Os avós "adotivos" de Jesus. Artigo de Gianfranco Ravasi

Iconografia ortodoxa de Joaquim e Ana com Maria no colo (Foto: Pxhere | Domínio Público)

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06 Janeiro 2026

"Às vésperas do Natal (...) colocamos em cena quase dois avós "adotivos" de Jesus, além daqueles que lhe são atribuídos pela tradição apócrifa do Protoevangelho de Tiago", escreve Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 21-12-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Rumo à Noite Santa. Simeão e Ana, duas figuras que merecem ser mais conhecidas. Um "homem justo e piedoso" e uma viúva: vamos tentar conhecê-los melhor.

O rev. Harding, um clérigo anglicano e violoncelista, já idoso e incapacitado, arrasta-se até o instrumento trancado em um armário. Ele o pega entre as mãos e, entregando-se à "loucura de seus velhos dedos", começa a dedilhar as cordas, emitindo "um gemido muito baixo, breve e intermitente". Ele agora compreendeu que sua vida completou o ciclo da existência e, assim, "com um doce sorriso", repete a invocação: "Senhor, agora deixai vosso servo ir em paz! Senhor, agora deixai vosso servo ir em paz!"

Assim termina o romance "O Guardião", de Anthony Trollope (1815-82), um dos escritores vitorianos mais prolíficos, dotado de surpreendente criatividade e refinamento estilístico, apesar de ter sido obrigado a escrever cerca de cinquenta romances para complementar seu modesto salário de empregados dos correios, também em memória do empenho de sua mãe. Ela, para sustentar sua família de parcas posses, produzia incessantemente livros de viagem e obras de ficção.

Colocamos em cena agora uma de suas personagens justamente por causa daquelas últimas palavras repetidas, como uma despedida. Alguns já devem ter adivinhado o motivo: trata-se de uma citação evangélica do cântico murmurado por outro ancião, um certo Simeão, que ia diariamente ao Templo de Jerusalém para orar. E um dia, na fila de pais que ali iam para um rito especial, ele ficou impressionado com um casal modesto e seu recém-nascido. A criança fora levada ao santuário de Israel para cumprir um rito bíblico duplo: a “purificação” de sua mãe, segundo uma norma escrita no terceiro livro da Bíblia, o Levítico (capítulo 12), e sua “redenção”, pois – sempre de acordo com a legislação sagrada formulada no livro de Êxodo (12,2) – “todo primogênito do sexo masculino era sagrado ao Senhor” e, portanto, precisava ser com uma oferta reabilitado para retornar como filho do casal.

O sacerdote judeu, desconhecido por nós, encarregado do rito, certamente terá realizado o ato apressadamente para agilizar a fila. Para ele, Maria, José e o recém-nascido Jesus, originários da distante vila de Nazaré, ao norte, nada diziam. Não foi o caso daquele idoso, “um homem justo e piedoso”, Simeão, que nutria uma premonição em seu coração: “O Espírito Santo lhe havia revelado que ele não morreria antes de ver o Cristo do Senhor”. Toda a história "natalina" que apresentamos agora é extraída do Evangelho de Lucas (2,22-38).

Bem, naquele dia, Simeão tem uma iluminação e aponta para o pequeno Jesus, segura-o ternamente em seus braços e entoa justamente cântico cujo início o rev. Harding citará. É conhecido como Nunc dimittis, a partir das primeiras palavras da versão latina da Vulgata de São Jerônimo, e faz parte da oração litúrgica vespertina das "Completas" desde o século V.

O início é doce e pessoal e diz literalmente assim: "Deixai, agora, vosso servo ir em paz, conforme prometestes, ó Senhor. Pois meus olhos viram vossa salvação...". No entanto, não é, como imaginava o padre de Trollope, uma despedida melancólica e crepuscular da vida: houve até um exegeta, Douglas R. Jones, que classificou o hino como um cântico fúnebre cantado pelo cristianismo primitivo durante os funerais dos fiéis. Trata-se, na verdade, de uma saudação festiva ao alvorecer messiânico, "a luz que se revela ao povo", uma era prestes a despontar, inaugurada por aquela criança.

Contudo, Simeão — além desse hino, repetidamente musicado (Orlando di Lasso compôs doze partituras para quatro a sete vozes!) — também profere dois oráculos duros que pairam sobre o futuro do recém-nascido e de sua mãe. O pequeno Jesus, uma vez adulto, será um "sinal de contradição" que gerará opções opostas e até mesmo rejeição agressiva (estará na raiz da "queda e ressurreição de muitos"). Com sua ênfase inata, Giovanni Papini o definirá como "o maior Inversor, o supremo ‘Paradoxista’, o Perturbador radical e sem medo".

Até mesmo sua mãe, Maria, recebe um oráculo severo: ela será transpassada na alma por uma espada. Assim como a lança do soldado romano perfurará o lado de seu filho crucificado, ela também compartilhará a tragédia da rejeição. A iconografia da Virgem dolorosa com o coração transpassado por uma ou sete espadas nasceu das palavras de Simeão. Mais do que uma evocação de seu martírio, como foi interpretado no passado, Maria estará na encruzilhada da luta a favor ou contra Cristo, participando da "contradição" provocada por seu filho.

Naquele dia, porém, há outra presença diante do recém-nascido Jesus. Trata-se de uma viúva de 84 anos chamada Ana, da tribo de Aser (epônimo do oitavo filho do patriarca Jacó), semelhante a muitas mulheres idosas que frequentam fielmente os templos em oração. Diferentemente de Simeão, Lucas não cita suas palavras, mas apenas recorda que ela também se emociona com o menino, "louvando a Deus e falando do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém".

Às vésperas do Natal, portanto, colocamos em cena quase dois avós "adotivos" de Jesus, além daqueles que lhe são atribuídos pela tradição apócrifa do Protoevangelho de Tiago (século II), citando os nomes dos pais de Maria: se o avô se chama Joaquim, Ana, a avó — como a mãe do profeta Samuel — carrega o mesmo nome da viúva idosa do Templo de Sião que naquele dia se comoveu diante do recém-nascido Jesus.

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