captura de Maduro e sua esposa. Essa designação minou o principal argumento do suposto "muro de contenção" com o qual Ortega e Murillo tentaram obter o apoio dos Estados Unidos, retratando o Exército nicaraguense como garantidor da luta contra as drogas na região.
As relações entre Manágua e Washington no que diz respeito ao combate ao narcotráfico e ao crime organizado também estão paralisadas, depois que os Estados Unidos anunciaram, em junho de 2025, a retirada da Agência Antidrogas (Drug Enforcement Administration, conhecida pela sigla DEA) da Nicarágua devido à "falta de cooperação" do regime sandinista.
Para o advogado e analista Juan Diego Barberena, a operação em Caracas tem um efeito inequívoco em Manágua: “Obriga Ortega e Murillo a se verem refletidos em Maduro, que, por não saber como nem querer sair, acabou na prisão”. Esse precedente, em meio à crise de sucessão do regime nicaraguense, reconfigura os cálculos de poder e sobrevivência da atual presidência.
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